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Cinema indígenas

'Adeus, Capitão' é retrato melancólico e trágico de líder do povo gavião

Vincent Carelli fecha trilogia alçando chefe indígena Krohokrenhum a herói de uma cultura em corrosão

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Pedro Strazza

Adeus, Capitão

  • Quando Na ter. (5), às 20h, no Espaço Itáu Augusta, em São Paulo, e no Espaço Itaú Botafogo, no Rio de Janeiro; às 21h, online no É Tudo Verdade Play. Na qua. (6), às 12h, online no É Tudo Verdade Play
  • Produção Brasil, 2022
  • Direção Vincent Carelli e Tatiana Almeida

Aculturação é um processo que no geral se dá nas discussões pela via única da cultura, restrita ao esfacelamento "natural" de tradições perante o avanço dos tempos. A realidade é mais perversa, porém, e especialmente no capitalismo tais transições se dão em diversas frentes por diferentes agentes da política e economia até a territorialização.

"Adeus, Capitão", dirigido por Vincent Carelli e Tatiana Almeida, não só reflete como é uma excelente documentação de todos os males da aculturação nas populações indígenas do país. Com o filme, Carelli fecha uma trilogia simbólica sobre a opressão sofrida pelo índio brasileiro, formada ainda por "Corumbiara", voltado ao massacre desses povos no interior de Rondônia, e "Martírio", que trata da luta perdida dos guarani-kaiowá para retomar seus territórios no Mato Grosso do Sul.

Imagem do longa 'Adeus, Capitão', sobre Krohokrenhum, o líder dos indígenas Gavião Parkatejê
Cena do longa 'Adeus, Capitão', sobre Krohokrenhum, o líder dos indígenas Gavião Parkatejê - Divulgação

​Dessa vez, o registro se dá em torno dos povos gavião no interior do Pará, mas a ameaça em si está menos na destruição física das aldeias que nas guerras culturais para manter a história preservada.

Enquanto o mapeamento histórico é mantido na narração de Carelli, a organização das imagens é mais pessoal ao antropólogo e indigenista, com muitos materiais provindos de seu contato recorrente com os gavião —o primeiro encontro remonta a 1971.

O envolvimento pessoal dos diretores é a grande força do documentário. Enquanto "Martírio" era definido pela afronta a um sistema formado nos ciclos de violência ao índio, "Adeus, Capitão" é pautado na melancolia do retrato, enxergando no já morto líder Krohokrenhum —o capitão do título— a figura de resistência de um processo que a lentos passos desmantela sua história.

Nessa perspectiva, impressiona que Carelli se insira bem mais nas documentações dos eventos deste projeto. O antropólogo é uma presença recorrente nas imagens e, além de uma imagem de arquivo específica e da viagem dos documentaristas para visitar Krohokrenhum no leito de morte, se abre os trabalhos de "Adeus, Capitão" no registro de Carelli e pessoas próximas do líder manuseando álbuns de fotografias.

Já daí se denota a sensação de ponto final de uma longa trajetória ensaiada pelo filme. O momento é de ternura, mas as recordações verbalizadas sugerem ao espectador um definhamento que não pode ser revertido.

Nisso, a chave do filme está numa frase dita por Carelli logo na primeira meia hora: "Para um povo guerreiro, o contato é sempre uma rendição". Tal rendição é simbólica a todos os atos, sobretudo o geracional. Enquanto se encarrega de acompanhar os desdobramentos de Krohokrenhum para manter a salvo seu povo e cultura, dedica-se um bom tempo aos jovens da aldeia e em como se relacionam com as tradições repassadas.

O que no começo é encarado como motivo de orgulho e da renovação de identidade aos poucos se converte na descaracterização, com rituais mesclados e a juventude criando distância gradual. Enquanto isso, pequenos movimentos comprometem os esforços do líder e dão espaço para que forças maiores de globalização avancem para dentro da aldeia.

A genialidade de "Adeus, Capitão" não está nesse acompanhamento em si, mas em como se pontua o processo nos agentes de tais frentes. É a lenta negociação de indenização pela invasão econômica na reserva, as missões evangélicas que convertem as mulheres, a aglomeração da aldeia com outra no espaço, os jovens que preferem futebol a qualquer assunto.

cena de filme
Cena do documentário 'Adeus, Capitão', de Vincent Carelli e Tatiana Almeida - Divulgação

Tudo se soma para diminuir a figura de Krohokrenhum, enquadrado aqui como herói trágico de uma narrativa de corrosão. O "índio bravo", aí sim, é derrotado pelo tempo.

Em meio a isso, há a figura de Carelli. O documentário é repleto de imagens fortes, mas a mais dolorosa acontece durante o funeral de Krohokrenhum. No trajeto da procissão em direção ao local de enterro, o diretor é visto contemplando de dentro a população envolvida, abatido diante de tanta tristeza.

Como ele, o espectador no filme testemunha o fim gradual de um povo por suas tradições, e nesse momento se revela a narrativa como funeral de uma cultura.

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