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Luccas Neto, dono do maior canal infantil do mundo, diz ter pé atrás com YouTube

Após abrasileirar o vocabulário de crianças portuguesas, ele planeja dublar seus vídeos em português de Portugal

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Ribeirão Preto

Luccas Neto e a Escola dos Aventureiros - O Musical

  • Quando Sáb. (26) e dom. (27) às 13h
  • Onde Espaço das Américas (r. Tagipuru, 795, São Paulo)
  • Preço De R$ 100 a R$ 300
  • Classificação Livre

Dono do maior canal do mundo de conteúdo infantil no YouTube, Luccas Neto, de 30 anos, tem uma carreira atravessada por polêmicas. Elas vão de batalhas travadas na Justiça contra nomes de peso da internet, como a ex-BBB Viih Tube, a enxurradas de críticas de pais, mães, professores e, mais recentemente, até de famílias portuguesas, que acusam o influenciador de abrasileirar suas crianças.

É que, seguindo os passos de seu irmão, Felipe Neto, Luccas começou sua carreira na internet como "hater" —termo importado do inglês para batizar quem se dedica a criticar algo ou alguém no mundo virtual sem muitos escrúpulos. Seu primeiro canal, hoje extinto, era chamado Hater Sincero.

Guto Costa/Divulgação
Luccas Neto é dono do maior canal de conteúdo infantil do mundo no YouTube - Luccas Neto é dono do maior canal de conteúdo infantil do mundo no YouTube

Foi nele que Luccas Neto chamou crianças que admiravam youtubers de "retardadas e burras" e Viih Tube de "mão de pica" por dizer ter visto um vídeo da youtuber acariciando intimamente seu namorado, o que rendeu à jovem uma indenização de R$ 40 mil após um processo que correu na Justiça entre 2016 e 2020.

Mas isso tudo são águas passadas, numa prova de que, no morde e assopra da internet, nenhum cancelamento parece ser eterno. Alguns, como o da mesma youtuber que processou Luccas, podem até ser monetizados —criticada por ter cuspido na boca de um gato e ter sido estrategista demais no BBB, ela lançou um livro sobre o assunto, o "Cancelada".

Foi então que, desde que passou a criar conteúdo para os baixinhos, há sete anos, Luccas tem trabalhado para "ter uma plataforma segura para as crianças" e "ajudar os pais a educarem seus filhos".

Para conquistar a confiança das famílias, o influenciador diz que precisou apagar quase uma centena de publicações que acumulavam nada menos do que 4 bilhões de visualizações, o que fez diminuir a renda que ele obtinha a partir de anúncios publicitários exibidos antes e durante os vídeos.

Não eram publicações feitas no Hater Sincero, mas já em seu canal infantil, com títulos como "Comprei R$ 500 de Brinquedos nos Estados Unidos" ou "Misturei Todos os Chicletes e Provei" e suas variações com chocolate —entre elas, o vídeo mais marcante de sua carreira, em que ele enchia uma banheira de porcelana com 80 litros de Nutella.

Este conteúdo, Luccas diz, foi considerado prejudicial para as crianças pelos professores, psicólogos e psicopedagogos que ele contratou quando criou seu estúdio, que hoje emprega, num prédio de 2.000 metros quadrados no Rio de Janeiro, 150 pessoas, entre roteiristas, cinegrafistas, atores e os demais profissionais envolvidos no trabalho.

Era prejudicial, Luccas afirma, porque ele dizia nos vídeos "muita coisa no imperativo" —isto é, levava as crianças a quererem repetir em casa seus passos. "Quando comecei a contratar especialistas em educação infantil, fizemos uma limpa no canal e deixamos só o que era saudável para as crianças", ele conta. "Comecei a estudar sobre leis de publicidade infantil e era [errado] pelas palavras que eu usava, pela forma que eu falava, por incentivar o consumismo, o que não combina com o que eu quero hoje."

A partir de então, os vídeos passaram a não mais retratar Luccas segurando uma câmera e comprando comida e brinquedo a torto e a direito, mas viraram esquetes que, a certa distância geracional, lembram as histórias que eram produzidas pela TV Cultura nas décadas passadas. São mudanças que ele considera naturais.

"Quando começou a televisão, era tudo liberado, [até que] foram vendo quão prejudicial certas coisas eram para as crianças. Com a internet, está sendo a mesma coisa. Mas os pais têm que observar tudo o que as crianças consomem, porque elas podem sair de um vídeo meu e ir para qualquer outro lugar no mundo da internet", diz.

Não que ele não venda brinquedos. Pelo contrário. Hoje, existem 150 produtos inspirados em Luccas Neto e seus personagens, como Gi, a ​​Giovanna Alparone, uma atriz de 12 anos vista em quase todos os vídeos do canal. Há, ainda, três marcas a serem exploradas —"Os Aventureiros", "Escola Fantástica" e "Príncipe Lu".

É que a preocupação vai além de não incomodar os pais. Se um dia o YouTube não for mais suficientemente rentável, ele afirma, os vídeos não poderão entrar noutras plataformas de streaming como a Netflix se forem uma vitrine sem fim de produtos.

"Por enquanto, não [pretendo sair do YouTube], mas é uma coisa em que penso todos os dias", diz. "Tenho que estar sempre com uma pulga atrás da orelha. O YouTube cortou em 70% a monetização dos canais de vídeos infantis."

Com isso, a plataforma de vídeos, que hoje representa 15% do lucro da empresa, virou "uma vitrine" para lançar outros negócios, nas palavras do influenciador. E eles não são poucos. Até o momento, Luccas Neto lançou 13 filmes, boa parte deles para a Netflix, e tem outro em produção, agora para os cinemas, pela Warner Brothers. São histórias protagonizadas pelos mesmos personagens que povoam seus livros, como "Luccas e Gi em o Belo Dorminhoco", que acaba de chegar às livrarias.

Há, ainda, turnês atrás de turnês. Também com esquetes e gincanas interativas, seus shows venderam em 2019 cerca de 300 mil ingressos por 40 cidades do país. Em cartaz no Espaço das Américas no próximo fim de semana, eles também fizeram sucesso em Portugal no ano passado, com ingressos esgotados em quase todas as sessões, ao mesmo tempo em que alguns pais diziam aos jornais estarem "preocupados" ao ouvirem de seus pequenos um "oi, beleza?" ou verbos conjugados no gerúndio em vez da construção habitual no infinitivo.

"Nunca tinha escutado reclamação. Foi na internet, com poucas pessoas, só que, como virou meme, começou a viralizar e acabou criando uma rixa", diz Luccas, ele próprio com ascendência portuguesa. "Mas é aquilo. A gente é uma empresa e quer ficar bem com todo mundo. Se isso incomoda, vamos trabalhar para resolver. Começamos a pensar em dublar [os vídeos] em português de Portugal, porque queremos agradar ao máximo de pessoas possíveis."

A estratégia de evitar desagradar aos pais também atravessa sua persona pública. Apesar de vez ou outra abordar temas polêmicos nos vídeos, como abuso sexual, ensinando as crianças de maneira lúdica a como evitar a agressão, Luccas Neto não fala, por exemplo, de política ou do irmão, Felipe, que, por criticar o governo Bolsonaro diariamente, diz que precisou tirar a mãe do país para protegê-la e preservar sua segurança.

"Tem assuntos, [como diversidade sexual], que ainda não sabemos como passar para a criança, mas já estamos trabalhando nisso", ele diz. "Em breve, acredito que a gente consiga chegar nisso. Mas requer tempo e investimento. Não vejo problema nenhum nesse tipo de assunto. Só acho que tem que tocar da melhor forma possível, e talvez a gente não esteja preparado."

Luccas e Gi em O Belo Dorminhoco

  • Preço R$ 39,90 (32 págs.)
  • Autor Luccas Neto
  • Editora Ediouro
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