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'A Substituição' é um 'romance tático' sobre caso de agressão sexual

Obra do japonês Kenzaburo Oe, ganhador do Nobel, tem como centro processo que emula a natureza instável das memórias

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Alcir Pécora

Professor titular de teoria literária da Unicamp

A Substituição ou As regras do Tagame

  • Preço R$ 74 (352 págs.)
  • Editora Estação Liberdade
  • Tradutor Jefferson José Teixeira

O que mais impressiona em "A Substituição ou As Regras do Tagame", do japonês Kenzaburo Oe, prêmio Nobel de Literatura de 1994, não é a história, ainda que esta seja envolvente. Um escritor premiado –e, com ele, também a mulher ilustradora e o filho músico, nascido com deficiência mental— sofre intensamente com o suicídio de seu cunhado e melhor amigo, um cineasta conhecido, que se atira do alto de um prédio.

O velho escritor, que traz muitas referências autobiográficas de Oe, passa a temporada seguinte ao suicídio refazendo as conversas trocadas com o cunhado em diversos momentos da vida, desde quando jovens na mesma cidade do interior.

Para este fim, examina as fitas cassete que o cineasta deixara para ele num gravador (o "tagame" do nome do livro), bem como o storyboard e o roteiro de um filme por fazer. A forma fragmentária, heteróclita e incompleta do texto é muito atraente e traz à mente, por exemplo, "O Homem sem Qualidades", de Robert Musil.

O núcleo do interesse do romance está justamente aí, no processo construtivo que emula engenhosamente a natureza instável das reminiscências.

ilustração em preto e branco de fita k7 com a fita desenrolada
Ilustração de capa de 'A Substituição', do escritor japonês Kenzaburo Oe, publicada no Brasil pela editora Estação Liberdade - Reprodução

Vou tentar explicar melhor.

Usualmente, quando lemos um livro baseado em lembranças, nos deparamos com personagens que, bem instaladas num determinado momento do presente narrativo, se recordam de algo ou alguém no passado. Aqui, não é assim. O tempo de quem lembra não é fixo, a lembrança do escritor se move a partir de diferentes momentos que se encadeiam ou se alternam para frente ou para trás. Os tempos encavalados das reminiscências estão sempre em movimento, sem sossegar numa só época.

E não é só isso. Aos poucos, vamos percebendo que os momentos lembrados, por vezes bastante distantes entre si, não são de fato apenas movimentos temporais, mas gestos de encaixe das peças de um puzzle que paulatinamente vai se dando à vista.

Ou seja, as várias cenas lembradas vão compondo um quebra-cabeça, com duas possíveis soluções, ambas relativas a um evento crucial da vida das personagens —um evento de agressão sexual, ao fim da adolescência, que eles mal nomeiam ou comentam, lembrando o ocorrido apenas como "aquilo".

A chave do romance, ainda que pareça circunscrita temporalmente e diga respeito aos temas da senectude e da morte, está sobretudo em rever uma espécie de cena primordial em cujo centro está "aquilo".

Vale dizer, o andamento aparentemente dispersivo do romance busca ilustrar uma mudança fundamental ocorrida aos jovens na exata noite em que a inocência deles é perdida —ou "substituída", de forma quase imperceptível. Os nomes deles ainda são os mesmos, mas as personagens já são outras.

Em termos de gêneros contemporâneos, o romance poderia ser visto como exemplo de autoficção ou de romance autobiográfico, mas não acho que isso descreva o cerne dele, que é justamente o seu aspecto construtivo e experimental. Prefiro entender a obra como um "romance tático", cuja estratégia se compõe das reminiscências autobiográficas, mas cujo objetivo final é a montagem estrutural do evento que afeta para sempre a vida das personagens. Não à toa, Mikhail Bakhtin é citado pelo protagonista.

Essa é, portanto, a forma geral do livro, tecnicamente primorosa. Mas não poderia fechar a resenha sem recomendar máxima atenção a duas cenas antológicas, que ressaltam o que há de melhor na literatura japonesa, ao menos na minha experiência de leitura —a crueldade e o erotismo.

A primeira delas é a de uma batalha longa e sangrenta, na cozinha, entre o escritor e uma grande tartaruga de água doce, aprisionada num engradado de madeira. A segunda é a de outro combate, desta vez amoroso, concentrado numa sucessão minuciosa de beijos e de movimentos mínimos de avanço dos dedos. Nada a ver com sexo tântrico ou alguma sabedoria esotérica do corpo, é mesmo o esforço soberbo de descrever o sexo numa situação-limite —o "aquilo"—, aquém ou além da qual já ninguém será o mesmo.

Um reparo só —achei o português da tradução às vezes um pouco desajeitado, talvez pelas dificuldades do japonês de Oe. Ainda assim, valia outra demão.

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