Autores argentinos ofuscados por Borges passam por redescoberta

Escritores como Witold Gombrowicz e Juan José Saer, que produziram na mesma época, estão sendo celebrados

Sylvia Colombo

Os escritores argentinos que foram se despedir do polonês Witold Gombrowicz (1904-1969) no porto de Buenos Aires, quando este finalmente voltava para casa, contam que ele gritou aos que ficaram em terra: "Matem Borges!".

A anedota ganhou força nas décadas seguintes, porque resumia o drama de qualquer autor argentino: como escrever após a imensa obra que ia sendo deixada por Jorge Luis Borges (1899-1986)?

borges sentado em poltrona com gato de barriga para cima
Jorge Luis Borges (1899-1986) fotografado em 1980 ao lado de seu gato Beppo, a quem ele dedicou algumas de suas poesias. - Folhapress

O próprio polonês (que obviamente não sugeria a eliminação física do autor de "O Aleph") sofreu com o ofuscamento que a obra de Borges produzia em seus contemporâneos. Ele veio à Argentina, em 1939, apenas para passar alguns meses, mas acabou ficando até 1963, preso pela impossibilidade de voltar a uma Europa em guerra (e depois pela falta de dinheiro).

Nesse período, fez de tudo para entrar no elitista circuito literário local, que sempre o tratou de forma marginal. Hoje, é um dos autores dessa época dos "ofuscados por Borges" que vêm sendo redescobertos.

Depois da reedição de quase toda a sua obra pela Cuenco del Plata, chega a vez dos "Diários", com mais de 700 páginas, em que o autor descreve o périplo para deixar a Polônia e narra seus anos na Argentina como um sofrido artista imigrante e frequentador do submundo portenho.

O resgate de autores como Gombrowicz e Antonio Di Benedetto (1922-1986), projetado por uma releitura feita pelo Nobel sul-africano J. M. Coetzee, são um exemplo da atualidade do "Matem Borges", assim como a revalorização de Juan José Saer (1937-2005).

Juan José Saer em frente a árvore
O escritor argentino Juan José Saer durante visita a São Paulo em 1997 - Cleo Velleda/Folhapress

O escritor de Santa Fé, que se autoexilou em Paris para nunca mais voltar, seguia desconhecido para a maioria dos leitores de sua terra, embora sua obra tenha ganhado grande projeção na Europa. Tido como "escritor de província", vem sendo celebrado agora, nos 80 anos de seu nascimento.

A mostra "Conexión Saer" está em cartaz até 24/4; rascunhos e textos inacabados do autor estão sendo editados pelo Fondo Saer; a principal intelectual argentina, Beatriz Sarlo, publicou um ensaio sobre o escritor ("Zona Saer", Ediciones Universidad Diego Portales).

Saer deixa pelo menos dois textos que merecem entrar no cânone latino-americano contemporâneo: "O Enteado" (1983, Iluminuras), baseado na história verídica de um jovem marinheiro espanhol do século 16 que tem a vida poupada em uma cerimônia de canibalismo; e "Ninguém Nada Nunca" (1980, Companhia das Letras), novela que se passa nos tempos de uma ditadura militar nunca mencionada, mas que paira sobre a trama, disfarçada de história policial.

PATTI SMITH EM BUENOS AIRES

Na última semana, os fãs argentinos da roqueira e poeta Patti Smith, 71, fizeram uma fila que chegou a alcançar dez quarteirões para conseguir um dos 1.800 ingressos de suas apresentações no Centro Cultural Kirchner.

O local, escolhido por conta de sua excelente acústica, é um dos mais especiais de Buenos Aires, pois funciona no prédio restaurado do que antes era a sede dos Correios Argentinos, com vista para o rio da Prata.

A primeira apresentação não foi musical. Smith apenas declamou poemas, acompanhada pelo diretor da Biblioteca Nacional, o escritor Alberto Manguel. Na segunda noite, ela cantou. Em ambas, sua potente voz, em contraste com o corpo magro e as maneiras suaves, causaram grande impacto (e provocaram lágrimas) em quem assistiu.

Para além da música, Smith deu um recado político: ao voltar aos EUA, cantará no Carnegie Hall em apoio aos estudantes norte-americanos que se rebelam contra as leis de controle de armas em seu país. "São os jovens que vão provocar uma mudança, Deus os abençoe", disse.

CARTAS DE WALSH

As cartas entre o escritor Rodolfo Walsh (1927-1977), célebre autor de "Operação Massacre" (Companhia das Letras), e o pesquisador norte-americano Donald Yates (1931-2017), especialista em literatura policial, estão para ser publicadas em Buenos Aires. O conjunto de 28 correspondências estava guardado na Universidade de Michigan (EUA) e chegará às livrarias argentinas pela Ediciones de la Flor.

Nos textos, nota-se Walsh demonstrando grande obsessão com o formato de contos policiais, nos quais podia mostrar um lado pouco evidente, porém essencial, da sociedade argentina. A correspondência começa em 1954, portanto vem de um Walsh ainda não tão envolvido com a política --anos depois, o autor passaria a integrar a resistência à ditadura e a atuar na guerrilha montoneros.


Sylvia Colombo, 46, é correspondente da Folha em Buenos Aires. 

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