Descrição de chapéu Clube da Leitura Folha

Cyro dos Anjos faz reflexão acirrada da relação entre vida e literatura

Livro "O Amanuense Belmiro" é tema do próximo Clube de Leitura Folha, na terça (27)

Wander Melo Miranda

[RESUMO] O próximo encontro do Clube de Leitura Folha será na terça (27), às 19h, e discutirá o livro "O Amanuense Belmiro", escrito pelo mineiro Cyro dos Anjos (1906-1994). O evento, mediado pela jornalista  Úrsula Passos, acontecerá na Livraria Francesa (r. Barão de Itapetininga, 275, República, tel. (11) 3231-4555), com entrada gratuita. No texto a seguir, Wander Melo Miranda, professor emérito de letras da UFMG, analisa a obra do autor.

 

Em carta a Cyro dos Anjos (1906-1994), de 4 de agosto de 1936, Carlos Drummond de Andrade insiste com o amigo para que leve adiante a escrita de "O Amanuense Belmiro" (1937), que viria, segundo o poeta, inaugurar uma via alternativa às duas linhas então dominantes da prosa literária no país: 

“Nem a transcrição imediata de aspectos de uma vida regional, como fazem os rapazes do Norte (entre parênteses: como escrevem mal!) nem essa literatura ‘restaurada em Cristo’ com que nos aporrinham os pequeninos gênios marca Lúcio Cardoso. (...) Tenho muita esperança no 'Amanuense' e o exorto, civicamente, a pô-lo na rua”.

A exortação de Drummond tem razão de ser, apesar da aversão preconceituosa que a embasa, se se considera o cumprimento do alto nível de exigência pelo romancista, resultado de “longos anos de meditação e estudo”, segundo Antonio Candido.

o escritor cyro dos anjos sentado em uma poltrona em seu apartamento, cercado por livros
O escritor mineiro Cyro dos Anjos, em seu apartamento, em Copacabana, no Rio de Janeiro - Luciana Whitaker - 16.nov.1992/Folhapress

Por isso, o livro se diferencia tão nitidamente das realizações de seus contemporâneos, ao se constituir como uma reflexão acirrada da relação entre vida e literatura, permeada por uma dicção melancólica e um humor sutil e corrosivo em relação ao papel do intelectual entre nós. Tudo isso em linguagem clássica, de linhagem machadiana.

A história é um quase nada: Belmiro, filho da aristocracia rural decadente dos Borbas da imaginária Vila Caraíbas, é amanuense na Seção do Fomento Animal, emprego público conseguido pelo pai para o filho, quando ainda restava algum poder ao velho fazendeiro.

Morador com as duas velhas irmãs da rua Erê, no bairro do Prado, em Belo Horizonte, o amanuense divide seu tempo entre a repartição e a roda de amigos, tornadas matéria do diário que passa a escrever, num processo em que sua vivência se “estiliza” (a palavra é de Belmiro) em busca da compreensão de si e dos outros.

A tarefa do diarista é realizada não sem uma forte compulsão nostálgica pelo passado, do qual o texto não consegue se desvencilhar, embora os fatos cotidianos assumam a cena principal da escrita.

A confluência dos dois registros temporais se condensa em torno do mito da donzela Arabela, transfigurada em Camila e Carmélia, as duas mulheres que ocupam, em tempos diversos e contemporaneamente, a atenção narrativa e o sentimento amoroso de Belmiro, consciente de que “as coisas não estão no espaço, leitor; as coisas estão é no tempo”. Daí as idas e vindas da rua Erê a Vila Caraíbas, que acabam compondo a “memória imaginária” de Belmiro.

Nesse ir e vir entre o passado e o presente, a imaginação e a memória, a contemplação e a análise, configura-se o problema fáustico motor do romance —“o amor (vida) estrangulado pelo conhecimento”.

A experiência do sujeito a ele afeito, ao se colocar como objeto de observação rigorosa, torna “reticente” (o termo é de Alcir Pécora) e fragmentado o eu do diarista, então lançado entre a imanência e a transcendência dos fatos do cotidiano e sua tradução literária.

Talvez por isso, também, o lirismo do texto seja resultante de uma luta surda e delicada entre o espírito de amanuense e o espírito de sanfonista, este último presente no músico que, “extraindo dos seus motivos individuais, melodias ajustadas às necessidades da alma dos circunstantes, que ali iam buscar expressão para sentimentos indefiníveis que os povoavam e só se traduziriam por frases musicais”.

A extração de motivos individuais pelo diarista, em articulação com uma visão poética da vida e das relações sociais e políticas (veja-se o tratamento ligeiro dado ao levante comunista de 1935 e a prisão de Redelvim), se de certa forma conduz ao imobilismo de Belmiro impede que se cumpra —ou então se realize metaforicamente— a função mais perversa do diário: “En realidad un Diario equivale a un lento suicidio”, nas palavras de Gregorio Marañon, citadas no diário. A escrita mortífera se transforma numa afirmação da vida.

O desconforto existencial de Belmiro, seu gauchismo, embora não encontre solução nas páginas do diário, se resolve nas “frases musicais” do romance que o acolhe, colocando um ponto final, abrupto como a "última página”, às suas indecisões. Por um instante, enfim, consegue afirmar-se como um dos velhos Borbas, que “não morriam aos poucos”, mas “quando um tombava, parecia queda de gameleira ferida pelo raio”.


Wander Melo Miranda é professor emérito da Faculdade de Letras da UFMG.

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