Nova plataforma permite navegar pelo 'Livro do Desassossego', de Pessoa

Crédito: Reprodução
Pessoa, em 1929, em foto do livro 'Fernando Pessoa. Uma Fotobiografia', de Maria José de Lancastre

ISABEL COUTINHO

livros que nos deixam presos neles para sempre. Para Jerónimo Pizarro, pesquisador colombiano especialista em Fernando Pessoa, o "Livro do Desassossego" é um deles. É o que ele conta num dos vídeos disponíveis no Arquivo LdoD, uma base digital colaborativa sobre essa que é uma das obras mais conhecidas de Pessoa.

O projeto foi concebido em 2009 por Manuel Portela, do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, e por António Rito Silva, do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores. Em 2012, eles conseguiram financiamento e levaram mais seis anos para concretizar o arquivo, que foi finalmente apresentado na Biblioteca Nacional em Lisboa e pode ser acessado no endereço eletrônico: https://ldod.uc.pt.

Dentre o material que integra a base digital, há imagens de documentos manuscritos do autor, acompanhados de novas transcrições, assim como versões digitais de quatro edições do livro –aquelas organizadas por Jacinto do Prado Coelho (1982), Teresa Sobral Cunha (2008), Richard Zenith (2012) e Jerónimo Pizarro (2010).

É este último que aparece em vídeo, disponível no site, lendo um trecho do livro no celular. Ele conta que a primeira leitura que fez da obra em espanhol lhe provocou amores e ódios, deixando-o obcecado e preso a ele para sempre.

Livro do Desassossego
Fernando Pessoa
Livro do Desassossego
Comprar

A plataforma digital tem cinco seções: "Leitura", que permite ler a obra em diferentes sequências; "Documentos", que contém a listagem de todos os fragmentos e informação acerca das fontes; "Edições", que permite a visualização dos originais e comparação das transcrições; "Pesquisa", que serve para selecionar fragmentos de acordo com múltiplos critérios; e "Virtual", que permite que os utilizadores colaborem na criação de edições virtuais do "Livro do Desassossego".

Portela promete uma sexta parte para daqui a dois anos, "Escrita", que permitirá aos utilizadores escreverem variações a partir dos fragmentos do livro.

COMO O VINHO DO PORTO

O cantor e compositor Sérgio Godinho, 72, que já cantou e fez parcerias com Chico Buarque, Caetano Veloso e Milton Nascimento, passou sete anos sem lançar um disco gravado em estúdio.

No dia 26, lança "Nação Valente" —álbum cujo título é emprestado de uma de suas canções. A letra da música, que fala do período político recente, do pós-troika, tem frases como "Há de haver outra solução/Para esta valente nação" e o pedido por "um país de ideias libertas".

Duas outras músicas, "Tipo Contrafacção" e "Artesanato", já estão disponíveis e mostram que Sérgio envelhece tão bem ou melhor do que um vinho do Porto. No ano passado, ele já havia publicado o romance "Coração Mais que Perfeito" e já está revisando o próximo, que sairá em setembro.

Ele afirma que ainda há histórias que quer contar: suas duas prisões no Brasil, uma durante a ditadura e outra nos anos 1980. Diz que fará isso a seguir.

DOIS IRMÃOS

José Gardeazabal —pseudônimo literário de José Tavares— parece estar seguindo os passos do irmão: seu primeiro romance, "Meio Homem Metade Baleia" (Companhia das Letras), sobre um mundo em que a desumanização parece irreversível, está nas livrarias portuguesas desde terça (16).

Professor, pesquisador e irmão do também escritor Gonçalo M. Tavares, José Tavares foi premiado em 2015 por "História do Século Vinte", um volume de poesia.

Em 2016, publicou "Dicionário de Ideias Feitas em Literatura", uma coletânea de prosa curta com 176 entradas —uma delas, "Agora", partia da leitura de Carlos Drummond de Andrade e perguntava: "E agora, José? Queres prosa? Queres poesia?". Em 2017, lançou-se na dramaturgia, com a publicação de três peças de teatro reunidas em "Trilogia do Olhar".

DE LISBOA PARA O MUNDO

A experiência de ser detido na Noruega por tentativa de imigração ilegal —quando viajava da Suécia para Oslo, num ônibus, sem passaporte válido— serviu de inspiração para o primeiro romance de Kalaf Epalanga, integrante da banda Buraka Som Sistema.

"Também os Brancos Sabem Dançar: Um Romance Musical" (Caminho) é uma obra de autoficção que passa pela história de Angola, as noites africanas de Lisboa, imigração e a história de gêneros musicais como o kuduro e a kizomba —o autor cita como grande referência "Desde que o Samba é Samba", de Paulo Lins.

Para o escritor José Eduardo Agualusa, o romance é "cheio de swag e de swing". A obra chega ao Brasil em maio pela Todavia.

ISABEL COUTINHO, 51, é repórter do jornal português "Público".

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.