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Filmes mostra de cinema

'Bardo' oscila entre piscina de ricos e deserto que destrói pobres

Disponível na Netflix, novo filme de Iñarritu é bem mais significativo do que os que lhe deram dois Oscar

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BARDO, FALSA CRÔNICA DE ALGUMAS VERDADES

  • Onde Disponível na Netflix
  • Classificação 18 anos
  • Elenco Daniel Giménez Cacho, Griselda Siciliani e Íker Sánchez Solano
  • Produção México, 2022
  • Direção Alejandro G. Iñárritu

Silverio Gama é um repórter e documentarista mexicano que vive com a família nos Estados Unidos. Seu trabalho é premiado, ele recebe prêmios e homenagens nos dois países. Aparentemente, o que mais brilha é o seu trabalho sobre pessoas que vão à fronteira na tentativa de entrar nos EUA.

Porém, o que significa sucesso? Silverio não é um idiota e sabe bem que ele não quer dizer grande coisa. Ele chega cheio de contradições que ora ele mesmo constata, ora lhe chegam pelas contestações —bem-fundadas— de seu filho Lorenzo.

Daniel Gimènez Cacho em cena do filme "Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades", de Alejandro G. Iñárritu
Daniel Gimènez Cacho em cena do filme "Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades", de Alejandro G. Iñárritu - Divulgação

Isso pode resumir, em poucas linhas, o argumento de "Bardo", mas está longe de conter todos os sentidos que Alejandro G. Iñarritu explora. É preciso, antes de entrar em sua teia, relembrar que Iñarritu é um desses cineastas mexicanos por quem Hollywood se apaixonou a ponto de já ter ganho nada menos que dois Oscar de melhor direção.

Isto é, as contradições que agora vemos na tela são bem análogas à do homem que ganha a vida nos EUA, o país que roubou ao México uma parte mais que considerável do país, que ergueu um muro para evitar a passagem de imigrantes pela fronteira mexicana. Em poucas palavras, o país que humilha o México quase cotidianamente.

Isso torna mais clara a ironia —Amazon vai comprar a Bajo California—, o sarcasmo —melhor que compre tudo, diz alguém—, a autopiedade de Silverio —"Não posso entender meu país, só amá-lo"—, ou mesmo as palavras do gângster preso, para quem ultrapassamos o estágio da miséria. Agora estamos na pós-miséria, quer dizer, da miséria que se arma até os dentes e mata quem for preciso para melhor traficar entorpecentes.

Fica mais clara ainda a ironia que consiste em ter um documentário que comenta a desigualdade social do país aplaudido por uma plateia chique. Silverio —um alterego de Iñarritu, adivinha-se— se dá conta disso, mas são Lorenzo e o amigo Luís que lhe jogam na cara as contradições de que é feito.

Na verdade, tudo isso se passa em um registro que assimila muito da tradição surrealista mexicana, que evoca Octavio Paz, mistura o sonho, as alucinações, o delírio, a memória e até a vigília. Disso, faz um todo desencantado, que tem como leitmotiv a meteórica existência de Mateo, seu filho que morreu após apenas 30 horas de vida. É Mateo que suscita o comentário de Camila, a filha que mora em Boston: para ela todos vivem no limbo, não só Mateo.

"Bardo" oscila entre a piscina de um clube para ricos e o deserto que acolhe e destrói os pobres. Oscila, de certa forma, Iñarritu. Seu México parece muito, muito distante do Brasil de Glauber Rocha, cujas contradições apontam, ainda que por paus e por pedras, para o futuro, a transformação, a nova civilização.

O México de Iñarritu é trepidante, porém estéril, como se pode deduzir do diálogo que entretém com Hernán Cortés, o espanhol, conquistador do México, destruidor da cultura azteca, entre um espectro e outro.

Trata-se de um mundo que escapa entre os dedos de Silverio, por mais que sua câmera busque captá-lo. Seus documentários servem para lhe dar alguma fama, mas ele sabe o quanto isso é desimportante. Ou, se não sabia, seu pai ressurge dos mortos para lembrá-lo, entre outras, disso.

Bem mais do que os brilharecos para inglês ver (americano, na verdade) de outros filmes, as escolhas de Iñarritu aqui são mais orgânicas. Não é raro o surrealismo ser usado como facilidade que libera para qualquer trapaça com tempo e espaço, o que não é o caso em "Bardo".

Da mesma forma, o uso persistente da grande-angular ajuda a nos lançar no mundo distorcido que o cineasta pretende representar em "Bardo". Com a liberdade que lhe dá a autoria —direção, roteiro, produção, montagem— e a força que Netflix oferece aos cineastas-estrela que contrata, Iñarritu faz um filme bem mais significativo do que os que lhe deram, já, dois Oscar de direção.

Pode-se dizer que em alguns momentos o filme morre, perde interesse. São as dores do autorismo. No mais, passados esses momentos, "Bardo" renasce com força.

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