Descrição de chapéu Artes Cênicas

Clarice Niskier dá motivos para viver no Brasil em peça com trilha de Zeca Baleiro

Atriz, que apresenta 'A Alma Imoral' há quase 15 anos, discute a ética nacional e promove mergulho na MPB em novo monólogo

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Gustavo Zeitel
Rio de Janeiro

Desde que, em 2006, estreou "A Alma Imoral", uma adaptação do livro homônimo do rabino Nilton Bonder, a atriz Clarice Niskier se tornou um caso à parte nas artes cênicas do país. Há 14 anos seguidos em cartaz, a peça foi vista por mais de 500 mil pessoas em 24 cidades.

Um dos segredos para isso talvez não esteja na cabala —tradição mística judaica que permeia "A Alma Imoral"—, mas na intensa rotina de estudos da atriz. Sob supervisão de Amir Haddad, ela trabalhou durante três anos na escrita de "A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong", texto que marca seus 40 anos de carreira e que estreia em São Paulo nesta sexta (15).

A atriz Clarice Niskier em cena da peça 'A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong', que parte da obra do compositor Zeca Baleiro - Zé Rendeiro e Dalton Valerio/Divulgação

Niskier sustenta a tese de que a cultura judaica, como afirmam Amós Oz e Fania Oz-Salzberger no livro "Os Judeus e as Palavras", é transmitida antes de tudo pela palavra. "Tenho uma relação profunda com a palavra escrita ou cantada. A matriz é o texto", diz ela.

É dele, assim, que ela se vale para falar sobre "o amor pelo lugar que a gente nasce" na montagem, se definindo como um pedacinho de terra ao qual pretende atribuir um sentido, abrindo os braços repetidas vezes, na tentativa de alcançar o latifúndio que é o Brasil e discutir a ética no país. "A ética é um refinamento da liberdade. Os políticos acham que liberdade é permissão para tudo, mas todos temos liberdade", diz ela.

Para discutir essa identidade nacional, a autora promove um mergulho na MPB a partir de 45 canções do cantor e compositor Zeca Baleiro. "Acho que, no caso do Brasil, o lugar mais bonito para fazer essa reflexão é a música popular. Não teria como referência nada dogmático, então escolho o Zeca, que tem uma obra multifacetada", diz ela.

Se "A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong" pulsa nas urgências do agora, o extenso título faz menção à infância da atriz, evocada como força excêntrica ao texto. Quando pequena, Niskier criava, durante as férias, louva-a-deus –ou esperança– em caixas de chiclete.

Resta, portanto, o presente, seu discurso caótico, fragmentado, bem ao modo do processo de composição de Baleiro, desde o lançamento de "Por Onde Andará Stephen Fry?", de 1997.

Nesse sentido, a canção "Babylon", do disco "Líricas", de 2000, é um guia conceitual para a teia de referências, que vão de Sérgio Buarque de Holanda a Nelson Ned, passando por Hilda Hilst. "Baby! / I’m so alone / Vamos pra Babylon / Não tenho dinheiro pra pagar a minha ioga / Não tenho dinheiro pra bancar a minha droga", diz um trecho da canção. Misturando o discurso da metrópole com referências nordestinas, o compositor maranhense desnuda o capitalismo terceiro-mundista.

"‘Babylon’ é uma Pasárgada, não um canto hedonista. A Babilônia representa o grande capitalismo, é uma canção irônica", conta Baleiro.

Mesmo com o sucesso, ele ainda parece gozar com a postura de artista marginal. "Sempre fui um lobo solitário, nunca gostei de ter uma turma para se afirmar. É uma questão ética que se confunde com estética. A música brasileira é um latifúndio, e eu sou um produtor independente."

Tanto a ironia quanto a marginalidade são elementos formadores do texto dramático, que se vale da poética de Baleiro, ora reproduzindo canções, ora recitando alguns versos, colados à criação da autora. A profusão de caminhos em "Babylon" se tenciona com a forma fixa do cordel presente na escrita e na fala. Antecipando-se ao público, a atriz desarma quem acha a rima enfadonha, pedindo desculpas aos ouvidos mais sensíveis.

"Acho que o brasileiro gosta de ser brasileiro, mas vivemos num lugar em que a maioria da elite econômica não está nem aí para o social. Então, o Brasil ficou um lugar de exploração da riqueza material. Como a maioria não tem acesso a ela, então quer ir para a Europa", diz Niskier.

O vazio, porém, parece não se limitar ao aspecto material. Segundo Baleiro, o Brasil viveu seu apogeu artístico entre os anos 1960 e 1980. A própria MPB, ele afirma, ainda existe, mas não é sequer ouvida.

"A profecia de que o Brasil teria algo a ensinar ao mundo é um sonho, mas está virando pesadelo. Eu nem sou lulista, porque, se o Lula fizer um governo ruim, quero ter autonomia para criticá-lo. Até nisso sou independente, mas, nesse momento, não tem jeito, precisamos de um redentor. É o nosso destino, o nosso fado."

Para Niskier, que não conseguia convencer o próprio filho a amar o Brasil, as novas gerações não aprenderam a admirar o país, talvez pelo seu declínio cultural.

Tanto ela quanto Baleiro rejeitam a ideia de morar fora e, na peça, oferecem motivos para ficar por aqui. "Eu só saio se Bolsonaro se reeleger. É bom? É bom. É ruim? É ruim. Mas a gente vai ficando. O americano é chatíssimo, e o europeu é triste", acrescenta o músico.

A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong

  • Quando Sex. e sáb., às 21h; dom., às 19h. Estreia nesta sexta (15). Até 1º/5
  • Onde Teatro J. Safra, r. Josef Kryss, 318, Barra Funda, São Paulo
  • Preço R$ 40 a R$ 100
  • Link: https://www.eventim.com.br/artist/teatro-j-safra/a-esperanca-na-caixa-de-chicletes-ping-pong-3035754/?affiliate=JSA
  • Texto, direção e interpretação Clarice Niskier
  • Supervisão de direção Amir Haddad
  • Direção musical Zeca Baleiro
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      Acessibilidade Arquitetônica Há acesso e circulação sem barreiras físicas, sanitário adequado e local reservado para cadeirantes com acompanhante
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