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Contra exaustão de famosos, biógrafo passa a retratar pessoas comuns

Alexander Masters, que escreveu sobre ermitão e morador de rua, aponta nova tendência

Christian Schwartz

Há exatamente dez anos, em tom um tanto alarmista, o suplemento literário do jornal britânico The Guardian estampou: "A morte da biografia". O texto, assinado pela escritora Kathryn Hughes, professora de um importante curso de escrita criativa e formação de biógrafos, o da Universidade de East Anglia, lamentava que, com uma longa tradição no gênero, os ingleses precisassem àquela altura salvá-lo da esclerose.

Esgotadas as grandes vidas —segundo Hughes, "o fato é que qualquer [personagem] realmente importante já foi escrito, e provavelmente várias vezes"—, passou-se a figuras secundárias como forma de iluminar os protagonistas de cada época. Mas, ela perguntava, quem precisa de mais um volume sobre esta ou aquela cortesã e amante do rei?

Hughes já apontava, porém, para um divisor de águas: "Stuart  A Life Backwards" (Stuart: uma vida de trás para frente), do então biógrafo estreante Alexander Masters.

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O escritor Alexander Masters - Getty Images

​Masters tropeçou, literalmente, em Stuart Shorter —seu biografado— numa tarde fria às vésperas do Natal de 1998, em Cambridge. Sem-teto, ex-presidiário, viciado em drogas, alcoólatra, vítima de uma distrofia muscular leve e abusado desde a infância, inclusive sexualmente, Stuart mendigava quando seu biógrafo o viu pela primeira vez.

Conforme definiu um dos mestres da biografia literária na Inglaterra, Richard Holmes, autor de consagradas versões das vidas dos poetas Percy Shelley e Samuel Coleridge, o encontro estabeleceu um "novo tipo de confrontação entre biógrafo e biografado". De fato, o primeiro foi levado às raias do desespero ("Numa biografia, o personagem real é quase sempre um estorvo"), enquanto o segundo não parava de reclamar, em especial quando leu uma versão inicial do livro ("Isto está uma porcaria de tão chato!").

Daí, aliás, a sugestão do próprio Stuart de que sua história fosse contada no sentido inverso, como informa o subtítulo do livro. Talvez fosse a esperança de ter um final feliz —ali pela primeira infância, antes dos primeiros abusos que terminaram por levá-lo à sarjeta.

A questão, quando "Stuart" surgiu como grande novidade no mundo editorial britânico, era se inspiraria outros biógrafos ou, antes, se o próprio Masters seria capaz de repetir a abordagem com sucesso.

Desde aquele surpreendente livro, ele faz experimentos com o que chama de "histórias de alguém-aqui-perto". A obra seguinte, "Simon: The Genius in My Basement" (Simon: o gênio no meu porão), retratou um matemático ermitão que ocupava o apartamento do subsolo no casarão vitoriano onde morava o autor.

É com o mais recente "A Life Discarded" (uma vida jogada no lixo), porém, que Masters se consolida como escritor capaz de apontar novos caminhos para o gênero, sobretudo porque prova mais uma vez que seu método é perfeitamente reiterável.

A história começa em 2001, quando dois amigos dele encontram numa caçamba de lixo os diários anônimos —148 cadernos no total, com anotações dos anos 1950 aos 1990— da personagem cuja identidade, qual um detetive literário, o autor tentará descobrir ao longo do livro. E descobrirá bem mais que seu nome (digamos que fosse X), numa sequência de revelações e coincidências que se leem como um romance policial.

Mas, apesar dos métodos heterodoxos de apuração dessas vidas e das ousadias formais ao apresentá-las ao leitor, Masters não pretende que seus livros sejam lidos como ficções. Só não esperava que o impacto causado pela confrontação com a personagem misteriosa, autora daquelas milhões de palavras jogadas no lixo, fosse tamanho a ponto de ele decidir realizar-lhe um desejo.

Doía em Masters saber que, aos 18 anos, num dos primeiros cadernos, a pessoa que ali se abria sem pudor tivesse sonhado "escrever alguma coisa admirada, [algo que] me trouxesse fama" para, anos depois, anotar uma sugestão de epitáfio para si própria: "Aqui jaz X, [alguém que] nunca fez nada, nunca foi a lugar algum nem teve o amor de outra pessoa".

Assim, Masters acabou aceitando um convite da Paris Review para garimpar passagens na imensidão dos cadernos, as quais, coligidas e editadas, saíram na seção de ficção da prestigiosa revista literária (edição de verão, 2017), como contos. Ali se transformavam, enfim, na coisa admirada que X gostaria de ter escrito.

Na apresentação da coautoria, o biógrafo refletiu: "Mesmo quando a leitura dos diários se torna desesperadamente entediante, a gente quer continuar a ler, porque são verdadeiros. X escreve sobre o que é ser humano [...]. Seu drama foi não ter sido uma personagem de ficção".

Radicalizando sua máxima para uso próprio, segundo a qual "alguém que renda um bom personagem ficcional pode também ser biografado", Alexander Masters segue indicando as possibilidades de um ofício que, longe de moribundo, parece estar vivo e bem. 


Christian Schwartz, doutor em história social (USP/Cambridge), é jornalista e tradutor.

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