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Poesia de Torquato Neto ilumina a melancolia e a vida do menino infeliz

Único livro organizado pelo autor em vida, 'O Fato e a Coisa' é porta de entrada para a obra do tropicalista

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Ligia Gonçalves Diniz

Professora de teoria da literatura na Universidade Federal de Minas Gerais e autora de 'O Homem Não Existe' (Zahar)

O Fato e a Coisa

  • Preço R$ 69,90 (152 págs.); R$ 39,90 (ebook)
  • Autoria Torquato Neto
  • Editora Luna Parque e Fósforo

O poeta Torquato Neto é um desses segredos que muita gente conhece sem saber. Quem chorou com Edu Lobo em "Pra Dizer Adeus" conhece Torquato.

Quem, em outra onda, cantarolou "Go Back" acompanhou o poema do autor na versão musicada pelos Titãs. E mais: é dele a desconcertante letra de "Mamãe Coragem", que Gal Costa elevou ao sublime em "Tropicália ou Panis et Circenses".

 Torquato Neto na praia
Torquato Neto na praia - Vitrine Filmes/Divulgação

A poesia escrita de Torquato é bem menos explorada. "O Fato e a Coisa", publicado pelo selo Círculo de Poemas —projeto da Luna Parque com a Fósforo— é uma bela porta para quem quiser adentrar a obra pelas mãos do próprio autor.

Único volume organizado por Torquato, o livro reúne poemas escritos de 1961 a 1964, quando ele tinha entre 16 e 19 anos e vivenciava as mudanças da adolescência para a idade adulta, e da Teresina natal para o Rio de Janeiro.

Escritos antes de Torquato sofrer o impacto da poesia concreta e do pop dos Beatles e da Jovem Guarda –que contribuiria para tornar sua obra uma das mais emblemáticas da tropicália–, os poemas de "O Fato e a Coisa" têm o encanto de mostrar algumas das tensões afetivas que iriam marcar a escrita do autor ao longo dos (poucos) anos de sua produção. Comove, sobretudo, a resistência manifesta, e quase sempre fracassada, contra a melancolia.

Embora alguns dos poemas do livro já tivessem vindo a público em boas coletâneas, tomar contato com eles na ordem desenhada pelo próprio Torquato traz uma visão mais potente acerca das tensões e da resistência.

A coerência interna do volume se articula no diálogo entre os substantivos do título, recorrentes nas páginas. O "fato" é o duplo, adulto e triste, do menino que cresce: "Te sinto apenas a repetição de minha angústia/ vezes dois". Já a "coisa" é o que pode escapar, na forma da "coisa, alucinante coisa, / inexcedível coisa".

Sintomática é também a escolha do poema de abertura, "Explicação do Fato", em que o sujeito lírico crava: "Impossível envergonhar-me de ser homem", um verso aliás delicioso de se ler em 2022. O "homem" aqui é, sim, o ser de sexo masculino, mas é sobretudo o indivíduo que se vê em um corpo humano e adulto e quer recusar a prostração do pavor e do silêncio.

"E insisto porque insistir é minha insígnia", escreve. E, no entanto: "Como não morrer de medo se esta noite é fera/ e dentro dela eu também sou fera/ e me confundo nela/ e ainda insisto?".

Poeta Torquato Neto faz o papel de vampiro no filme 'Nosferatu no Brasil', 1971, de Ivan Cardoso. - Reprodução

"Não é viável", ele escreve, e é impossível esquecer que, cerca de uma década após escrever o poema, Torquato morreria por decisão própria, um dia após completar 28 anos, em 1972. Do mesmo modo, as muitas menções à ideia de suicídio neste livro de juventude acabam se revestindo de ares de prognóstico, quando poderiam muito bem ser lidas na chave da temática do ultrarromantismo adolescente.

É um livro adolescente, afinal, e quem abri-lo em busca de ambição temática e ruptura formal ficará frustrado e não aproveitará as melhores páginas. Nelas, o impressionante domínio de ritmo de Torquato se alia a certa desolação drummondiana –influência que mais se nota no livro e que ultrapassa o mero cacoete de admirador– para compor uma poesia elegante e delicada.

No lindíssimo "A Mão e a Luva", um telefone é signo do desejo de amparo, pois "a pessoa existe incomunicável/ e longe —mas existe/ e atenderá".

Além dos poemas de "O Fato e a Coisa", a edição recém-lançada inclui uma seleção ampla de escritos da juventude, que perde força ao incluir poemas menos interessantes entre algumas boas composições — por exemplo, o derramado "Stop;" e o maiakovskiano "A Gênese Telúrica".

Em todos os poemas, porém, reside um brilho oriundo do encantamento com a vida, que quer triunfar sobre a desesperança. Ao falar do suicídio de Torquato em seu "Verdade Tropical", Caetano Veloso escreveu que, apesar de tudo, "leveza" era a melhor palavra para descrever a atmosfera produzida pela presença do amigo. É exatamente esse o paradoxo que emerge, com precisão, ritmo e doçura, das páginas de "O Fato e a Coisa".

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