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Saiba como Dona Ivone Lara, que faria cem anos, levou décadas na saúde mental para sua obra

Com vasta experiência na área, cantora concebeu clássicos como 'Sonho Meu' a partir do inconsciente e da fantasia

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mulher negra desfila como baiana em escola de samba

Dona Ivone Lara desfila como baiana para a escola de samba Império Serrano em 1971 Correio da Manhã/Arquivo Nacional/Reprodução

Lucas Nobile

Neste 13 de abril de 2022, em virtude do centenário de nascimento de Yvonne da Silva Lara, é celebrado o Dia Nacional da Mulher Sambista.

Dona Ivone Lara ficou órfã ainda na juventude e se tornou uma das primeiras pessoas de sua família a ter um diploma universitário. Quando menina, teve a idade aumentada em um ano por sua mãe para que pudesse ser aceita na escola pública e iniciasse uma rica trajetória acadêmica.

Formou-se no começo da década de 1940 em enfermagem, especializou-se em praxiterapia ocupacional e desempenhou importante papel nas equipes da psiquiatra Nise da Silveira e do neurocirurgião Paulo Niemeyer.

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Dona Ivone Lara desfila como baiana para a escola de samba Império Serrano em 1971 - Correio da Manhã/Arquivo Nacional/Reprodução

Antes de se dedicar exclusivamente à carreira artística, em 1978, aos 56 anos de idade, Dona Ivone passou quase quatro décadas trabalhando no Serviço de Doenças Mentais. Naquele período, lançou mão da música para tratar de pessoas com transtornos psiquiátricos numa época em que mal se falava em musicoterapia.

Foi Dona Ivone quem pediu a Nise da Silveira —que costumava usar muito mais as artes visuais no tratamento dos pacientes— para que fosse criada uma sala com instrumentos musicais no hospital do Engenho de Dentro. Chegou até a compor com uma colega de enfermagem. Juntas, Ivone e Teresa Batista fizeram a valsa "Pétalas Esquecidas", gravada muitos anos depois por Marisa Monte.

Numa sociedade construída para gerar muito mais exclusão do que inclusão, Ivone era a supervisora responsável por ajudar a localizar os parentes daqueles internos para quando eles tivessem alta pudessem retornar ao convívio social. Da mesma forma, até hoje nas rodas de samba suas músicas são veículo de acolhimento e aproximação das pessoas.

Não é ocasional, portanto, que o humanismo e a sensibilidade dos tempos de assistência social tenham influenciado o fazer artístico de Ivone Lara. Boa parte da obra dela é permeada pelo inconsciente e pela fantasia.

Basta ouvir, por exemplo, "Sonho e Saudade", em dueto com Jair Rodrigues, "Força da Imaginação", na voz de Beth Carvalho, e "Nasci pra Sonhar e Cantar", em regravação de João Cavalcanti, lançada hoje nas plataformas digitais de áudio. Não é à toa também que seu maior sucesso seja uma canção chamada "Sonho Meu".

Dona Ivone sonhou durante meses com a melodia que seria a mais conhecida de toda sua obra. A compositora não apenas solfejou a linha melódica para o parceiro Délcio Carvalho, como também o pautou sobre o tema da letra.

Sugeriu, inclusive, os antológicos versos iniciais ("Sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu"). A canção, literalmente sonhada pela compositora, foi gravada por Maria Bethânia no LP "Álibi", de 1978, e, sendo um dos carros-chefe do álbum, colaborou para que a cantora baiana se tornasse a primeira mulher no Brasil a vender mais de 1 milhão de discos.

Mesmo quando já vivia exclusivamente da carreira artística, Dona Ivone usava seus conhecimentos de enfermagem para cuidar dos colegas do meio musical. No início dos anos 1980, em excursão do projeto Kalunga por países africanos, Martinho da Vila teria tido uma espécie de surto emocional que levou a uma série de especulações no Brasil —por aqui, os jornais falavam em infarto, derrame e até mesmo em morte. Martinho lembra até hoje da importância da "enfermeira Ivone Lara", que o medicou e o socorreu em Luanda.

Outro ícone do samba, Paulinho da Viola teve contato com Dona Ivone desde os tempos da atuação dela no Serviço de Doenças Mentais. O portelense conta ter a memória visual de, ainda na infância, estar no colo de Ivone.

A mãe de Paulinho, também profissional da saúde, chegou a ser chefiada por Dona Ivone no hospital do Engenho de Dentro. Décadas depois, Paulinho da Viola convidou a cantora para participar do disco "A Toda Hora Rola uma Estória" (1982). Na faixa "Não É Assim", Dona Ivone fez um dos contracantos mais marcantes de toda sua carreira.

Durante quase 40 anos Ivone Lara marcou suas férias para o período do Carnaval a fim de conciliar suas duas vocações. Nos corredores dos hospitais psiquiátricos, era a enfermeira Ivone. No Império Serrano, escola do seu coração, além de destaque da ala das Baianas da Cidade Alta, ela era a compositora Ivone. A primeira mulher a vencer o concurso de um samba de enredo no Grupo Especial do Carnaval carioca.

Feito por ela, por Silas de Oliveira e Antonio Bacalhau em 1965, "Os Cinco Bailes da História do Rio" é cantado até hoje e também traz em sua letra a marca do onírico: "Quero sentir nas asas do infinito minha imaginação/ Eu e meu amigo Orfeu/ Sedentos de orgia e desvario/ Cantaremos em sonho os cinco bailes da história do Rio".

Mesmo quando não se tratava de uma iniciativa sua, Dona Ivone era envolvida por composições ligadas ao exercício de imaginar. Em 1982, enquanto elaborava o repertório do disco "Traço de União", cujo mote era reunir compositores em parcerias inusitadas, Beth Carvalho sonhou com uma colaboração inédita entre Caetano Veloso e Dona Ivone Lara.

Juntos, fizeram "Força da Imaginação", outro sucesso a tratar do inconsciente em versos como "Força da imaginação na forma da melodia/ Não escurece a razão/ Ilumina o dia a dia".

Assim como na área da saúde, em que Ivone Lara integrou as equipes dos mais respeitados médicos, como melodista ela foi parceira dos maiores letristas do país.

A lista é extensa: Nei Lopes, Paulo César Pinheiro, Hermínio Bello de Carvalho, Luiz Carlos da Vila, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha e, claro, Delcio Carvalho, com quem colecionou sucessos. Com este último, o entendimento beirava o sobrenatural, a ponto de batizarem seu encontro como uma "parceria mediúnica".

Ao longo de seus 96 anos, Dona Ivone Lara lançou 12 discos e compôs cerca de 200 músicas gravadas por ela e por grandes intérpretes. Deixou também melodias inéditas, guardadas pelo neto André Lara. Há também, em fase inicial de captação de recursos, projetos como um documentário e a cinebiografia "Dona Ivone Lara: O Prazer da Serrinha".

Dona Ivone teve não só uma trajetória anterior à carreira artística diferente da vivida por seus pares do meio do samba. Na música, sua formação também não encontra paralelos. Difícil encontrar alguém que combine em sua obra tantas influências: a ancestralidade do jongo, o lirismo melódico dos ranchos carnavalescos e dos sambas de terreiro, os contracantos do choro, a abertura de vozes do canto orfeônico, a divisão rítmica dos partidos-altos.

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Dona Ivone Lara em foto de 1978 para a capa de seu disco de estreia, cercada de sambistas e parceiros; imagem integra o livro 'História da Música Brasileira em 100 Fotografias', organizado por Hugo Sukman e Rodrigo Alzuguir e publicado pela editora Bazar do Tempo - Ricardo de Vicq/Acervo pessoal

Driblando o machismo e o racismo estruturais, quando Dona Ivone lançou seu primeiro álbum era improvável encontrar no meio artístico uma mulher que reunisse tantas habilidades: cantar, compor, tocar um instrumento, dançar o inconfundível miudinho e confeccionar as fantasias e os figurinos com que se apresentava nos palcos e nos desfiles carnavalescos.

Uma combinação de pioneirismo e excelência que rendeu a ela o título de "primeira dama do samba" e que faz com que sua obra permaneça atual para esta geração e para as futuras.

Show 'Fabiana Cozza canta Dona Ivone Lara'

Podcast 'Toca Brasil' - Dona Ivone Lara por Fabiana Cozza

Lançamento do single “Nasci pra Sonhar e Cantar” (Dona Ivone Lara/ Delcio Carvalho). Ainda este ano, o cantor e compositor lança o álbum “Ivone rara – 100 anos da dona do samba”

  • Autor João Cavalcanti
  • Em breve Ainda este ano, João Cavalcanti lança o álbum “Ivone Rara – 100 anos da Dona do Samba”

Roda de samba em tributo a Dona Ivone Lara

  • Quando 30 de abril
  • Onde Beco do Rato - r. Joaquim Silva, 11, Lapa, Rio de Janeiro
  • Autor Grupo Casuarina
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