Morto há 50 anos, Manuel Bandeira encontrou a felicidade no modernismo

Poeta batalhou contra tendência depressiva usando a ironia e rompendo convenções estéticas

Fernando Marques

No livro de memórias “Itinerário de Pasárgada”, publicado em 1954, o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) a certa altura lembra a fase em que esteve internado no sanatório de Clavadel, na Suíça, tratando-se de uma tuberculose então incurável. O ano era 1914, e ele recorda o momento em que perguntou ao médico que o assistia quanto tempo lhe restava.

O médico-chefe do sanatório respondeu que o jovem apresentava “lesões teoricamente incompatíveis com a vida”, mas que estava “sem bacilos”, dormindo e se alimentando bem. Acrescentou reticentemente: “Pode viver cinco, dez, 15 anos… Quem poderá dizer?”. O poeta, com 28 anos, atravessou a doença e viveu até os 82. 

O cinquentenário de morte do pernambucano Manuel Bandeira completou-se a 13 de outubro. Ele publicou dez coletâneas de poemas, da simbolista “A Cinza das Horas” à “Estrela da Tarde”, de 1917 a 1960 —considerado o volume de versos de circunstância “Mafuá do Malungo” (1949). A Global prepara nova edição da obra, em dois volumes, sob o título “Poesia Completa e Prosa Seleta”, que deve sair em 2019 com o selo da Nova Aguilar.

A presença da morte acha-se temperada, na produção poética de Bandeira, pela nostalgia da infância e, prospectivamente, pela experiência do amor e pela busca obsessiva da alegria. Esse sentimento, ou a sua falta, comparece a diversos de seus textos. Abordamos aqui aspectos da obra do poeta —que foi também tradutor, cronista, crítico de literatura, artes visuais e música.

Seus versos exibem virtuosismo desde o primeiro livro, mas raramente serão obscuros ou herméticos. Conforme diz no “Itinerário”: a obscuridade foi “coisa que jamais pratiquei” (há, na verdade, uma ou duas exceções).

Em “A Cinza das Horas”, o domínio dos vários metros —os de sete, oito, dez e 12 sílabas são os mais frequentes— e das rimas se une à simplicidade das frases e das imagens, como no poema que serve de epígrafe ao livro. Nesse texto, o autor se refere ao “mau gênio da vida” que “levou tudo de vencida”, deixando afinal “esta pouca cinza fria”. 

No poema “Desencanto”, valendo-se também das reticências que os simbolistas usavam com assiduidade, ele afirma, no balanço cantante do metro de nove sílabas: “Eu faço versos como quem chora/ De desalento… De desencanto…/ Fecha o meu livro, se por agora/ Não tens motivo nenhum de pranto”.

Os sentimentos expressos nesse volume são, em geral, de tonalidade melancólica; a atmosfera simbolista parece se casar bem ao “fundo desânimo” do jovem autor. A libertação virá mais tarde: “Eu tomo alegria!”, dirá em “Libertinagem”. Aqueles sentimentos, porém, jamais abandonarão o poeta por completo, carregando-se às vezes de morbidez e traços de desespero.

Uma observação feita por Sérgio Buarque de Holanda no artigo “Trajetória de uma Poesia” vem a propósito da procura da alegria (contudo efêmera, pontual). Tomada demasiado ao pé da letra, a percepção deixaria de fora as permanentes oscilações de humor e de técnica que se verificam na obra de Bandeira (Sérgio, de fato, não as desconhece). 

Vale recordá-la: Sérgio Buarque primeiro nota “o mundo solitário e melancólico a que se achou condenado” como natural em Bandeira e que se traduz na tendência visceralmente intimista. O poeta não finge a sua tristeza, embora devamos lê-la segundo as convenções literárias que adota para expressá-la. 

Em seguida, o comentarista constata que “a vida circundante”, exterior, tangível, acha-se no polo oposto ao daquele mundo sombrio. E o poeta quer abrir as janelas, quer alegria, quer libertar-se.

Dados os dois extremos, Sérgio Buarque de Holanda então associa a busca teimosa de felicidade “à deliberada dissolução dos compassos e medidas tradicionais, à ruptura de todas as convenções formais e estéticas”.

Temos o aproveitamento do prosaico, do banal, do não poético —e a decorrente construção de uma estética nova, que antecipa os valores modernistas. Ser feliz é ser moderno.

Essa nova forma de sentir e escrever já viria em “Carnaval”, o segundo livro, de 1919, apesar da reincidência nos sentimentos crepusculares. Lembrem-se os versos iniciais de “Bacanal”, poema que abre o volume: “Quero beber! cantar asneiras/ No estro brutal das bebedeiras/ Que tudo emborca e faz em caco…/ Evoé Baco!”.

Houve quem gostasse muito do livro e quem não gostasse: a Revista do Brasil falou em “tolice” a seu respeito.

A terceira coletânea, “O Ritmo Dissoluto”, de 1924, é um livro de transição, como o próprio poeta avalia, embora haja nesse volume poemas anteriores a “A Cinza das Horas”: “Nunca obedeci à ordem cronológica na publicação de meus versos”, pondera. De todo modo, pergunta: “Transição para quê?”. 

Ele mesmo responde: “Para a afinação poética dentro da qual cheguei, tanto no verso livre quanto nos versos metrificados e rimados, isso do ponto de vista da forma; e na expressão das minhas ideias e dos meus sentimentos, do ponto de vista do fundo, à completa liberdade de movimentos, liberdade de que cheguei a abusar no livro seguinte”.

O livro de que fala, seu quarto volume de poesia, chama-se justamente “Libertinagem”. Traz alguns dos poemas que se tornariam famosos e exemplares da estética moderna, à qual o autor agora, em 1930, adere decididamente —ele que a anunciara e ajudara a definir com o verso livre a atenção à fala e aos cenários populares.

Aqui podemos citar “Pneumotórax” (“—Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? —Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”); o manifesto informal chamado “Poética” (“Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”) e “Vou-me Embora pra Pasárgada”, que no embalo das sete sílabas aponta, com humor, a felicidade utópica.

Os trabalhos posteriores consolidam a virada modernista. “Estrela da Manhã”, “Lira dos Cinquent’Anos”, “Belo Belo”, “Opus 10” e “Estrela da Tarde”, de 1936 a 1960, reiteram a atitude do poeta. A adesão, no entanto, não foi incondicional —como de resto não o foi em outros modernos, a exemplo de Carlos Drummond de Andrade.

Bandeira “nunca renuncia completamente às formas clássicas e aos ritmos regulares”, escreve a professora Mara Jardim, estudiosa da obra. Quanto aos aspectos de conteúdo, Mara resume a batalha mantida por ele contra a tendência depressiva: “A ironia o salva”. 

Além da ironia, o humor. Presente, entre tantos exemplos possíveis, na “Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá”, poema que está em “Estrela da Manhã”. Os versos livres aludem, de acordo com Bandeira, a autores “queridos”: Castro Alves, Olavo Bilac. Já as moças risonhas foram vistas num cartaz e, pouco depois, imortalizadas em poesia.


Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB. Autor de “Últimos: Comédia Musical” e “A Província dos Diamantes: Ensaios sobre Teatro”.

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