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22/12/2010 - 07h03

Leia trecho do livro "Só Garotos", de Patti Smith

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DE SÃO PAULO

[Trecho de "Só Garotos", de Patti Smith, relata o encontro da autora, antes da fama, com o poeta beatnik Allen Ginsberg, em uma cafeteria de Nova York, em 1969]

Eu estava sempre faminta. Meu metabolismo era muito rápido. Robert conseguia ficar sem comer muito mais tempo do que eu. Se estávamos sem dinheiro, a gente simplesmente não comia. Robert ainda conseguia funcionar, embora ficasse um pouco agitado, mas eu parecia que ia desmaiar. Uma tarde chuvosa fiquei com desejo de um daqueles sanduíches de queijo e alface. Procurei em nossas coisas e achei exatamente 55 centavos, coloquei as moedas em minha capa de chuva cinza, com meu chapéu de Maiakóvski, e fui ao Automat.

Peguei minha bandeja e depositei as moedas, mas o vidro não abriu. Tentei de novo sem sorte e então reparei que o preço havia subido para 65 centavos. Estava desapontada, para dizer o mínimo, quando ouvi uma voz dizer: "Posso ajudar?".

Virei-me e ali estava Allen Ginsberg. Nunca havíamos nos encontrado antes, mas sem dúvida era um dos grandes poetas e ativistas do país. Olhei para aqueles intensos olhos castanhos envolvidos por uma barba escura e cacheada e simplesmente assenti. Allen acrescentou os dez centavos que faltavam e ainda me pagou um café. Sem palavras, acompanhei-o até a mesa, e então ataquei o sanduíche.

Allen se apresentou. Ele falava sobre Walt Whitman e comentei que havia sido criada perto de Camden, onde Whitman fora enterrado, quando ele se inclinou para mim e olhou com mais atenção. "Você é menina?", perguntou.

"Sou", falei. "Algum problema?"

Ele só deu risada. "Desculpe. Achei que você fosse um menino bonito."

Então entendi tudo.

"Bem, isso quer dizer que devo devolver o sanduíche?"

"Não, aproveite. O engano foi meu."

Ele me contou que estava escrevendo uma longa elegia para Jack Kerouac, que havia morrido recentemente. "Três dias depois do aniversário de Rimbaud", falei. Apertei a mão dele e nos despedimos.

Algum tempo depois, Allen se tornou meu bom amigo e professor. Vez por outra lembramos de como foi nosso primeiro encontro, e ele uma vez me perguntou como eu descreveria quando nos conhecemos. "Diria que você me deu de comer quando eu estava com fome", respondi. E de fato foi assim.

 

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