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Série 'Roar' reúne contos feministas com Nicole Kidman e realismo mágico

Antologia do Apple TV+ questiona o que é ser mulher na sociedade atual por meio de histórias bizarras e lúdicas

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São Paulo

É difícil entender o que é real e o que não é a cada episódio da nova série "Roar". Parecemos estar sempre diante de algum drama prosaico, que apenas replica situações comuns do dia a dia. Até que, como num delírio, esquisitices sequestram as personagens, dando um ar de realismo fantástico às suas jornadas.

Mais uma série estrelada do Apple TV+ das várias que chegaram à plataforma nas últimas semanas, "Roar" é uma antologia que, a cada capítulo, apresenta uma trama e um elenco diferentes. Nicole Kidman e Cynthia Erivo são as que mais abrilhantam a produção, que costura as historinhas de meia hora pela vocação de questionar o papel da mulher em nossa sociedade.

Nicole Kidman em cena da série "Roar", do Apple TV+
Nicole Kidman em cena da série "Roar", do Apple TV+ - Divulgação

Isso é feito de forma lúdica e agridoce. No episódio de Erivo, por exemplo, acompanhamos uma mulher bem-sucedida na carreira, que volta ao trabalho depois de dar à luz. Sempre que está longe dos filhos, no entanto, mordidas começam a aparecer pelo seu corpo. As feridas vão ficando mais profundas e dolorosas conforme ela mergulha na vida profissional, indo a um evento fora da cidade ou fazendo horas extras.

"A minha história explora a maternidade e também a condição dessa mãe enquanto mulher negra, então há várias sutilezas no episódio", diz a atriz sobre "The Woman Who Found Bite Marks on Her Skin", ou "a mulher que encontrou marcas de mordida em sua pele".

"Essa série é formada por fábulas feministas cômicas e sombrias. No meu caso, é sobre o equilíbrio entre maternidade, carreira e vida doméstica. O público eventualmente vê a manifestação física desse desafio, um retrato de algo que muitas mulheres sentem, que é a culpa por não conseguir dar conta de tudo isso."

Para a atriz, que tem suas origens no teatro e vem numa rápida ascensão no cinema e na TV, o que a intrigou em "Roar" foi justamente a possibilidade de ilustrar "metáforas e questões femininas sobre as quais pouco falamos".

Em outro episódio, a britânica Meera Syal é uma dona de casa que chega à terceira idade cansada de se dedicar exclusivamente ao marido. Sem sentir amor ou desejo pelo companheiro, descobre, por meio das amigas, que pode fazer uma troca ou devolução numa loja de departamentos.

Ela, então, pula de marido em marido numa jornada que, como dizem as criadoras de "Roar", é mais sobre autodescoberta e empoderamento do que sobre as relações no entorno dessas personagens.

"Roar" é inspirada numa coleção de contos da autora irlandesa Cecelia Ahern, a mesma que gerou adaptações como "Simplesmente Acontece" e "P.S. Eu te Amo". Mas nem todos os episódios estão diretamente relacionados ao livro homônimo, já que as criadoras queriam mais mimetizar o clima de fantasia feminista de curta duração do que fazer uma ponte literal entre as páginas e as telas.

Liz Flahive e Carly Mensch, que já escreveram e produziram outras séries centradas em mulheres fortes, como "Glow", "Homeland" e "Orange Is the New Black", contam que queriam manter esse foco, mas buscavam algo que destacasse seu próximo projeto das várias narrativas femininas que se fazem onipresentes hoje.

Esta é, no entanto, a primeira vez que elas trabalham com uma trama que depende tanto de efeitos especiais. "Nós tínhamos que fazer a mágica a partir de cada personagem, para que parecesse autêntica. E como cada episódio tem a sua história, o realismo fantástico se manifestava sempre de maneira diferente, tínhamos que quebrar a cabeça a cada gravação", diz Flahive.

A dupla optou, sempre que possível, por efeitos práticos –isto é, aqueles que não são gerados por computador. As mordidas que cobrem o corpo de Cynthia Erivo, por exemplo, eram maquiagem, e as fotos que Nicole Kidman come em seu episódio foram criadas depois de muitos testes, a partir de papel de arroz e marzipã. "Cada episódio tinha o seu desafio maluco", diz a criadora de "Roar".

No capítulo de Kidman, que repete a dobradinha de seus vários projetos televisivos recentes e também produz, além de atuar, na série ela dá vida a uma mulher que precisa cuidar da mãe doente. Para elas, no entanto, é difícil manter uma conexão, o que leva a protagonista a comer fotografias que a transportam para momentos felizes da infância.

Sentada sobre o carpete encardido de um hotel de beira de estrada, Kidman tira da bolsa álbuns que surrupiou da casa da matriarca. Com toda a elegância e delicadeza que consegue reunir, para não acordar a mãe que dorme ao lado, ela descola as polaroides antigas e as devora, desesperadamente. Diante de seus olhos vidrados, então, lembranças coloridas se materializam, produzindo o mesmo efeito de uma droga.

"Roar" é uma coleção de oito contos, incluindo, além dos já mencionados, "A Mulher que Desapareceu", "A Mulher que Era Deixada na Prateleira", "A Mulher que Era Alimentada por um Pato", "A Mulher que Resolveu Seu Próprio Assassinato" e "A Menina que Amava Cavalos".

Dada a bizarrice do projeto, os títulos acabam por ser autoexplicativos. Mas neste "caleidoscópio de feminilidade", como descrevem as criadoras de "Roar", nada realmente é como parece à primeira vista.

Roar

  • Quando Estreia nesta sexta (15), no Apple TV+
  • Elenco Nicole Kidman, Cynthia Erivo e Meera Syal
  • Produção EUA, 2022
  • Criação Liz Flahive e Carly Mensch
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