Manifesto de cineastas gera debate sobre futuro do Festival de Berlim

Atual diretor da Berlinale é acusado de priorizar filmes políticos em detrimento dos autorais

Silvia Bittencourt

A última edição do Festival de Berlim, conhecido como Berlinale, foi mais uma vez um sucesso de público, mas não amainou a polêmica em torno da sucessão de seu diretor, Dieter Kosslick.

Muitos cineastas alemães vêm pedindo mais transparência no processo de escolha, feito pela Secretaria da Cultura do governo, além de uma nova concepção para o festival internacional.

homem e mulher em frente a desenho de urso
A apresentadora Anke Engelke e o diretor do Festival de Berlim, Dieter Kosslick, durante cerimônia de entrega dos prêmios na última edição da Berlinale. - Tobias Schwarz/AFP

Numa carta aberta divulgada no final do ano passado, 79 cineastas, entre eles Volker Schlöndorff ("O Tambor"), Fatih Akin ("Em Pedaços") e Maren Ade ("Toni Erdmann"), reivindicaram a formação de uma comissão internacional, com composição paritária de homens e mulheres, para escolha do próximo dirigente. O comitê deveria encontrar alguém "apaixonado pelo cinema", que "enxugue" e "repense radicalmente" o festival, a fim de "colocá-lo à altura de Cannes e Veneza".

Kosslick, 69, deixará a Berlinale em maio de 2019, quando terminará seu contrato. No comando do evento há 17 anos, ele tem se confrontado há tempos com críticas, como a de que priorizaria na competição oficial obras políticas em detrimento de filmes de autor.

O diretor se defende afirmando ter transformado a Berlinale num ímã de público (neste ano, ela superou a marca dos 330 mil ingressos vendidos, contra 240 mil em 2008). Durante sua gestão, Kosslick criou novas seções —como "Perspectivas do Cinema Alemão"—, oferecendo cada vez mais programas paralelos.

Para seus críticos, o festival teria se expandido demais, ficando atrás de seus concorrentes europeus do ponto de vista artístico.

CULTURA HUMANITÁRIA

Quem esperava uma certa mesmice no acordo fechado pela coalizão eleita para continuar governando a Alemanha surpreendeu-se com a nova tônica do documento na área cultural.

A partir de agora, o Ministério das Relações Exteriores também terá um papel importante neste campo. O país pretende aumentar os incentivos em regiões de crise, na expectativa de que projetos culturais contribuam para sua pacificação.

A política daqui para diante não será apenas divulgar a cultura alemã no exterior —como fazem, sobretudo, os 160 institutos Goethe espalhados pelo mundo—, mas também apoiar programas locais.

A Alemanha fomentará, por exemplo, projetos culturais em campos de refugiados no Oriente Médio e em países africanos, de onde centenas de milhares de pessoas tentam fugir todo ano em direção à Europa. Além disso, alguns dos institutos Goethe deverão trabalhar mais estreitamente com a França, dando à difusão cultural uma tônica menos exclusivamente alemã e mais europeia.

Para a Alemanha, a novidade é o programa Cultura nas Regiões, destinado a incentivar projetos artísticos no interior do país. Neste ponto, provavelmente, a ideia é dar uma atenção especial ao leste alemão, onde grupos xenófobos vêm se fortalecendo.

À DIREITA

O escritor alemão Uwe Tellkamp, 49, criou polêmica mais uma vez ao criticar a política de refugiados do governo e uma suposta perseguição da imprensa contra "os que pensam diferente".

Tellkamp é autor, entre outros, do romance social "Der Turm" (a torre), que se passa nos anos da derrocada da antiga Alemanha Oriental e com o qual venceu, em 2008, o mais importante prêmio literário do país.

Num debate no início do mês em Dresden —cidade natal do autor, onde são frequentes protestos de direita—, ele afirmou que a maioria dos estrangeiros que entram na Alemanha não está fugindo da guerra, mas buscando os benefícios do sistema social. Também falou em "ditadura de opinião", criticando os jornais alemães que defenderiam, em sua maioria, a política pró-refugiados de Angela Merkel.

O escritor já havia polemizado no ano passado, quando apoiou a participação de editoras de direita na Feira de Livros de Frankfurt.

Próximas às ideias do partido xenófobo Alternativa para a Alemanha (AfD), suas declarações não passaram batido. A Suhrkamp, editora do autor, apressou-se em deixar claro que não concordava com suas posições —mas não falou de rompimento de contrato.

Parte da imprensa mostrou irritação com os comentários do autor, mas lembrou que a editora não fez o mesmo, nos anos 1990, quando o escritor austríaco Peter Handke defendeu a política nacionalista sérvia na antiga Iugoslávia.


Silvia Bittencourt, 52, jornalista, é autora de "A Cozinha Venenosa" (Três Estrelas). 

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