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Cinema

Carreira de Johnny Depp já sangrava antes de Amber Heard, mas ganhou nova chance

Ator vinha sofrendo baques antes de acusações de abuso, mas é indissociável de Hollywood

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Não é de hoje que as coisas não vão bem para Johnny Depp. O imbróglio em que ele e Amber Heard se meteram nas últimas semanas é só a cereja de um bolo recheado de polêmicas e coberto por decadência. Mas, pelo incrível que pareça, pode acabar se convertendo numa oportunidade para o ator restabelecer sua enfraquecida imagem.

Isso porque o júri do processo de difamação que ex-marido movia contra ex-mulher decidiu que Heard agiu de má-fé ao dizer que foi vítima de abuso físico, verbal, psicológico e emocional. É um veredito que, de certa forma, limpa a barra de Depp e dá argumentos para diretores e estúdios voltarem a trabalhar com ele, se desejarem.

Johnny Depp deixa o tribunal após uma das audiências de seu processo contra Amber Heard - Evelyn Hockstein/Reuters

Hollywood, obcecada como sempre foi pela imagem do galã rebelde –e que, na verdade, romantiza comportamentos nocivos e narcisistas– provavelmente terá cautela para ilustrar cartazes com seu rosto, mas não mais por causa de Heard.

Sua estrela vinha deixando de brilhar há meses, diante de relatos sobre o temperamento difícil, os atrasos constantes e os problemas com drogas e bebidas, que se espalharam pelas entranhas dos estúdios e fizeram de Depp persona non grata. Os últimos e os próximos projetos do ator beiram a mediocridade.

A fortuna já avaliada em cerca de US$ 600 milhões –ou R$ 2,9 bilhões– também vinha sendo minada por um estilo de vida extravagante, má gestão e acordos judiciais que o astro de "Piratas do Caribe" precisou acertar com todo tipo de gente. Depp sempre foi um bon vivant, mas recentemente preferia colecionar imóveis luxuosos, como uma ilha privativa nas Bahamas e uma vila na França, a se desafiar artisticamente.

No topo disso tudo está um problema muito mais difícil de contornar –não é de hoje que críticos acusam Depp de atuar no piloto automático. Sua última indicação ao Oscar, pelo ótimo trabalho no musical gótico "Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet"​, foi também um ponto de virada. Dali para frente, o ator começou a se tornar uma caricatura de si próprio.

Há dez anos, em mais uma parceria com Tim Burton, que o tinha como muso, pareceu parodiar seus personagens anteriores, como o vampiro trapalhão de "Sombras da Noite". Em "O Cavaleiro Solitário", a Disney tentou recriar o pirata Jack Sparrow no velho oeste americano, sem sucesso. Em "Mortdecai: A Arte da Trapaça", ele penou para arrancar risadas do público. Em "Alice Através do Espelho", já estávamos cansados da afetação de seu Chapeleiro Maluco.

E então veio mais um "Piratas do Caribe", saga que apresentava claro desgaste, e o bruxo das trevas na franquia "Animais Fantásticos". Os críticos não foram generosos com seu trabalho no mundo mágico, porque de fato não havia qualquer rastro de profundidade em sua vilania, algo potencializado pela equipe de cabelo e maquiagem, que o transformou num desenho animado ambulante.

Foi entre um filme e outro da saga criada por J. K. Rowling, outra figura controversa de nossos tempos, que a casa caiu. No que foi o ponto mais baixo de sua carreira, Depp foi demitido pela Warner Bros., na cola de um artigo do tabloide The Sun que o tachava de "espancador de mulher". Com o veredito de agora, no entanto, o cenário muda.

Ao refutar as alegações de Heard, o júri dá uma segunda chance a Depp. Se o ator for esperto, vai aproveitar a manchete de inocente e a atenção da mídia para se apresentar como um novo Johnny Depp.

Hollywood sempre precisa de mocinhos e vilões e, apesar de todo o abuso que Heard alegou ter sofrido, ela acabou saindo da trama como aquela a ser repreendida. Independentemente de opiniões favoráveis ou contrárias à atriz, é ela quem vai sofrer o maior golpe. Seus créditos de atuação já não eram dos mais invejáveis e, agora que caminhava para o estrelato com "Aquaman", deve ter sua carreira freada.

Depp, por outro lado, pode aproveitar para fazer as pazes com o cinema sob os holofotes que retomou. E é difícil para uma indústria tão obcecada por aparências –e agora tão movimentada por fan service– se desfazer de alguém do tamanho do ator.

Ele vem amolecendo corações desde os anos 1980, seja em papéis icônicos nas telas ou com o jeito estiloso que tinha fora delas, e não há quem não tenha se encantado por algum de seus personagens –do pirata beberrão Jack Sparrow ao solitário e sensível Edward Mãos de Tesoura, do rapaz bonitinho com a barriga de fora em "A Hora do Pesadelo" ao com cara de mau e jaqueta de couro de "Cry-Baby".

O futuro de Depp depende só dele, mesmo após um julgamento com tanto desgaste para os dois lados. Parte da internet pode esbravejar contra a decisão, mas vale lembrar que esta é a mesma bolha digital que alçou seu último filme, o desconhecido "Minamata", a um dos favoritos no recém-criado Oscar popular.

O verdadeiro mistério é o que quer o ator para a sua carreira –e é bem possível que ele não queira nada, embora ilhas paradisíacas e vilas medievais não se paguem sozinhas.

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