Descrição de chapéu olimpíada

Leia trecho de roteiro de filme sobre expropriações para a Olimpíada

Longa de Marina Meliande foi exibido esta semana no Festival de Roterdã

pintura em verde e cinza
Ilustração de Rodrigo Visca - Visca
Marina Meliande Felipe Bragança

Sobre o texto O trecho nesta página integra o roteiro de "Mormaço", filme de Marina Meliande sobre uma defensora pública que representa uma comunidade ameaçada de remoção devido às obras do Parque Olímpico do Rio, em 2016. O longa foi exibido nesta semana na competição do Festival de Roterdã.



VILA AUTÓDROMO — EXT. DIA

Ruas de asfalto misturadas a ruas de areia batida às margens da Lagoa de Jacarepaguá. Um extenso tapume prateado divide uma área de prédios espelhados de uma outra que parece saída de um campo de guerra. Vemos palavras de ordem pichadas no tapume de metal: "Rio de Janeiro na lama, cidadãos de bem sitiados"; "Rio sem remoções"; "Lava Jato olímpico"; "Nem todos tem um preço"; "Queremos ficar sim!".

Estamos na Vila Autódromo —bairro esvaziado de casas dispersas entre terrenos baldios e ruínas de casas recém-demolidas, próximas ao antigo Autódromo do Rio de Janeiro, atual Parque Olímpico.

Vozerio. Um grupo de 12 homens e mulheres está sentado em uma roda de cadeirinhas de plástico no meio da rua, diante de um esqueleto do que sobrou de uma casa de dois andares. Estão todos lendo cópias em papel impresso de um texto curto.

Ana está entre eles, observa a reação deles —uma mulher de uns 50 anos, morena, de olhar forte, mas doce, parece ser uma espécie de líder na reunião...

ANA Então, gente, vocês entenderam? Com essa liminar a gente tem alguma chance de reverter a última notificação da prefeitura.

DOMINGAS Eu entendi... Mas quer dizer que antes do Natal eles não tiram a gente daqui? Essa história de que tem que sair daqui em dez dias não vale mais nada, Ana?

ANA O papel deixa bem claro que a última casa que estava dentro do decreto expropriatório era a da dona Juliana. Qualquer outra casa, pra ser demolida, precisa passar por uma negociação. E essa negociação só pode acontecer com a concordância de vocês.

MILTON Mas tem um monte de gente que não queria negociar que saiu assustado com tanto urubu da prefeitura cercando a gente por todo os lados. Esse papel aí da senhora não representa porra nenhuma pra eles. Desculpa falar assim.

DOMINGAS Se cem pessoas decidirem negociar com a prefeitura, não tem problema. Eu vou brigar por três, por dez, 20, 50, quantos restarem. E eu não quero negociar com ninguém. Se derrubarem minha casa eu construo outra do lado. Eles derrubam e eu construo de novo. E de novo. Tô certa, Milton?

MILTON Tá.

ANA Qualquer movimentação estranha vocês me liguem na hora. E a estratégia é aquela: não deixar que ninguém da prefeitura meça a casa de vocês. Da porta para dentro, esse lugar ainda não é deles.

VILA AUTÓDROMO / CASA DE DOMINGAS / COZINHA — INT. DIA

TV ligada em um noticiário onde vemos praias lotadas. É uma casa pequena, mas bem arrumada.

TV em off:

A cidade do Rio de Janeiro registrou, nesta segunda-feira, o dia mais quente dos últimos 97 anos. De acordo com Inmet, a sensação térmica chegou a 47 graus. Segundo a concessionária de energia elétrica, faltou energia em algumas áreas da cidade, como Campo Grande, Bangu e Jacarepaguá. A concessionária informou que está normalizando gradativamente o fornecimento de energia nas ruas desses bairros. A sensação térmica levou muita gente a procurar abrigo em lojas de eletrodomésticos, agências bancárias e shopping centers, que funcionam com o ar condicionado ligado. "Eu nunca vi um calor como este no Rio. Para dormir esta noite foi muito difícil. O colchão tava quente e não corria um vento. Mesmo com dois ventiladores ligados, não consegui dormir direito." "Até a água tá saindo quente das torneiras. As praias estão lotadas durante o dia todo até dia de semana. Era tanta gente que ficou difícil achar espaço na areia para armar as barracas." (...)

Domingas serve um copo d'água para Ana. Ana bebe de uma vez, sentadinha em uma mesa da cozinha sob o vento de um ventilador de chão ligado no máximo.

Domingas se senta diante dela à mesa, saca um cigarro.

Ana enche outro copo, bebe mais uma vez sem parar.

Domingas sorri, do alto de seus 60 anos, e fuma seu cigarro com calma.

DOMINGAS Apesar da notícia boa, você  tá tão séria hoje, Ana... Tristeza ou tem algo que a doutora não disse pra  gente?...

ANA Eu disse tudo, Domingas... Acho que é o calor. O calor e o cansaço de ficar dando murro em ponta de faca, o desejo de sumir no mar... É isso que tá me deixando assim...

DOMINGAS Todo mundo quer. É gente demais brigando por um pedacinho de chão nessa cidade, né? Nesse mar... E pouca gente dona de tudo. (pausa) Quer jogar uma água na cabeça? Da bica mesmo?

Ana, suando muito, respira.

ANA Eu... Quero. Quero sim.

VILA AUTÓDROMO / CASA DE DOMINGAS / QUINTAL —  EXT. DIA

Uma mangueira e algumas árvores menores. Ana com a cabeça dentro de um tanque. Domingas com uma canequinha jogando água na cabeça dela...

Ana ergue a cabeça, a água desce pelo rosto dela, molha um pouco a roupa.

ANA Ufa. Brigada.

Domingas bebe o restinho na água que ficou na caneca. Olha para Ana.

DOMINGAS (muda o tom, mais duro) Olha, Ana... Me fala: aqui não vai dar merda, né? A PM também leu esse documento que a doutora trouxe? Posso falar pros meninos ficarem tranquilos? Que vai ficar tudo em paz? O meu cunhado, você conhece, aquele ali é complicado... E  tá todo mundo acalmado porque eu pedi um voto de confiança na doutora. Em você. Hum?

Ana escutando aquilo com o rosto pingando e escorrendo água.

DOMINGAS Não quero bomba nem gás de pimenta nos olhos dos meus meninos. Muito menos coisa que faça alguém sangrar nesse pedaço de mundo que pra mim é sagrado... Entende, Ana?

Ana, com o rosto pingando, concorda muito de leve com o olhar.

DOMINGAS A Vila Autódromo é meu pedaço de mundo. (doce, fuma, olhar denso de mulher vivida) Eu não saio daqui viva.


Marina Meliande, 37, diretora de "Mormaço", é também roteirista e montadora. Codirigiu "A Fuga da Mulher Gorila" e "A Alegria" com Felipe Bragança.

Felipe Bragança, 37, é roteirista, diretor e produtor. Escreveu os roteiros de "O Céu de Suely" e "Praia do Futuro" com Karim Aïnouz.

Rodrigo Visca, 37, é artista plástico.

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