Descrição de chapéu Cinema LGBTQIA+ pantanal

Cinema do Centro-Oeste traz agroboys, sertanejo e críticas ao Brasil de Bolsonaro

Filmes como 'Vento Seco', 'Fogaréu', 'Madalena' e 'Mato Seco em Chamas' se aprofundam no país e rejeitam conservadorismo

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Rafael de Bona em cena do filme

Rafael de Bona em cena do filme "Madalena", de Madiano Marcheti Divulgação

São Paulo

Luzes de neon ressaltam as curvas e preenchem de cor diversos corpos masculinos. O protagonista da cena, nu como os outros, passeia com o sabonete por sua pele e analisa furtivamente seus colegas de vestiário. Esta não é uma sauna gay do Largo do Arouche, em São Paulo, ou um "dark room" de Ipanema, no Rio. Estamos no interior do Brasil, numa cidadezinha de 110 mil habitantes de Goiás.

Perto dali, no Distrito Federal, um grupo de mulheres poderosas decide viver sob suas próprias leis, desafiando o patriarcado à sua volta. Já no Mato Grosso do Sul, outro agrupamento, este formado por trans e lésbicas, dirige por uma estrada que corta o verde interminável das plantações ao redor.

Os personagens de "Vento Seco", "Mato Seco em Chamas" e "Madalena", nesta ordem, são o oposto dos estereótipos de conservadorismo que se costuma colar ao Centro-Oeste do Brasil e aparecem aos montes no cinema que tem saído dali.

Regionalismos perseveram, vale dizer, do chapéu de caubói do homem que se masturba sobre o rosto de um rapazinho de coleira em "Vento Seco", à soja que envolve o corpo da mulher trans encontrada morta em "Madalena". Mas, no geral, essas figuras e suas trajetórias pouco têm a ver com o que se associa à região, marcada pelo agronegócio e por governos mais à direita.

Isso também é verdade em "Fogaréu", em que uma moça retorna, depois de anos, à cidade de Goiás e entra em rota de colisão com seus parentes reacionários, que reivindicam terras indígenas e vestem roupas como as da Ku Klux Klan. Ou em "Vermelha", em que um cobrador de dívidas desfila com seus violentos capangas, em "Mascarados", impulsionado pelo desmonte de leis trabalhistas, e "Dias Vazios", sobre uma juventude sem esperança que quer fugir dali.

Com essas narrativas, o Centro-Oeste se junta a um movimento de descentralização do cinema brasileiro, que viu ao longo da última década alguns de seus melhores e mais celebrados filmes saírem principalmente de Pernambuco, Ceará e Minas Gerais, não apenas do eixo Rio-São Paulo.

"O sujeito que vê filmes e séries em sua pequena cidade do interior de Goiás quer se ver retratado na tela e, por outro lado, as pessoas dos grandes centros urbanos também estão meio cansadas de um cinema sempre na ótica paulistana ou carioca", diz Adérito Schneider, professor e pesquisador de cinema no Instituto Federal de Goiás.

"Da mesma forma que o cinema mundial está hoje mais atento ao que é produzido fora de Hollywood, o nosso cinema também percebeu uma carência por outras narrativas. Há um esgotamento de fórmulas, sotaques e até da geografia. Nós vivemos num momento de diversidade, e a renovação hoje vem de fora dos centros."

É verdade que "Pantanal", ambientada no Mato Grosso do Sul, é atualmente exibida no horário nobre da maior emissora do país, mas é uma novela capitaneada pelos nomes de sempre, com elenco forjando sotaque e que trabalha com um exotismo e um ideário que não são necessariamente autênticos.

Para o pesquisador, o destaque que o cinema do Centro-Oeste vem ganhando reflete uma busca por um "Brasil profundo" por parte do público, em paralelo à onipresença da música sertaneja nas rádios e plataformas digitais. Mas há também um outro lado que explica essa prosperidade –afinal, se não há investimento, não há frutos para colher.

Os filmes de agora, de qualidade chancelada por grandes festivais internacionais e por prêmios, tiveram parte de seu orçamento aprovados na era pré-Bolsonaro, por meio de políticas públicas que, além de desenvolver o cinema nacional, buscavam também fomentar uma produção regional. Nos anos 2010, eles resultaram, majoritariamente, em curtas, e só agora vemos um retorno mais robusto na forma de longas-metragens, de desenvolvimento mais demorado.

Embora alguns editais para produções locais e muito da verba pública para o audiovisual tenham sido suspensos nos últimos anos –o que pode desacelerar a efervescência de filmes centro-oestinos–, seu legado resiste na forma de profissionais capacitados e cineastas que puderam, nesse período, viver de cinema.

Isso também de deve à explosão de novos cursos de audiovisual e à criação de festivais que movimentaram o mercado local. Todos esses motivos, aliados ainda à digitalização do cinema, criaram um cenário fértil –mas ainda frágil, adverte Schneider– para que os filmes não apenas fossem feitos, mas também se destacassem.

"Vento Seco", "Fogaréu" e "Mato Seco em Chamas", por exemplo, foram exibidos no Festival de Berlim. "Madalena" passou por San Sebastián e Roterdã e recebeu o troféu de direção da Associação Paulista de Críticos de Arte. "Vermelha" foi o grande vencedor da Mostra de Cinema de Tiradentes e "Mascarados" foi premiado em Mar del Plata. Não são apenas seus conterrâneos que estão de olho nesse Brasil profundo.

Por mais interioranas e atreladas às raízes do país que sejam, essas obras conseguem lidar com temas urgentes em todo o mundo. Elas promovem um choque entre a cultura local, arraigada ao passado, e o moderno, o que reflete uma vontade de seus próprios criadores de questionarem o contexto no qual cresceram.

Foi o que aconteceu com Flávia Neves, nascida em Goiânia e hoje moradora do Rio, que em seu "Fogaréu" fez o caminho inverso, retornando às origens por meio da protagonista, vivida por Bárbara Colen.

Na trama, somos apresentados às tradições do município de Goiás, como a procissão que dá nome ao longa, realizada na Quinta-feira Santa, e o hábito histórico das elites locais de adotarem crianças, em sua maioria com transtornos mentais, para trabalharem em suas casas, no que é disfarçado como ato de caridade.

Neves conta que ficou sabendo desse costume durante a faculdade, já em solo fluminense, e foi descobrir, então, que sua história estava profundamente conectada a ele, pois sua mãe havia sido adotada em condições semelhantes. Outras pessoas da equipe de "Fogaréu" contaram ter parentes na mesma situação.

"Existe um desconhecimento muito grande sobre o que se passa nessa parte do Brasil, muito porque era interessante para as forças políticas e elites locais que esse lugar ficasse esquecido, principalmente com a devastação do cerrado. Hoje o Centro-Oeste é riquíssimo, porque o agronegócio o estruturou, mas é muito conservador", conta a cineasta, que diz que a cultura local é de "pistolagem, como um western mesmo, uma terra sem lei".

Neves precisou gravar "Amanajé, o Mensageiro do Futuro", série documental rodada na fronteira com o Paraguai, sob forte escolta. Foi também para denunciar essa realidade que ela decidiu fazer "Fogaréu", contrariando expectativas.

"Quando apresentei o projeto localmente, ninguém quis fazer o filme, porque achavam que era um projeto suicida, que mexia num vespeiro", diz. Ela agora espera para tentar, em breve, exibir o resultado desse "atrevimento" no município –"mas imagino que ele não vá ser muito amado, porque cutuca muitas feridas".

Quem já conseguiu mostrar sua obra sobre o Centro-Oeste na cidade onde ela se passa foi Daniel Nolasco, de "Vento Seco", talvez um dos filmes mais provocativos do cinema nacional recente. Suas cenas de sexo gay explícito e fetiches impulsionam o protagonista da trama, paranoico desde a chegada de um forasteiro bigodudo e coberto de couro, à la Tom of Finland, na pacata Catalão.

O longa circulou no WhatsApp dos moradores da região, já que o cinema local esteve fechado por causa da pandemia. "Ninguém chegou a reclamar diretamente para mim, só recebi mensagens de LGBTs que moram em Catalão dizendo que o filme conversou muito com eles", afirma Nolasco, que ressalta que nem todos os goianos são conservadores, como o resto do país pode pensar.

"Goiás é um estado conservador, tradicionalmente, mas há uma diversidade política com nuances que quem é de fora não consegue entender. Por isso que os gays de ‘Vento Seco’ são diferentes dos de São Paulo ou do Rio", fala sobre os personagens que jogam futebol descamisados, vão a festas de peão, trabalham no agronegócio e escutam Jorge e Mateus.

"São coisas que fazem parte da nossa vivência. Quando a gente briga com o boy, vamos para o bar beber e lá está tocando música sertaneja. Essa é a cultura queer do Centro-Oeste, a cultura do agroboy."

Nolasco, também, comemora com ressalva o atual momento de prosperidade do cinema local. Se, por um lado, seu "Vento Seco" esteve no páreo do prêmio Teddy em Berlim há dois anos, por outro, apenas um longa foi gravado em Goiás em 2021. Paralisações e um desinteresse pela cultura, na esfera federal –desde Temer, ele diz– e estadual –com o governador Ronaldo Caiado–, explicarão, mais para frente, uma possível ausência de produções centro-oestinas nas salas de cinema.

Ele espera que ela seja passageira, bem como Flávia Neves. Ambos, afinal, já estão atrás de recursos para seus próximos filmes, que os levarão de volta a seus estados de origem.

Nolasco, mesmo depois de viajar com "Vento Seco" para fora do Brasil, tem achado um pouco mais complicado assegurar financiamento para sua nova ficção, que também deve ter alta carga homoerótica, enquanto Neves recorreu a parcerias internacionais para levar "Tempo do Poder", drama pós-apocalíptico centrado em povos originários, adiante.

Nenhum deles, no entanto, pretende se fixar no eixo Rio-São Paulo, onde talvez fosse mais fácil trabalhar por ter indústrias audiovisuais mais consolidadas.

"Esse cinema tem uma função superimportante, porque quando se nasce num lugar que te oprime e você consegue sair, existe quase um dever de falar dessas violências e abusos que você presenciou", resume Neves.

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