'Persépolis' relata em quadrinhos história real sobre o Irã

Livro é tema do próximo encontro do Clube de Leitura Folha, nesta terça (27)

Paulo Ramos

O próximo encontro do Clube de Leitura Folha acontece nesta terça (27), às 19h, na Livraria Blooks, do shopping Frei Caneca.

O clube se reúne sempre na última terça do mês, em diferentes livrarias de São Paulo. Os encontros são livres e gratuitos. O livro do mês de fevereiro é "Persépolis", de Marjane Satrapi, e a convidada é Alexandra Moraes, editora-adjunta de Especiais da Folha e autora da tirinha "O Pintinho".

Abaixo, uma análise de Paulo Ramos sobre a obra de Satrapi.


Quem não costuma ler quadrinhos talvez estranhe “Persépolis” (Companhia das Letras, 2007). Isso porque se trata de uma história real, direcionada ao leitor adulto. A obra é baseada na trajetória da própria autora, Marjane Satrapi, que a escreveu e desenhou. 

Cena da animação "Persépolis" (França/EUA, 2007), baseada na HQ da iraniana Marjane Satrapi. - Divulgação

O relato autobiográfico segue uma linha cronológica. Começa com sua infância no Irã, na década de 1980. O tenso e violento cenário político do país levou os pais a incentivarem sua ida para a Europa, onde passou uma adolescência conturbada. Anos depois, já adulta, retornou ao país natal, já com outro olhar sobre sua cultura.

“Persépolis” foi publicada inicialmente em quatro livros diferentes, lançados entre 2000 e 2003 na França. Foi dessa mesma forma que o trabalho chegou ao Brasil, em volumes editados pela Companhia das Letras a partir de 2004.

No fim de 2007, a editora reuniu todos os volumes em um livro só, “Persépolis Completo”. Na prática, funcionou como um novo convite para que os leitores descobrissem o trabalho da iraniana. Por ser uma narrativa longa e autobiográfica, houve até quem visse nela traços literários. Embora seja uma aproximação possível, no fundo, não deixa de ser uma história em quadrinhos.

A popularidade de “Persépolis” teve ainda um segundo empurrão: uma versão animada, dirigida por Satrapi em parceria com o francês Vincent Paronnaud. O filme concorreu ao Oscar de 2008 na categoria animação – mas perdeu para “Ratatouille”, produção norte-americana comandada por Brad Bird.

O trabalho de Satrapi é uma das autobiografias mais conhecidas dos quadrinhos contemporâneos. Surgiu numa época em que se buscavam histórias assim para comporem relatos maiores, criados especificamente para o formato livro. 


A escritora franco-iraniana Marjane Satrapi, em foto de 2003 - AP Photo - 15.mai.2003/Gino Domenico

Percorreram esse caminho confessional obras como “Fun Home – Uma Tragicomédia em Família”, de Alison Bechdel (Conrad, 2007), e “Cicatrizes”, de David Small (Leya Cult, 2010). A primeira mostra a relação da autora com o pai, aliada à descoberta da preferência sexual dela por mulheres. A segunda relata o drama vivido pelo desenhista, vítima de um câncer no pescoço durante a infância.

Embora tenham ajudado a consolidar os relatos autobiográficos como um gênero dos quadrinhos, todos os livros (“Persépolis” inclusive) têm muito a creditar a “Maus – A História de um Sobrevivente” (Companhia das Letras, 2009) quanto à possibilidade de uso desse recurso de narrar. 

O autor, o quadrinista Art Spiegelman, usou a primeira pessoa para contar a história de vida de seu pai, um dos sobreviventes dos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra Mundial. Publicada em capítulos entre a década de 1980 e o começo da seguinte, ganhou destaque ao ser reunida em livro, em duas partes, e vencer uma das categorias do Pulitzer, importante premiação do jornalismo nos Estados Unidos.

“Persépolis”, como se vê, não foi o primeiro trabalho de cunho autobiográfico a ser feito com quadrinhos. Mas ainda é um dos mais populares. A boa repercussão levou Marjane Satrapi a criar outros dois livros baseados em experiências pessoais. 

“Frango com Ameixas” (Quadrinhos na Cia, 2008) tem como foco um tio-avô. “Bordados” (Quadrinhos na Cia, 2010) aborda o relacionamento dela com outras mulheres da família. Nenhum dos dois trabalhos conquistou a mesma popularidade de “Persépolis”. 


Paulo Ramos é jornalista e professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo. 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.