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Cinema

Em 'Águas Selvagens', derrotismo e a safadeza invadem o país de vez

Nada foge à tradição do filme noir no roteiro, em que o detetive é um ex-policial que tenta resolver caso na região da fronteira

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Águas Selvagens

  • Quando Brasil, 2022
  • Onde Nos cinemas
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Roberto Birindelli, Mayana Neiva e Allana Lopes
  • Direção Roly Santos

O cinema argentino parece refletir, à sua maneira, a Argentina. Na virada do século, seus filmes tinham um vigor e uma vitalidade que talvez espelhassem, mesmo antes da virada promovida pela presidência de Nestor Kirchner, a expectativa de um futuro à altura do que era o país no início do século passado.

Aos poucos, essa vitalidade parece que foi se esvaindo. A dependência de coproduções pode ser um dos motivos que a penúria atual agravou, mas não só. Quando topamos com "Águas Selvagens", temos a impressão de que o pântano anunciado por Lucrecia Martel agora está em toda parte.

Inclusive, ou sobretudo, na mise-en-scène de Roly Santos, que não economiza firulas e planos aéreos (em especial no início do filme), ao mesmo tempo em que não consegue transmitir uma razoável ideia do que seja a geografia do lugar em que se passa a ação.

Cena do filme "Águas Selvagens"
Roberto Birindelli em cena do filme 'Águas Selvagens' - Divulgação

Estamos num lugarejo onde ocorreu um horrível crime. O irmão da vítima chama o detetive Gualtieri para resolver um assassinato envolvendo sua família. Nada foge à tradição do filme noir no roteiro de Óscar Tabernise –o detetive é um ex-policial que chega de Buenos Aires, contratado para resolver o caso num lugarejo em região onde Argentina, Brasil e Paraguai fazem fronteira. Logo descobre, no entanto, que o assassinato em questão é só um detalhe na trama que tem diante de si (e às vezes às suas costas).

O ponto mais favorável vem da composição de Gualtieri, que foge ao modelo Humphrey Bogart de ser do detetive. É um desiludido, cheio de dores passadas, mágoas bem marcadas na sua barba sempre por fazer, nos trajes invariavelmente relaxados. Se não é impulsivo como os "private eyes" dos Estados Unidos, também não tem a intuição brilhante do Maigret criado por Simenon.

O ator Jean Gabin em cena do filme "Maigret et l'Affaire Saint Fiacre" (1959), dirigido por Jean Delannoy. A produção é inpirada na obra do escritor belga Georges Simenon
O ator Jean Gabin em cena do filme 'Maigret et l'Affaire Saint Fiacre', de 1959, dirigido por Jean Delannoy; a produção é inspirada na obra do escritor belga Georges Simenon - Marcel Dole/Divulgação

Gualtieri tateia no terreno incerto que o inimigo propõe, sem saber nem mesmo quem são os inimigos. E o terreno vai desde a presença de capangas por todo lado a um assassinato com supressão do pênis da vítima. Às vezes é possível pensar que seu maior inimigo seja mesmo o compositor da trilha musical fraquíssima.

Mas não. A dificuldade do filme em encontrar bons enquadramentos (apesar do preciosismo) parece pesar mais contra suas investigações, assim como uma ou duas trapaças do roteiro, que faz personagens se tornarem de repente o contrário do que são, entre outras.

Mais do que tudo, porém, pesa a falta de limpidez das imagens. A limpidez é um atributo indispensável dessa categoria de filmes, pois a trama, necessariamente, é sempre cheia de reviravoltas surpreendentes.

Podemos perguntar por que falar de um pessimismo acompanhado de fragilidades que parece fazer parte cada vez mais do cinema argentino recente. As águas a que se refere o filme parecem, mais do que selvagens, emporcalhadas.

Sem falar do assassinato inicial, dos capangas e cúmplices que pululam nos hotéis do lugar (é quase tudo que conhecemos de onde se passam os acontecimentos), há também as pessoas de bom coração que se revelam. Tudo isso é habitual. Menos habitual é a intriga tocar em casos de tráfico de crianças e pedofilia –é com isso que lida muita gente naquela fronteira,

É verdade que o faz com delicadeza. A delicadeza possível nesses casos, que parecem mais violentos quando vistos —por vezes a trama parece que seria mais adequada ao romance policial que toma por base.

Ao ver "Águas Selvagens" dá para lembrar "O Pântano" e comparar os dois. Não as virtudes, que são incomparavelmente maiores no filme de Martel, mas outras coisas. Parece que o pessimismo, o derrotismo e a safadeza invadiram o país de vez. Ao menos é a isso que leva a pensar o filme dirigido por Roly Santos.

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