Patti Smith escreve sobre obsessão por obra do autor francês Jean Genet

Para ícone do punk nova-iorquino, escritor 'extrai o nobre do ignóbil' em 'Diário de um Ladrão'

Patti Smith

[RESUMO] Patti Smith escreve um prefácio para a reedição americana de "Diário de um Ladrão", de Jean Genet, e conta como o clássico do autor francês fez parte de sua vida,  de seu trabalho e de sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe.

 

Nas primeiras e empolgantes linhas de "Diário de um Ladrão", Jean Genet revela suas aspirações juvenis, sua doutrina como poeta e seus princípios como homem. Ele nos oferece uma única sentença ("O uniforme dos presidiários é listrado rosa e branco"), depois se lança num parágrafo de proporções proustianas em que o leitor é jogado de imediato no espaço sagrado do presidiário, com conhecimento de seus gestos, seus sons e cheiros, seus códigos não verbalizados. Vemos a atitude de bazófia dos deuses musculosos vestidos nas cores listradas de uma roupa infantil de festa ou de um pirulito desgastado —cores escolhidas mais provavelmente para zombar de quem os vestia, os criminosos mais embrutecidos da França.

The Thief's Journal (Diário de um Ladrão)

  • Quando 2018 (Lançamento da nova edição nos EUA no dia 21/8)
  • Preço R$ 62, 272 págs.
  • Autor Jean Genet
  • Editora Grove Atlantic

Mas Genet imbuiu esse escárnio de grandeza: essas são as cores da universidade de sua escolha, cores que ele acredita que um dia usará nas próprias costas, quando terá se diplomado, passando de bebê abandonado para criminoso e depois para detento condenado.

Assim realizado, ele ganhará o privilégio de unir-se aos camaradas de sua escolha, transportados por navio do porto bretão de Brest às Ilhas da Salvação, ao largo da então mal colonizada Guiana Francesa. Ele se imagina entre eles, acorrentado pelos tornozelos, percorrendo o caminho barrento até o presídio de Saint-Laurent-du-Maroni, de onde os detentos mais temidos serão levados de barco, atravessando o rio Maroni, infestado de piranhas, para apodrecer no inferno da Ilha do Diabo.

Em sua mente jovem, Genet se vê como acólito brilhante, com uma coroa de espinhos na cabeça, usando as cores da inversão do sagrado. Aos sete meses de idade, ele foi deixado numa cesta no Bureau d'abandon, onde crianças eram abandonadas. Aos 15 anos, entrou para a colônia penal Mettray por pequenos crimes e delitos. Aos 19, foi dispensado da Legião Estrangeira com desonra por ter tido intimidade com outro soldado. Mal completara 20 quando se tornou andarilho, vivendo nas circunstâncias mais penosas possíveis. É esse o caminho que ele abraça em busca das listras rosas e brancas do presidiário.

O escritor e dramaturgo francês Jean Genet
O escritor e dramaturgo francês Jean Genet - Reprodução

Paupérrimo, percorre a Europa de 1932, povoada por todo um sistema de pedintes, empesteado de piolhos e pulgas, faminto e passando frio, à procura de uma fatia de pão, um repolho passado, o abrigo mais primitivo possível. Flandres. Polônia. Alemanha nazista. Tchecoslováquia. Andaluzia, a costa espanhola, vagando pelo Caminho de Santiago em paralelo aos peregrinos. O jovem Jean, o vagabundo consciente, o ladrão errante, prestando serviços a cafetões e traficantes de drogas. Roubar é comer, é quase um trabalho, mas cometer delitos dignos da prisão é outro tipo de necessidade.

Ele realiza todas as iniciações rituais pedidas e, em contrapartida, recompõe a atmosfera, eleva esses homens, coroando-os com louros que ele próprio traçou. Salvador, Lucien, Guy e Stilitano, loiro como um navio, Billy Budd loiro. É um mundo de homens, um mundo em que a feminilidade é contida dentro de um andar duro. Em seus momentos de maior miséria, ele os ama, seja por sua força, sua graça, sua feiura ou por um membro fabulosamente bem dotado.

E por que eles o amam? Talvez já entendam que um dia serão recordados através dele, cada um deles uma violeta, um bem-me-quer achatado e conservado dentro das páginas de seu livro da vida, ainda não escrito.

Quatorze anos mais tarde, Genet escreve "Diário de um Ladrão", sua mais bela obra de ficção autobiográfica. Ele é o observador transparente que reivindica o sofrimento e o júbilo de seus próprios delírios, provações e evolução. Não há máscaras; há véus. Ele não recua; extrai o nobre do ignóbil.

O bandido sujo avança na noite como coquete vestida de tule maltrapilho costurado com lantejoulas esparsas, pedacinhos de lata captados na luz de um lampião e transpostos como estrelas brilhantes. A conversão desses trapos, emblemática da iluminação interior que ele registra, gera não fatos inequívocos, mas uma verdade luxuriante. Dentro de sua forma poética de autobiografia, os fatos não são necessários, pois se alteram através de uma perspectiva que muda.

Ele se perde, reflete sobre seu próprio processo como escritor, e então parte de novo para um mundo subterrâneo de homens, com a violência de corpúsculos eletrônicos que orbitam um Sol de energia.

Ele entra de novo no labirinto desse tempo formativo, simultaneamente arrasado ao saber que os derradeiros presos estão sendo levados da Ilha do Diabo quando a França, citando as condições inumanas, fecha a colônia penal para sempre. "Fui despido de minha infâmia", ele lamenta. Ele será condenado a cumprir sua sentença fora de Paris, em trajes marrons costurados em casa.

Lançado na França em 1949, "Diário de um Ladrão" só chegou aos Estados Unidos quando a Grove Press o publicou, corajosamente, em 1964. Foi traduzido com maestria pelo grande Bernard Frechtman, que entendia perfeitamente o senso de linguagem de Genet, que transitava imperceptivelmente entre a gíria das ruas e o sublime.

Comprei meu exemplar na livraria Eighth Street, no West Village. Estava sobre a mesa de últimas unidades, ao lado de outras obras-primas publicadas pela Grove, dos "Evergreen Reviews" e de títulos da Olympia Press tirados de circulação —livros proibidos e pelos quais eu ansiava. Noventa e nove cents no inverno de 1968. Voltei rapidamente para o Brooklyn de metrô, para o apartamento que eu dividia com [o fotógrafo] Robert Mapplethorpe [1946-79]. Naquela noite, li o livro em voz alta para Robert, enquanto a neve caía.

Para mim, cada página era um milagre; para Robert, era um portal para um mundo pelo qual ele se sentia atraído clandestinamente e que mais tarde iria imortalizar através da imagem. Os artistas saqueiam. Um texto escrito, uma frase musical, uma estátua vista com prazer pela primeira vez, até o momento em que —quando, como relata [Marcel] Proust, ele é tomado por uma alegria poderosa— o artista deixa de lado qualquer pretexto de adoração e executa um trabalho próprio. A poesia de Genet me levou a escrever; suas imagens atraíram Robert para a câmera.

Em 1979, me mudei de Nova York para Detroit. Levei muito pouco comigo, exceto meus diários, talismãs amados, e meus livros. A releitura de "Diário de um Ladrão" gerou uma obsessão crescente pela ideia de viajar à Guiana Francesa, eu mesma, e levar de volta a Genet alguma coisa do que restara de sua colônia penal tão querida, nem que fosse apenas um punhado de terra e pedras.

Eu pensara em dar essas coisas a ele por meio de Gregory Corso ou William S. Burroughs, ambos os quais consideraram que seria uma missão válida, já que Genet sofria de um câncer da garganta e provavelmente não chegaria a fazer a viagem ele próprio.

Viajando em 1981 a Saint-Laurent-du-Maroni com meu hoje falecido marido, colhi pedras e terra da cela coletiva da penitenciária abandonada. Eu os coloquei numa caixa grande de fósforos Gitanes. Mas não as entreguei a Genet. Em vez disso, após a morte de meu marido, viajei ao Marrocos e os enterrei junto ao túmulo de Genet, no cemitério cristão Larache.

Enquanto eu me demorava ali, uma criança chegou e se sentou ao meu lado. Havia uma rosa desbotada entre as folhas, que o menino colheu e me deu. Olhei para o garotinho com olhos empáticos, imaginando que Genet teria ficado comovido com esse pequeno guardião em seu local de descanso.

"A infâmia veio até você", sussurrei, tendo cumprido minha missão. As palavras também são pedras. Cada palavra escrita em "Diário de um Ladrão" é consciente, à medida que, pedra por pedra, Genet nos envolve em sua tríade de transgressão, criminalidade e traição, transfigurada em amor por meio de sua pena.


Patti Smith é poeta, cantora, compositora e artista visual norte-americana, autora dos livros "Só Garotos", "M Train" e "Devotion", e um dos principais nomes do movimento punk nova-iorquino dos anos 1970 .

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