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Cinema

Oscar mostra desespero com sua audiência e quer ser pop a qualquer custo

Público vem caindo vertiginosamente nos últimos anos e, agora, Academia tentar emplacar categoria de filme favorito dos fãs

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a imagem mostra uma estatueta do oscar cortada na diagonal por 2 cores diferentes: a cor amarela escuro representa os filmes do oscar concorrendo as categorias pop, através de imagens recortadas em preto e branco de personagens dos filmes 007, homem-aranha, casa gucci e cinderela. o outro lado está na cor preta e representa os filmes das categorias clássicas com imagens em preto e branco dos filmes licorice pizza, ataque dos cães, belfast e  amo sublime amor

Estatueta do Oscar rodeada de cenas dos principais indicados Silvis

Looks luxuosos, gente discursando e várias horas em frente à televisão. É dessa forma que a maioria das pessoas se lembra da cerimônia do Oscar, que acontece anualmente, mas nunca com muita novidade. Neste ano, no entanto, os produtores da cerimônia estão especialmente comprometidos a mudar o que cada vez mais gente vê como um marasmo.

Ao menos é o que indicam os números de audiência da transmissão televisiva, que vêm caindo vertiginosamente e, no ano passado, alcançaram uma baixa histórica –9,85 milhões de americanos acompanharam o ao vivo, contra 13,75 milhões no ano anterior e 39,3 milhões há uma década.

É óbvio que há uma crise na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que em sua 94ª entrega de estatuetas, que acontece neste domingo, planejou mudanças profundas a fim de estancar o sangramento de espectadores.

Liderada por "Ataque dos Cães", com 12 indicações, a cerimônia de agora tem ainda "Duna" entre os favoritos, com dez menções. Ambos aparecem no páreo para melhor filme, acompanhados de "Belfast", "No Ritmo do Coração", "Não Olhe para Cima", "King Richard - Criando Campeãs", "Licorice Pizza", "O Beco do Pesadelo", "Amor, Sublime Amor" e o japonês "Drive My Car".

É uma lista relativamente eclética e que, por isso, já deve atrair mais interesse que a do ano passado, que com a pandemia privilegiou filmes menores e que não chegaram a boa parte do público –e culminou com a vitória de "Nomadland", um longa intimista e morno.

Mas nem com a seleção mais empolgante, que vai da ousadia com "Drive My Car" aos assuntos mais comentados do Twitter, com "Não Olhe para Cima", do blockbuster "Duna" ao pai desse tipo de cinema, Steven Spielberg, e seu "Amor, Sublime Amor", os produtores do Oscar quiseram correr risco.

Trataram logo de restabelecer um elemento central da noite de gala e que havia sido abolido em 2019 –os apresentadores fixos. Depois de alguns anos de piadas de mau gosto, momentos constrangedores e de enrolação até chegar ao que realmente importa, essa figura retorna agora com um trio feminino, formado por Regina Hall, Amy Schumer e Wanda Sykes.

A primeira é afeita às comédias popularescas e as duas últimas têm experiência com stand-up. Por serem mulheres, talvez tenham mais tato que, digamos, Seth Macfarlane, que cantou sobre como tinha visto os peitos de várias atrizes presentes no Oscar de 2013.

Essa, no entanto, não é nem de longe a maior aposta para animar o público neste domingo. Numa decisão controversa e amplamente criticada, a Academia decidiu cortar categorias menos glamorosas e mais técnicas da transmissão. Ao todo, oito estatuetas serão entregues antes da festa e os discursos dos vencedores serão inseridos, mais tarde, no meio da transmissão –são elas as de curta-metragem, curta documental, curta de animação, montagem, cabelo e maquiagem, trilha sonora, direção de arte e som.

Não foi sem protestos furiosos que a decisão foi implementada, de indicados nessas mesmas categorias a críticos de cinema e celebridades. Guillermo Del Toro, lembrado este ano por "O Beco do Pesadelo", lamentou o timing da mudança. "Este não é o ano para não ouvirmos os nomes dessas pessoas ao vivo. Esse é o ano para cantar e fazer tudo ao vivo, porque 2021 foi um ano ridiculamente bom para o cinema", disse o cineasta, relembrando ainda a aflição causada pela pandemia.

A decisão foi tomada para abrir espaço para outra medida controversa no meio da festa –um novo prêmio, de filme favorito do público. O vencedor não ganha um homenzinho dourado, mas vai ter tempo em cima do palco e será escolhido a partir de critérios escusos que se resumem a quem foi mais mencionado no Twitter.

A pré-lista de filmes que estão no páreo, pelo engajamento que já geraram, foi divulgada pela Academia e acabou por afunilar a disputa num universo gigantesco de filmes lançados no ano passado.

Agora, a expectativa é que a decisão fique entre "Army of the Dead: Invasão em Las Vegas", "Maligno", "Sing 2", "O Esquadrão Suicida" e "Homem-Aranha: Sem Volta para Casa", esses de fato bem vistos pelo público; "Cinderella", que ninguém gostou mas é impulsionado pelos fãs de Camila Cabello, e "Minamata", carregado pelos fãs de Johnny Depp; "Duna", também indicado ao Oscar padrão, e "Tick, Tick… Boom!", que causa estranhamento numa lista do gênero. Ou seja, não há muita lógica por trás do prêmio.

Essa nova categoria é uma resposta à frustração da Academia por não ter conseguido implementar uma ideia que se arrasta desde 2018 –a de um Oscar de melhor filme popular. Mas quais seriam os critérios para um filme se enquadrar nessa seção? E isso quer dizer que um blockbuster jamais será bom o suficiente para concorrer tête-à-tête com obras mais autorais? E as obras autorais, por sua vez, não podem ser populares? São respostas que a instituição não conseguiu responder e, por isso, teve que aposentar a ideia.

O anúncio da nova categoria veio poucos dias após a divulgação da lista de indicados ao Oscar deste ano, como que para contornar o fato de "Homem-Aranha" não ter conseguido abocanhar uma das vagas na corrida principal, como fãs enlouquecidos e a equipe de marketing da Sony queriam. Tom Holland, intérprete do teioso, até se ofereceu para apresentar esta edição –mas a verdade é que o filme, por mais divertido que seja, está longe de ser considerado uma das melhores coisas que Hollywood teve a oferecer.

Não bastasse a categoria de filme favorito dos fãs, a Academia também criou o prêmio de "Oscars Cheer Moment" –uma cena de algum filme que mereça aplausos, em toda a história do cinema. Se a outra categoria novata já não segue critérios, essa, então, parece ter sido parida num surto.

Na pré-lista de selecionados estão três filmes de heróis recentes –"Homem-Aranha: Sem Volta para Casa", de novo, "Vingadores: Ultimato" e "Liga da Justiça de Zack Snyder"–, um musical de 2006, "Dreamgirls", e o "Matrix" original. Tente achar um ponto em comum entre eles e falhe miseravelmente.

A verdade é que os produtores do Oscar, sob pressão da rede de TV que compra os direitos de exibição, de onde vem boa parte do orçamento da Academia, já não sabem mais o que fazer. Eles pareciam confiar que os próprios votantes do prêmio, hoje mais diversos e rejuvenescidos, fariam algo para chacoalhar a audiência, mas não foi o que aconteceu.

Ao menos não totalmente. A categoria de melhor canção original, por exemplo, conseguiu emplacar indicações a Beyoncé e Billie Eilish, divas veneradas e que, agora, vão se apresentar na festa e possivelmente chamar público.

Por outro lado, Ariana Grande ficou de fora da disputa com sua música de "Não Olhe para Cima", bem como "Não Falamos do Bruno", de "Encanto", que alcançou o topo das paradas e nem chegou a ser enviada pela Disney para consideração dos votantes. Como não é boba, a Academia tratou de chamar os intérpretes da canção para cantá-la de qualquer jeito.

As ideias para alavancar a audiência chegaram ao limite do bizarro na última semana, conforme a instituição anunciava a coleção de celebridades que apresentarão algumas das categorias neste domingo.

Na lista, há inúmeras figuras sem qualquer relação com o cinema e até o que pode ser visto como um deboche de Lady Gaga –a cantora vinha numa campanha forte para ser indicada por "Casa Gucci", mas foi surpreendentemente deixada de fora da categoria de melhor atriz e, agora, vai aparecer como apresentadora no prêmio.

Se juntam a ela o cantor teen Shawn Mendes, o astro da série adolescente "Euphoria" Jacob Elordi, o rapper DJ Khaled, o skatista Tony Hawk, o surfista Kelly Slater e o esquiador Shaun White. O que eles estão fazendo ali? Ninguém sabe.

A sensação que fica é que o Oscar quer virar uma mistura de seriedade com um Meus Prêmios Nick ou um MTV Movie & TV Awards, dando tapinhas nas costas de quem tem a maior legião de fãs e celebrando momentos engraçadinhos e virais dos filmes, em categorias como a de melhor beijo ou melhor "performance assustada para caramba".

Ao menos justiça foi feita de última hora –Rachel Zegler, o rosto de um dos filmes mais indicados deste ano, "Amor, Sublime Amor", não havia sido convidada para a cerimônia. Mas a Academia resolveu o assunto e a listou como apresentadora, após ver a comoção –e o engajamento– que o assunto gerou nas redes.

Aparentemente, a Disney preferiu distribuir convites para executivos em vez de garantir um para a protagonista de sua maior aposta da temporada. Enquanto o Oscar continuar sendo feito e pensado para os velhos nomes de sempre, não há mudança que segure o desinteresse do público –ao menos não a longo prazo.

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