Descrição de chapéu Memorabilia

Marcelino Freire resgata livro de Clarice autografado a Campos de Carvalho

Edição de 'Água Viva' tem grifos feitos pelo autor de 'A Lua Vem da Ásia', obra que deixou Freire 'chapado'

MARCELINO FREIRE

Eu telefonei para Campos de Carvalho.

Depois de ter lido "A Lua Vem da Ásia". Era o ano de 1995. Fiquei chapado.

A mulher dele atendeu. Lígia disse que ele estava no banho. Que eu ligasse meia hora depois. Eu não liguei. Acho que tive medo. Ou fui tomar banho também.

Minha memória é de sabonete.

O escritor Marcelino Freire segura a primeira edição do livro "Água Viva", de Clarice Lispector
O escritor Marcelino Freire com o livro "Água Viva", de Clarice Lispector. Ele tem uma cópia de primeira edição, autografada por Clarice ao também grande escritor Campos de Carvalho - Karime Xavier/Folhapress

Liguei de volta à tardinha do outro dia. Lígia me falou que ele estava com uma visita. Então ele recebia visitas? Animei. Aí bateu de novo algum medo, não sei.

Voltei a ligar só em 1998. 

Atendeu uma outra mulher. Perguntei pelo escritor. Ela ficou muda, como se dentro de uma nuvem, uns segundinhos. Pediu para eu ligar meia hora depois. E, por favor, fale com Dona Lígia.

Campos de Carvalho já havia morrido. 

Eu soube exatamente no dia seguinte à ligação, por meio de uma crônica de Mário Prata. Por isso o silêncio da mulher. E o meu silêncio. Eu poderia ter ido ao enterro. Se tivesse conversado com ele no ano de 1995. Quem sabe? Depois daquele banho, consta de que ele ainda estava neste mundo. 

Também não o visitei.

Eram quatro pessoas só, no enterro dele. Entre elas, Mário (a mãe dele era prima de Campos) e o filho Antonio Prata. Antonio que, ao lado de Sergio Cohn, entrevistou o autor do clássico "Vaca de Nariz Sutil". E de mais dois clássicos: "A Chuva Imóvel", "O Púcaro Búlgaro".

Antonio Prata: "Você também prefere sorvetes de frutas?"

Campos de Carvalho: "Não, de chocolate e creme. Eu tenho pouco a ver com meus personagens." 

Sergio Cohn: "Você não parece em nada com os seus personagens?"

Campos de Carvalho: "Não pareço com nenhum, sou louco à minha maneira."

Eis a hora, aqui, de eu dar um salto. Feito os capítulos que ele criou no "A Lua". Pula do primeiro direto para o 18. E tem lá um Capítulo Sem Sexo. Sem contar que o personagem principal, de uma linha para a outra, muda de nome, não sabe como se chama ao certo, vai parar em Nova York, Cusco, Paris, Cidade do México. Ora ele é assassino, mendigo, espião, cafetão, amante, uma verdadeira metamorfose ambulante.
Estamos em 15 de outubro de 2018.

Eu paro assim, um instante diante da estante. A fim de atender ao pedido da Folha, busco a primeira edição do "Água Viva", lançado em 1973 pela Editora Arte Nova. Este exemplar que, agora em minhas mãos, esteve um dia nas mãos de Campos de Carvalho. 

 

Há uma dedicatória à primeira página, em letras onduladas: "A Campos de Carvalho -- que teve a delicadeza de apanhar no chão um parafuso, Clarice Lispector". No rodapé: "Rio, 25 abril 1974".
Como os dois se encontraram e onde? À porta de qual abismo? Foram moradores de um mesmo hospício?

Fiquei sabendo que eram apaixonados um pelo outro, na época em que Campos, nascido na cidade mineira de Uberaba, viveu no Rio de Janeiro. Trocavam figuras. E, ao que parece, muitos parafusos.

autógrafo em livro antigo
Autógrafo de Clarice Lispector a Campos de Carvalho em "Água Viva" - Karime Xavier/Folhapress

Só é doido quem não é.

O grifo acima é meu, de uma frase colhida na obra de Campos. Isso só para sinalizar o que há de mais surreal nesse exemplar do "Água Viva": os grifos feitos durante a leitura. Valem um estudo à parte.

Investigar, por exemplo, como se deu o olhar do leitor-escritor, parceiro de viagem da autora de "Perto do Coração Selvagem", ambos loucos pelo mesmo tipo de linguagem.

Os grifos de Campos estão em caneta vermelha e sempre a régua, milimetricamente ajuizados.

Eis alguns dos sublinhados: 

A palavra é minha quarta dimensão.
Só no tempo há espaço para mim.
Canção para ninar elefantes.
Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. 
O verdadeiro pensamento parece sem autor.
A loucura do invento livre.

Quem me presenteou com esta raridade, é bom que se destaque, foi o escritor Nelson de Oliveira. Ele esteve com Campos de Carvalho algumas vezes. Ganhou da Lígia este exemplar, em nome da amizade dos dois, Nelson e Campos. Anos mais tarde, em nome da nossa amizade, minha e do Nelson (só conheci Nelson no ano 2000), é que ganhei dele esse "Água Viva" em um de meus aniversários.

Nelson me contou que esteve com Campos pela primeira vez em 1995. Visitou-o em uma tardinha no seu apartamento no bairro paulistano de Higienópolis. Foi quando inacreditavelmente o telefone tocou, creio. E Lígia atendeu. 

Campos de Carvalho: "A ideia de Deus me soa completamente absurda. Mais fácil eu existir do que Deus".


Marcelino Freire é autor do livro de contos "Bagageiro", recém-lançado pela editora José Olympio.

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