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Russos viram párias nas artes e acendem o alerta sobre 'macarthismo cultural'

Mesmo contra as investidas armamentistas de Putin, artistas locais dizem estar sofrendo com sanções ao país

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cartaz da república de weimar

'Rot Front', cartaz de Viktor Deni de 1932 que mostra um membro de uma organização paramilitar do Partido Comunista alemão chamada de Roter Frontkämpferbund, ou aliança do front vermelho, prestes a destruir bancos ocidentais Bowdoin College Museum of Art, Brunswick, Maine/Google Arts and Culture/Reprodução

Danilo Thomaz
Rio de Janeiro

A Rússia parece ter se tornado um verdadeiro pária da indústria cultural desde que o seu presidente, Vladimir Putin, atacou a Ucrânia e deu início à mais grave crise militar na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

A Universidade de Milão cancelou um curso gratuito sobre Dostoiévski em protesto à invasão da Ucrânia pela Rússia. A pressão nas redes sociais fez a universidade mudar de ideia, mas a caixa de Pandora já havia sido aberta.

Em questão de dias, outros casos começaram a se suceder. Cannes cancelou a presença de delegações russas no seu festival. Enquanto isso, um teatro de Gênova, na Itália, desmarcou um festival de música e literatura russa dedicado ao autor de "Crime e Castigo". O motivo, segundo reportou a agência de notícias Ansa, é o fato de que o consulado russo na cidade patrocina o evento.

Tanque de guerra ucraniano
Tanque de guerra ucraniano - Anatolii Stepanov/AFP

O expurgo se estende também para dentro do território russo. Disney, Sony e Warner, três dos maiores estúdios de Hollywood, afirmaram que não exibirão seus lançamentos no país até que o conflito seja interrompido. Entre eles, estão a releitura de "Batman", com Robert Pattinson, "Morbius", sobre o vampiro anti-herói da Marvel interpretado por Jared Leto, e "Red - Crescer É uma Fera", da Pixar.

A Netflix interrompeu produções originais russas e a compra de filmes e séries do país, segundo a revista Variety. E o Spotify afirmou que fechou seu escritório por ali indefinidamente em resposta ao que chamou de "ataque sem motivo à Ucrânia" por parte de Putin.

Num artigo na Bloomberg, o economista Tyler Cowen chamou a onda de cancelamentos de um "novo macarthismo", em referência ao período da história americana em que uma série de artistas, intelectuais e políticos foram perseguidos e censurados por causa de uma suposta ligação com o comunismo.

Em países como a Polônia, que pertenceram ao mesmo lado da Cortina de Ferro que a Rússia soviética, também foram banidos nas sociedades filarmônicas compositores clássicos como Tchaikóvski –autor do balé "A Bela Adormecida", com canções que inspirariam a versão animada da Disney– e Chostakóvitch –autor da ópera "Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk", que irritou Stálin, o ditador, por seu conteúdo ácido, violento e sexual, o que o também a levou a ser banida nas sociedades filarmônicas.

O escritor e dramaturgo Tchékhov, que tanto fez pelas comunidades pobres da Rússia como médico, também foi proibido nos teatros do país. Tchaikóvski já o fora, antes, "indultado" por Putin por ter sido gay.

As maiores vítimas, porém, têm sido os próprios russos, como é o caso do pianista Sergey Belyavsky. Nascido em Moscou, ele vive em Kansas City, nos Estados Unidos, onde trabalha e estuda como pianista. Depois de ter a carreira seriamente abalada nos últimos dois anos pela pandemia, que restringiu as apresentações ao público e as viagens, agora vê as restrições voltarem, mas apenas para os russos. "Se você é russo, você não pode ir para lugar nenhum nos Estados Unidos e na Europa."

Opositor de Putin e da invasão à Ucrânia, Belyavsky tem sofrido as consequências das sanções culturais dos Estados Unidos e dos países europeus. Dias atrás, ao se inscrever para uma competição internacional de pianistas em Dublin, na Irlanda, recebeu como retorno da organização um agradecimento pelo contato dizendo que não iriam "incluir competidores da Rússia na edição de 2022". "O que eu tenho com isso?", ele se pergunta, durante a entrevista.

O músico afirma que tem se manifestado e não se importaria mesmo em gravar um vídeo se posicionando contra a guerra, mas afirma que todo esforço é inútil, porque as pessoas acreditam que, sendo você "um russo", você é favorável à guerra. "As pessoas estão protestando, indo para a cadeia por isso. Os líderes da oposição estão na cadeia ou presos por isso", diz.

A Rússia foi excluída também da próxima Copa do Mundo, que vai acontecer no Qatar. O país já havia sido retirado de competições, acusado de doping. Na ocasião, Putin apelou para o discurso patriótico.

"O que a gente está vendo agora acaba fortalecendo esse discurso do Putin de que sempre foi um boicote político. E, no aspecto cultural, isso se torna um fator de legitimação ainda maior", afirma o cientista político Boris Perius Zabolotsky, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especialista nas relações entre a Rússia e a Otan.

Mesmo tendo um contingente populacional de descendentes imigrantes russos relativamente pequeno –1,8 milhão de pessoas, segundo o Registro Nacional Migratório–, o Brasil conta com uma forte presença da cultura russa.

Na literatura, desde o início dos anos 2000, o país vem convivendo com uma série de traduções do original, lançadas por editoras como a extinta Cosac Naify, a Companhia das Letras e a 34.

"Obviamente, o imperialismo de Putin e a invasão militar de uma nação soberana como a Ucrânia são atrozes. Mas toda condenação em bloco de um povo ou de uma nação por causa das atitudes de seus governantes é injusta", afirma Cide Piquet, editor da 34. "Quer entender melhor a história e a cultura russas? Saia do Facebook, do Twitter, procure uma boa livraria e leia seus grandes autores, como Dostoiévski, Tolstói, Tchékhov e tantos outros, que antes de tudo foram exímios artistas e grandes intérpretes da alma humana."

A editora –que tem o maior catálogo de autores russos no Brasil, incluindo "Lady Macbeth no Distrito de Mtzensk", de Nikolai Leskov, que inspirou a ópera que irritou Stálin– ainda não sabe dizer se o atual momento geopolítico impactou as vendas. A casa não deve mexer no calendário de lançamentos por causa da guerra, mas tem planejada a publicação de um romance do escritor Vladimir Sorókin, que participou da Flip em 2014 e é crítico contumaz do atual presidente russo.

"É uma distopia na qual a autocracia dos tempos de Ivan, o Terrível, fortemente nacionalista, fanática, xenófoba, racista e corrupta, foi reinstalada, e acompanha um dia na vida de um 'opríchnik', membro da polícia secreta do czar, que comete as maiores atrocidades em nome do Estado", afirma Piquet.

O autor de "Como Ler os Russos", da editora Todavia, Irineu Franco Perpetuo, espera que essa onda de censura à cultura russa não chegue ao Brasil.

"Acharia triste que se abrisse mão desse imaginário, dessa cultura riquíssima. É até um mistério bonito [a presença da cultura russa no Brasil]. Tem muito pouco russo no Brasil. Não sei se isso vai transbordar, mas espero que não. Estou dando um curso sobre Tolstói, um dos maiores pacifistas da história. Espero que as pessoas não achem que tenha que cancelar o Tolstói agora." Mas ele lamenta que, "já que resolveram cancelar o Dostoiévski, é possível".

O autor de "Crime e Castigo", para quem não sabe, só escapou da pena de morte por conspirar contra o czar Nicolau 1º porque o monarca preferiu mandar seu desafeto para a Sibéria, onde o escritor prestou quatro anos de trabalhos forçados.

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