Paradoxal, 'Brexit' ilustra e contradiz alma britânica, dizem historiadores

CHRISTIAN SCHWARTZ

RESUMO Às vésperas da eleição que pode credenciar a primeira-ministra Theresa May a conduzir com mão de ferro o "brexit", os historiadores Peter Burke e Maria Lúcia Pallares-Burke passam a limpo particularidades da cultura e do espírito britânicos que a um só tempo explicam e tornam indecifrável o atual processo de isolamento.

Crédito: PRU - 26.abr.2017/AFP A primeira-ministra Theresa May fala na House of Commons, em Londres, em abril
A primeira-ministra Theresa May fala na House of Commons, em Londres, em abril

O historiador Peter Burke, decano da Universidade de Cambridge, completa 80 anos em 2017.

Trata-se, portanto, de uma figura com memória suficiente para identificar as particularidades das rupturas a que assistimos: a da Inglaterra em relação aos vizinhos europeus, a de grupos populacionais autodeclarados "nativos" contra imigrantes –e, talvez mais temerária que as anteriores, a de correntes políticas em ascensão frente a valores caros às democracias liberais.

Nesse cenário, a decisão da primeira-ministra inglesa, Theresa May, de antecipar para a próxima quinta-feira (8) eleições gerais só aconteceriam em 2020 prenuncia o rompimento mais radical possível na despedida dos ingleses da União Europeia. Ela o fez em busca de sustentação popular para negociar os termos do "brexit".

 
Os Ingleses
Peter Burke, Maria Lucia Garcia, Pallares- Burk
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Pesquisas de opinião mostram que a premiê lidera as intenções de voto, apesar de sua vantagem sobre o trabalhista Jeremy Corbyn ter caído sensivelmente nos últimos dias.

Para quem, a exemplo de Burke, é especialista em intercâmbios (e embates) culturais, a tendência ao fechamento de fronteiras deve ser ainda mais inquietante. Ele compartilha o desassossego com a mulher, a historiadora brasileira Maria Lúcia Pallares-Burke, 70, com quem escreveu "Os Ingleses" (Contexto) e "Repensando os Trópicos - Um Retrato Intelectual de Gilberto Freyre" (ed. Unesp).

Na raiz dessa "globalização reversa", estaria uma falha da história cultural em convencer a opinião pública de que costuma ser mais vantajoso se abrir ao outro do que ignorá-lo ou hostilizá-lo?

"É irônico, de fato. A maioria dos historiadores culturais deu o melhor de si para passar essa mensagem. Só que algumas pessoas não querem nem ouvir falar em fronteiras abertas como algo vantajoso", responde o historiador. "Há quem entenda como uma invasão o fato de haver mulheres com a cabeça coberta e usando burcas nas ruas de Londres."

O que imediatamente leva o interlocutor a indagar: cenas assim não fazem parte da paisagem da capital inglesa e da de outras cidades do Reino Unido há tempo suficiente para desmontar a tese do súbito "incômodo" dos nativos?

ÁFRICA COLORIDA

Além de conhecer o tema como estudioso, Peter guarda memórias pessoais de quando, no final dos anos 1940, início dos 1950, uma primeira onda de imigração levou a Londres, onde ele morava, gente de várias ex-colônias britânicas na Ásia, na África e no Caribe.

"Os que mais se destacavam eram os da África ocidental, com as mulheres usando trajes esplêndidos, muito coloridos, típicos do Mali, do Senegal e da Nigéria. Aí veio o inverno, e os trajes todos desapareceram das ruas."

Não que aquele tenha sido exatamente um processo de assimilação pacífico: em geral, relata ele, os imigrantes eram observados "com curiosidade", mas houve quem colocasse avisos nas portas dizendo que ali não se hospedavam asiáticos e negros, para não falar em motins violentos registrados nos bairros da capital.

Dito isso, parece haver algo de inédito no "brexit". Ainda que a Inglaterra tenha vivido muitas vezes às turras com o continente europeu, nunca antes essa animosidade havia sido manifestada, nessa extensão, pelo voto popular.

Por outro lado, conforme observam Peter e Maria Lúcia em "Os Ingleses", "a abertura com que a Inglaterra, ao longo da história, recebeu refugiados políticos e religiosos já foi apontada como uma medida da segurança e da estabilidade sentidas pelo país, segurança e estabilidade tidas como praticamente inabaláveis por fatores externos". Persiste a pergunta: isso estaria mudando?

"Se está mudando definitivamente, é difícil dizer. Quero acreditar que esteja simplesmente passando por uma crise da qual sairá", pondera Maria Lúcia.

Para ela, pode-se interpretar o "brexit" a partir do comentário de um jornalista holandês do século 18 sobre o "amor desmedido pela liberdade", tão típico dos ingleses. "Tudo o que incomoda, tudo o que constrange lhes é insuportável", define o manual sobre a "inglesidade" escrito a quatro mãos.

"O 'brexit' pode ter sido um erro terrível, mas talvez não seja correto descrevê-lo como totalmente 'un-english' [não inglês]", conclui daí a historiadora.

Ao que Peter acrescenta: "A entrada [do Reino Unido] na União Europeia [nos anos 1970] também foi uma ruptura –com a tradição da insularidade, literal e metafórica. Fiquei muito feliz quando entramos, porque já me sentia europeu desde muito antes". Culturalmente europeu, nem seria preciso dizer.

MIGRAÇÃO DE IDEIAS

Em livro recém-lançado em inglês e que deve sair em breve no Brasil pela editora Unesp, Peter investiga um tipo de migração que, embora envolva forçosamente o deslocamento físico, tem mais a ver com o transplante de ideias.

"Exiles and Expatriates in the History of Knowledge, 1500-2000" [Brandeis, R$ 92,89, e-book] (exilados e expatriados na história do conhecimento) percorre um amplo arco temporal para contar a história de intelectuais e acadêmicos que deixaram para trás seus países de origem e "modos de pensar" para uma viagem, às vezes sem retorno, a outras pátrias do pensamento.

O livro reúne conferências proferidas por Peter na Sociedade Histórica de Israel, em Jerusalém, nas quais a noção de diáspora(s) faz aparições recorrentes. No prefácio, o historiador israelense Dror Wahrman nota a identificação do palestrante com o tema: "A visão que Peter tem da Europa talvez seja, até certo ponto, geneticamente determinada".

Ele lembra uma passagem-chave na formação do britânico: o serviço militar em Cingapura. "Como responsável pelo serviço burocrático –entediado por definição, portanto–, começou a explorar o contato com aquela gente tão diferente de tudo o que já tinha visto". Disso adviria "um considerável senso sobre diferença cultural".

Não será exagero afirmar que somente um historiador com esse tipo de criação/formação –em que se somaram as influências da família russa judia (e exilada) da mãe e as do lado irlandês católico (e expatriado) do pai– poderia ter escrito "Exiles and Expatriates", também um tributo a vários dos professores emigrados que fizeram a cabeça dos universitários ingleses no pós-Segunda Guerra (no caso de Peter, em Oxford, na década de 1950).

No volume, é central a ideia de "desprovincialização": ao mesmo tempo em que esses intelectuais eram "desprovincializados" pelo movimento de uma cultura a outra, teriam ajudado a "desprovincializar" seus anfitriões ao apresentar a eles "não só conhecimentos diferentes mas também modos de pensar alternativos", escreve Peter.

Gilberto Freyre, nosso controverso teórico do diálogo entre culturas (embora no seu tempo ainda se falasse em "raças"), é um desses tantos intelectuais cuja experiência em terra estrangeira certamente serviu à própria "desprovincialização". Não à toa, tem lugar de destaque na nova obra.

Além disso, atrai já há algum tempo o interesse comum do casal, tendo inspirado um par de livros de autoria conjunta (um deles o já citado aqui "Repensando os Trópicos"), além de uma biografia que Maria Lúcia assinou sozinha ("Gilberto Freyre: Um Vitoriano nos Trópicos", ed. Unesp).

Peter chega aos trópicos nesta semana para duas conferências em São Paulo. Na quarta (7), às 18h30, ele apresenta a fala "Interrogando a Testemunha: Imagens como Evidência" no auditório da editora Unesp (inscrições aqui ).

Já na quinta (8), às 20h, discorre sobre manipulação midiática na Universidade Mackenzie (inscrições encerradas).

CHRISTIAN SCHWARTZ, 41, pesquisador visitante na FGV e em Cambridge, é jornalista e tradutor.

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