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Conheça Félix Fénéon, o homem que tuitava um século antes do Twitter

Intelectual parisiense foi editor de Proust, galerista de Matisse e escrevia notícias de 135 caracteres

Helen Beltrame-Linné

[RESUMO] Félix Fénéon, intelectual que viveu em Paris há cem anos, escreveu mais de 1.200 notícias de jornal que caberiam em um tuíte. Com preferência pelos bastidores, foi editor de Rimbaud e Proust, era o galerista de confiança de Matisse e lançou James Joyce na França.

 

Cem anos antes de o Twitter existir, já estava em ação um dos melhores tuiteiros da história: o crítico de arte Félix Fénéon (1861-1944), que de maio a novembro de 1906 foi encarregado pelo jornal parisiense Le Matin (a manhã) de reduzir para 135 caracteres as informações que chegavam à Redação na última hora.

Suas “notícias em três linhas” envolviam fatos cotidianos da França, desde pequenas tragédias de desconhecidos até notas sobre o mercado financeiro e o comércio marítimo. Saíam publicadas na seção “faits divers” (fatos diversos), um espaço pouco prestigiado do jornal pelo reduzido espaço que oferecia para elucubrações intelectuais e aprofundamento crítico.

Devido ao sucesso de seu “haikai jornalístico”, Fénéon viria a receber a alcunha de “precursor do Twitter”.

Faz sentido, embora não seja verdade: não há qualquer relação entre os 140 toques da rede social americana (recém-ampliados para 280) e a restrição tipográfica com a qual o parisiense convivia. Ele simplesmente tinha três linhas de 45 caracteres cada para escrever suas notas.

Embora não ocupasse um local nobre e não assinasse os textos, Fénéon dedicou-se com afinco à tarefa.

Nos seis meses em que fez turno vespertino no Le Matin, produziu mais de 20 notas por dia —“notícias (geralmente más) de outras pessoas, servidas em palitos de aperitivo”, como definiu Marilyn Johnson, autora de “The Dead Beat: Lost Souls, Lucky Stiffs, and the Perverse Pleasures of Obituaries” (a batida morta: almas perdidas, mortos de sorte e os prazeres perversos de obituários).

Os petiscos noticiosos de Fénéon teriam permanecido anônimos, não fosse por sua amante Camille Plateel, que colou cada recorte de jornal num álbum. O material foi encontrado depois da morte do autor pelo amigo Jean Paulhan (1884-1968, membro da Academia Francesa), que publicou a compilação em 1944 —e lançaria também o livro “F. F. ou le Critique” (F. F. ou o crítico) pela editora Gallimard em 1945.

Somente agora os 1.210 microtextos chegaram ao Brasil no livro “Notícias em Três Linhas” (Rocco, 2018, R$ 44,90, 192 págs.). O material ali reunido pode ser apontado como um dos melhores espécimes do que veio a se batizar de twitteratura no século 21.

A redescoberta póstuma de Fénéon não vem sem ironia. Virtualmente desconhecido hoje em dia, ele foi uma figura importante no círculo cultural de seu tempo, mas viveu à sombra de nomes ilustres, atuando em grande parte nos bastidores.

retrato do intelectual Félix Fénéon de perfil, em fundo colorido
Retrato de Félix Fénéon feito por Paul Signac em 1890 - Reprodução

No artigo “The Hidden Master of the Human Comedy” (o mestre oculto da comédia humana), publicado na New York Review of Books, o crítico belga Luc Sante escreveu: “As pessoas têm recortado notas [de jornal] por sua estranheza e humor geralmente indesejado desde que o ‘fait divers’ surgiu no início do século 19, mas elas raramente foram consideradas textos literários atribuíveis a um autor. Estas, contudo, são trabalho de um só homem, um grande estilista literário que escreveu pouco e publicou menos ainda, e que ocupa um lugar peculiar na história cultural francesa”. 

Nascido na Itália e criado no interior da França, Fénéon se mudou para Paris em 1880 para trabalhar no Ministério da Guerra, embora fosse anarquista e antimilitarista. A combinação sui generis durou 13 anos e terminou num episódio que ficou famoso: o julgamento dos 30, no qual ele e outros 29 opositores do governo foram acusados de participar de um ataque a bomba ao restaurante Foyot, em abril de 1894.

Fénéon foi preso depois de a polícia encontrar em seu escritório um frasco de mercúrio e uma caixa de fósforos com 11 detonadores. No julgamento, acompanhado de perto pela mídia local, ele deu rara demonstração pública de irreverência, fazendo piadas com procuradores e juízes, como relembra Eira Rojas em “A Twentieth Century Man —Félix Fénéon, Surrealist Mentor” (um homem do século 20 —Félix Fénéon, mentor surrealista):

“Juiz: Quando sua mãe foi interrogada, ela disse que seu pai havia encontrado esses detonadores na rua.
Fénéon: Isso é possível.
Juiz: Isso não é possível. Ninguém encontra detonadores na rua!
Fénéon: E, contudo, o sr. Meyer, juiz de instrução, me disse outro dia: ‘Você devia ter jogado esses detonadores pela janela’. Então veja que alguém poderia sim encontrar esses objetos na rua”.

Sem maiores provas de sua participação e com testemunhas que incluíram o poeta Stéphane Mallarmé (1842-1898), Fénéon foi absolvido, mas perdeu o cargo no governo. Assumiu, então, a função de editor da Revue Blanche (revista branca), uma das publicações artísticas e literárias mais prestigiadas da época.

A revista contava com escritores e artistas de peso: André Gide (1869-1951, Nobel de Literatura em 1947) era responsável literário, Claude Debussy (1862-1918, compositor que revolucionou a música clássica do século 20) assinava a crítica musical e Marcel Proust (1871-1922, “Em Busca do Tempo Perdido”) colaborava com frequência.

pintura de feneon em sua escrivaninha, de perfil
"Félix Fénéon à la Revue Blanche" (1896), de Félix Vallotton - Reprodução

A entrada na Revue Blanche consolidou a integração total de Fénéon ao ambiente de agitação estética e política da Paris do final do século 19, início do século 20.

Ele foi o primeiro editor da obra magistral “Iluminações”, apogeu de Jean Nicolas Arthur Rimbaud (1854-91), e tornou-se amigo do pintor Édouard Manet (1832-83), figura essencial da transição do realismo ao impressionismo, e do poeta maldito Paul Verlaine (1844-96), cuja musicalidade e fluidez influenciaram toda uma geração de escritores, artistas plásticos e compositores. 

A revista fechou em 1903 por razões financeiras, mas Fénéon continuou atuante. Passou a editar escritores como Proust, Paul Valéry (1871-1945, indicado 12 vezes ao Nobel de Literatura) e Guillaume Appollinaire (1880-1918, autor de importantes manifestos de vanguarda, a quem se credita os termos cubismo e surrealismo).

Em 1906, como diretor artístico da galeria Bernheim-Jeune, representou o paisagista Paul Signac (1863-1935) e Henri Matisse (1869-1954) —foi o único galerista em quem o artista confiou.

Sua participação na cena cultural ainda incluiu a primeira publicação de James Joyce na França (“Retrato do Artista Quando Jovem”, em 1924), além da curadoria da exposição inaugural dos futuristas em Paris e da primeira mostra individual de Georges Seurat (1859-91, ícone do pontilhismo, um dos movimentos neoimpressionistas).

Colecionador dedicado, também reuniu um dos maiores acervos pessoais do que se convencionou chamar arte primitiva, originária da África, da Oceania e das Américas.

Por sua proximidade com o meio artístico, Fénéon teve seu retrato feito por diversos pintores da época, entre os quais Signac e Toulouse-Lautrec (1864-1901). As imagens o mostram quase sempre de perfil, o que revela algo da personalidade esquiva do intelectual parisiense. 

caricatura de Félix Fénéon
Caricatura de Fénéon feita por Toulouse-Lautrec (c. 1896) - Reprodução

Em vida, não publicou nenhum livro. Assinou somente a monografia “Les Impressionistes en 1886” (os impressionistas em 1886), na qual cunhou o termo neoimpressionista. Escreveu outros textos sob pseudônimo, incluindo um manifesto antipatriótico alertando sobre testes militares antes da Primeira Guerra. 

Convidado a publicar seu material do Le Matin, respondeu: “Eu aspiro somente ao silêncio”. Ainda assim, algumas de suas notas foram incluídas no “Almanach Surréaliste du Démi-Siècle” (almanaque surrealista do meio século, 1950), de André Breton e Benjamin Péret, acompanhadas de ilustrações feitas com batata esculpida (técnica comum à época). 

Fénéon é apontado por diversos críticos como integrante da primeira onda do modernismo literário, uma qualificação que não surpreende. Ele demonstra em “Notícias” precisão linguística aliada a um senso de timing que deixa para o último momento o dado que coroará o texto. 

Com a leitura das notas, o leitor é levado à belle époque parisiense e conhece um pouco sobre aquele tempo, com atropelamentos por bondes e trens, mortes por envenenamento, acidentes com armas, feminicídios, um surto de febre aftosa.

Mas o fundo fático ganha camada adicional com a inteligência e o estilo do autor anarquista, cujos principais traços de personalidade transbordam do texto: a revolta contida, o humor ácido, sua gentileza e crueldade. 

As histórias comezinhas de desconhecidos são o pano de fundo para que Fénéon registre os absurdos da existência humana, revele inconsistências e faça questionamentos que tornam tudo familiar ao leitor do século 21.

De viés, ele ataca o establishment. Indica contradições entre discurso e prática, rebela-se contra a igreja e o Estado, aponta para a eterna dicotomia entre patrões e trabalhadores, população e poder político-financeiro, miséria e ostentação.

A produção impressiona também por sua constância. Todo dia, Fénéon lidava com a realidade em sua forma mais crua, no jornal, e fez literatura diária ao extrapolar o caráter informativo dos textos.

Em ensaio no livro “Ética e Pós-Verdade” (Dublinense, 2017), Cristovão Tezza escreve: “A realidade é um dado prévio que só se deixa ver por enigmas e só pode ser pressentido; escrever é revelar ou, mais precisamente, deixar o mundo revelar-se pelas mãos do escritor, ou do poeta”.

Fénéon retira da matéria-prima realidade o extrato de dramas humanos atemporais. Pensando bem, o título do seu livro poderia ser “Poemas em Três Linhas”.

Textos de Fénéon podem ser considerados belos exemplares da twitteratura

Por coincidência histórica, exatos cem anos depois de Fénéon escrever suas notícias em três linhas, surgiu nos EUA a plataforma online que se diferenciava de outras por restringir o espaço de manifestação dos usuários a 140 caracteres.

Lançado em 2006, o Twitter estabeleceu seu limite com base no tamanho do SMS —cuja sigla, cunhada pelo engenheiro alemão Friedhelm Hillebrand, significa “short messaging service” (serviço de mensagens curtas). Inventada em 1985 para aproveitar um canal de rádio secundário desocupado nos celulares, a mensagem de texto podia conter 160 caracteres.

Como a rede social surgiu antes da popularização dos tablets e smartphones, a maneira mais comum de enviar tuítes era pelo telefone, na forma de SMS. A plataforma, então, destinou 20 caracteres para a identificação do usuário (o símbolo @ seguido do nome) e os 140 restantes para o texto em si.

Na origem, o Twitter nasceu como um convite ao compartilhamento da própria vida do usuário em resposta à pergunta “o que você está fazendo agora?”. Com o passar do tempo, uma tendência ficou clara: a maioria das pessoas estava mais interessada em acompanhar a vida alheia, cadastrando-se como seguidor de celebridades e outras figuras públicas.

Em 2009, a questão inicial foi substituída por “o que está acontecendo?”, deixando mais claro o papel da rede como fonte de informação. Menos diário e mais jornal. 

O Twitter reforçou sua vocação informativo-jornalística, mas isso não impediu que pessoas se interessassem em explorar a plataforma como campo de aventura literária. (Fénéon já havia deixado claro, um século antes, que restrição de espaço não implica texto rasteiro.) 

Surge a chamada twitteratura —um formato que também tem raízes no SMS. 

Inaugurado em 2003, no Japão, o “keitai shousetsu” —cuja tradução literal é “romance de celular”— consiste em melodramas e enredos de amor redigidos e enviados por mensagens de texto. O gênero fez tanto sucesso que, quatro anos depois, os cinco livros mais lidos no país eram versões impressas de narrativas escritas no telefone. 

Em 2008, já com o Twitter em atividade, o premiado jornalista do New York Times Matt Richtel aventurou-se com “twiller”: uma história de suspense (thriller, em inglês) contada por meio de tuítes que, aos poucos, desvendavam o mistério para os seguidores. 

“Essa estratégia, contudo, significou que havia pouca continuidade explícita entre os tuítes, resultando numa experiência que oferecia pouca possibilidade de imersão ou absorção pela narrativa”, afirmou Bronwen Thomas, da Universidade de Bournemouth (Reino Unido), em “140 Characters in Search of a Story” (140 caracteres em busca de uma história).

Declaração semelhante fez o professor americano Robert K. Blechman numa entrevista em 2017. O autor de “Executive Severance” (demissão executiva), primeiro “twitstery” —composição de twitter com mistery (mistério)—, publicado em 2011, disse: “Eu criei um experimento literário: seria possível manter a estrutura narrativa e atrair um público com 140 caracteres de cada vez? Depois de 15 meses e mais de 800 tuítes que compõem esse livro do Twitter, posso dizer com confiança que a resposta é ‘não’”. (Fénéon certamente discordaria.)

Blechman acabou publicando o material no formato por ele considerado mais eficaz: um livro tradicional. E ainda fez do volume o primeiro da bem-sucedida Trilogia Twitstery, à qual se juntaram “The Golden Parachute” (o paraquedas dourado, 2016) e “I Tweet, Therefore I Am” (eu tuíto, logo existo, 2017).

Mas a twitteratura se relaciona com a literatura clássica numa via de duas mãos. Alexander Aciman e Emmett Rensin, da Universidade de Chicago, fizeram o caminho inverso e lançaram, em 2009, “Twitterature: The World’s Greatest Books in Twenty Tweets or Less” (twitteratura: os maiores livros do mundo em 20 tuítes ou menos). “Por que o Cláudio está de novo me dizendo o que fazer? Você não é meu verdadeiro pai! Na verdade, você matou meu pai. :(” é um dos tuítes de Hamlet, do clássico de Shakespeare.

No Brasil, houve lançamentos de coletâneas de melhores tuítes, que compilam postagens de diferentes usuários —em sua maioria, trabalhos esporádicos e frases de efeito, quase aforismos, publicados na rede social. Esse material, porém, não revela constância como a de Fénéon, e uma produção autoral verdadeiramente literária ainda é incipiente. 

O que as experiências de twitteratura têm em comum é o desejo de usar a plataforma para uma criação literária clássica: picota-se o conteúdo de uma narrativa em tuítes. Assim, o intelectual francês nascido no século 19 se torna um dos maiores expoentes de um movimento que lhe é póstumo, por ter criado, em cada notícia, uma obra em si, feita sob medida para o limite de caracteres.  

Em 2017, quando o tuíte foi ampliado para 280 caracteres, Aliza Rosen, gerente de produtos da rede social, escreveu: “Tentar amontoar seus pensamentos em um tuíte —todos já passamos por isso e é um saco. (...) Às vezes eu tenho que remover uma palavra que contém um significado ou emoção importante, ou então desisto de enviá-lo”.

Fénéon certamente protestaria.



Helen Beltrame-Linné, 37, graduada em direito pela USP e cinema pela Sorbonne Nouvelle (Paris), ex-diretora da Fundação Bergmancenter (Suécia), é editora-adjunta da Ilustríssima.

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