Motivo de alerta hoje, resistência a vacina gerou mortes e revolta em 1904

Relato clássico do episódio, obra de Nicolau Sevcenko ganha nova edição

NAIEF HADDAD

[RESUMO] Trabalho fundamental sobre a convulsão carioca de 1904, ‘A Revolta da Vacina’, de Nicolau Sevcenko, ganha nova edição em meio a alertas sobre a queda na cobertura da vacinação no país e o retorno de doenças já erradicadas em décadas passadas.

Bonde tombado na praça da República, no Rio de Janeiro, durante a Revolta da Vacina, em novembro de 1904
Bonde tombado na praça da República, no Rio de Janeiro, durante a Revolta da Vacina, em novembro de 1904 - Casa de Rui Barbosa/Divulgação

 

Em 1973, sob o governo Médici, uma proposta elaborada pelo Ministério da Saúde levou à criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI). Ao ampliar o acesso dos brasileiros às vacinas, o país se tornou gradativamente uma referência na prevenção das doenças infecciosas. 

Uma das principais iniciativas do PNI foi a Campanha Nacional de Vacinação Contra a Poliomielite, cujos resultados positivos levaram o Brasil areceber, em 1994, o certificado de erradicação da doença.  

Dados recentes, contudo, põem em alerta sanitaristas e infectologistas do país. De acordo com o ministério, houve queda na porcentagem de crianças vacinadas nos últimos três anos no território nacional. Um exemplo é a tríplice viral, que previne sarampo, caxumba e rubéola. Em 2014, essa vacina havia alcançado uma cobertura de quase 100% do Brasil. Caiu nos anos seguintes e atingiu 85% em 2017.

É nesse contexto preocupante que, por coincidência, “A Revolta da Vacina”, do historiador Nicolau Sevcenko (1952-2014), ganha uma reedição. O livro foi lançado em 1983, escrito por um “jovem mal chegado aos 30 anos, cheio de indignação”, como o autor registra no posfácio da edição de 2010 da Cosac Naify (fora de catálogo). O texto é reproduzido na nova versão, da editora Unesp. 

A Revolta da Vacina

  • Preço R$ 28 (134 págs.)
  • Autor Nicolau Sevcenko
  • Editora Unesp

Nos anos seguintes, Sevcenko se dedicou a trabalhos que exigiram pesquisas mais abrangentes, como “Literatura como Missão” (1985) e “Orfeu Extático na Metrópole” (1992). No entanto, nenhum deles foi tão citado no âmbito universitário quanto “A Revolta da Vacina”. Em seu aniversário de 75 anos, em 2009, a USP realizou um levantamento das 75 obras mais mencionadas em trabalhos acadêmicos, considerando todas as áreas. O livro sobre a convulsão social de 1904 estava entre elas. 

Foi na USP, aliás, que Sevcenko atingiu a posição de professor titular. Lecionou também em Harvard (EUA), na Unicamp e na PUC-SP.

Para “A Revolta da Vacina”, o autor se baseou em estudos sobre a história do Rio e em biografias de Rodrigues Alves, presidente da República de 1902 a 1906, além de reportagens e crônicas publicadas pelos jornais cariocas do período.  

Sevcenko se mantém fiel às fontes, o que não o impede de se entregar em alguns trechos a um estilo emotivo, reconhecido por ele logo na introdução. Essa abordagem fica evidente nos títulos dos capítulos, como “O Motim Popular: Ímpeto” e “O Processo de Segregação: Agonia”.  

Esses substantivos surpreendem quando associados à gestão de um mandatário cujo apelido era Soneca. Na sua primeira mensagem ao Congresso, em maio de 1903, Rodrigues Alves declarou: “Os defeitos da capital afetam e perturbam todo o desenvolvimento do país”.

Ele se referia, entre outros problemas, à disseminação de epidemias por toda a cidade. Quando os navios atracavam no porto do Rio de Janeiro, tripulantes e passageiros evitavam desembarcar por medo do contágio de doenças —daí o epíteto “túmulo dos estrangeiros”.

Para comandar o combate a essas moléstias, o presidente escolheu Oswaldo Cruz, então com 30 anos, para o cargo de diretor de Saúde Pública, o equivalente ao ministro da Saúde. Dotado de “poderes inquisitoriais”, nas palavras de Sevcenko, o médico definiu como alvos principais a febre amarela, a peste e a varíola. 

O enfrentamento das duas primeiras não ocorreu sem sobressaltos, mas o poder público obteve razoável sucesso na redução dos índices de incidência. O ambiente só se inflamou com a imunização compulsória contra a varíola, doença que matou cerca de 3.500 pessoas na capital do país em 1904. 

Em 9 de novembro daquele ano, o governo federal publicou a regulamentação da campanha contra a doença. No mesmo dia, o jornal A Notícia divulgou pontos do documento que assustaram os cariocas. Oswaldo Cruz previa uma campanha fulminante e passava a exigir atestado de vacinação para matrícula na escola, admissão no emprego, viagem e até casamento. 

Para a formação de um cenário de pavor, os termos duros da regulamentação se somaram aos receios que cresciam entre a população. Como as ações de imunização aconteceriam nas residências ou nos postos de saúde, os chefes de família rejeitavam a hipótese de, na ausência deles, um agente entrar na sua casa para aplicar a vacina nos braços ou nas pernas de suas mulheres e de seus filhos. Era uma afronta à honra pessoal.

Além da questão moral, os habitantes do Rio temiam a truculência dos funcionários da saúde pública. 

Havia ainda a veemência da oposição a Rodrigues Alves, que incluía jovens militares e monarquistas. Alguns protestos serviam ao oportunismo político, mas a medida também despertava a indignação de políticos sérios, como Ruy Barbosa, que acusava o governo de tirânico. 

Em 10 de novembro, um dia depois da regulamentação, agitações tomaram espaços públicos como a praça Tiradentes. Oradores acabaram presos por policiais, que receberam pedradas dos manifestantes. 

No dia seguinte, um comício no largo de São Francisco de Paula reuniu uma multidão. Palavras de ordem contra a vacina se juntavam às vaias à brigada policial, que reagiu enfaticamente. Com homens armados de sabre, uma carga de cavalaria atacou a população. “Começam a cair os feridos, o sangue mancha o calçamento das ruas, o tumulto se generaliza”, descreve o historiador. 

Daí em diante, a região central foi tomada pelo horror. Recém-criada por líderes trabalhistas, a Liga Contra a Vacina Obrigatória influenciou inicialmente o tom dos protestos, mas logo perdeu o controle sobre a enorme rebelião. 

“O motim não tem fisionomia, não tem forma, é improvisado. Propaga-se, espalha-se, mas não se liga. O grupo que opera aqui não tem relação alguma com o que tiroteia acolá. São independentes; não há um chefe geral, nem um plano estabelecido”, escreveu Lima Barreto em texto posteriormente publicado no livro “Diário Íntimo” (fora de catálogo).


​Com a cidade em obras da reurbanização do prefeito Pereira Passos, os manifestantes arrancavam pedras dos novos calçamentos para atirar nas autoridades. Destruíam as lâmpadas da iluminação pública e incendiavam os bondes. Em ações contra o patrimônio e as forças da ordem e sem qualquer nível de hierarquia, muitos agiam de modo semelhante aos black blocs, embora sem máscaras. 

Diante do caos, o governo convocou tropas fluminenses, paulistas e mineiras do Exército e da Marinha. Também levou os bombeiros para os combates na ruas.

No livro, Sevcenko reproduz os relatos da rebelião feitos por Sertório de Castro, repórter do Jornal do Comércio. O jornalista conta que os mortos e feridos ficavam amontoados dentro de casas em ruínas. 
“Os carros das empresas funerárias viam-se impedidos de sair para recolher os cadáveres, temendo os assaltos que sofriam indistintamente todos os veículos. Para realizar o triste serviço, era cada um escoltado por numerosos contingentes de cavalaria”, escreve Sertório. 

A respeito das vítimas, o historiador José Murilo de Carvalho cita os dados oficiais: 30 mortos, 110 feridos e 945 presos. Carvalho é autor de “Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que Não Foi” (1987), que será reeditado em setembro.

Os Bestializados: O Rio de Janeiro e a República que Não Foi

  • Preço Relançamento previsto para setembro
  • Autor José Murilo de Carvalho
  • Editora Companhia das Letras

Sevcenko, por sua vez, evita quantificá-las. “Os massacres não manifestam rigor com a precisão.”
Em meio ao motim, não é surpresa que a casa e o carro de Oswaldo Cruz tenham sido apedrejados. O médico acreditava que a vacinação em massa era a melhor forma de erradicar doenças como a varíola, um conceito que nos parece óbvio atualmente, mas que despertava controvérsia um século atrás.

Depois de três anos de estudos em Paris, Oswaldo Cruz se tornara um renomado especialista em epidemias. Mas seus métodos excessivamente disciplinadores à frente da saúde pública lhe custaram caro. 

“Essa insensibilidade política e tecnocrática foi fatal para a lei da vacina obrigatória”, escreveu Sevcenko. Há outros trechos de “A Revolta da Vacina” em que ele mostra reprovação às decisões do sanitarista. 
O médico e escritor Moacyr Scliar (1937-2011) é autor de pelo menos quatro livros sobre Oswaldo Cruz.

Em todos, prevalece uma visão positiva acerca das realizações e das ideias do sanitarista. No entanto, em “Oswaldo Cruz” (fora de catálogo), Scliar avalia que ele falhou na comunicação ao povo sobre os benefícios da imunização. “Talvez julgasse que o fundamento científico de sua ação era suficiente. Um erro, como os acontecimentos demonstraram.”

No dia 16 de novembro, o governo revogou a obrigatoriedade da vacina de prevenção à varíola, e as manifestações diminuíram sensivelmente até o seu esgotamento. O Rio de Janeiro estava irreconhecível.
Na metade do livro, Sevcenko lança a pergunta: “Pode-se imaginar que somente o receio popular para com a vacina e a inabilidade do governo desencadearam isso tudo?”.

Os capítulos seguintes se dedicam às explicações do “não”. O autor lembra o arrocho da economia promovido por Campos Sales (e mantido pelo sucessor, Rodrigues Alves) para renegociar com credores ingleses a altíssima dívida externa. A redução das despesas públicas impulsionou o aumento do desemprego.

A austera política econômica conduzida pelos dois presidentes, ambos paulistas, afetou a população carioca, mas não teve, segundo Sevcenko, o efeito devastador da reforma urbana de Pereira Passos. 

Assim como ocorreu com Oswaldo Cruz, o engenheiro recebeu de Rodrigues Alves poderes plenos para modernizar a zona portuária e as ruas do Rio de Janeiro. “A cidade, com desenho e proporção coloniais, não era mais compatível com a função de grande metrópole que a atividade febril de porto lhe impingira”, registrou Sevcenko.

Inspirada pela ampla reformulação empreendida pelo barão Haussmann em Paris, Pereira Passos fez demolições para eliminar vielas e abrir largas avenidas. As obras desalojaram mais de 14 mil pessoas, que se mudaram para regiões de pouco valor, como morros e mangues.

Na conclusão do livro, o historiador diz que o processo de reurbanização “trouxe consigo fórmulas particularmente drásticas de discriminação, exclusão e controle social”. 

São um símbolo dessa época as zungas, locais precários onde se alugavam esteiras para dormir. Em visita a uma delas, tomada por dezenas de pobres trabalhadores, o cronista João do Rio anotou: “Era impossível o cheiro de todo aquele entulho humano”. 

Para Sevcenko, o “entulho humano” de zungas, cortiços e casebres ocupou as ruas em novembro de 1904. A revolta não era só pela vacina. 


Naief Haddad é jornalista.

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