Descrição de chapéu Memorabilia

Conhecer a obra de Gonçalo M. Tavares foi uma porrada, diz Caio Blat

'É como se ele pegasse tudo o que eu sempre li e reescrevesse de forma visceral', afirma ator

Caio Blat

Toda a minha carreira é orientada pela literatura, desde muito cedo. Fui estudar na Faculdade de Direito da USP inspirado pelos poetas que frequentaram aquele lugar: Castro Alves, Álvares de Azevedo. Tínhamos na faculdade uma academia de letras, fazíamos leituras, escrevíamos poemas e lembrávamos as cadeiras das figuras que haviam estudado lá.

Quando fui fazer teatro e TV, carreguei isso comigo. A primeira peça que produzi foi justamente um texto de Álvares de Azevedo. Fiquei dez anos fazendo “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski. Adaptei agora um romance de Cristovão Tezza, “Juliano Pavollini”, para um longa que ainda está em fase de captação.

Quando conheço um autor que me espanta, fico curioso para saber tudo sobre ele. Para destrinchar sua obra, entender que universo é aquele. Aconteceu com vários escritores ao longo da minha vida, e os mais recentes têm sido portugueses, como Valter Hugo Mãe. Isso se relaciona ao meu verdadeiro fascínio pela nossa língua, sofisticadíssima e cheia de nuances.

Até que me deparei com Gonçalo M. Tavares. E foi uma porrada. Sempre gostei de ler os clássicos, era uma obsessão quando eu era mais jovem. Então encontrar um autor quase da minha idade, em pleno século 21, que ressignifica todos os cânones com uma visão muito peculiar sobre a literatura e sobre o ato de escrever foi um espanto total.

caio segura livros
O ator Caio Blat com pilha de livros de Gonçalo Tavares no Sesc Pompeia - Divulgação

É como se Gonçalo pegasse tudo o que eu sempre li, todas as minhas referências, e reescrevesse de uma forma visceral, rompendo com os sentidos e com a linguagem.

O primeiro texto do autor que tive na mão foi uma peça chamada “Os Velhos Também Querem Viver”. É impressionante: ele pega personagens da mitologia grega e os coloca em um cenário contemporâneo, em Sarajevo.

E faz um texto épico moderno, embaralhando todas as referências clássicas —que ele atualiza com o olhar do homem do nosso tempo, que já as atravessou e se desencantou com todas elas.

O escritor é muito tomado pela desilusão. Tem um lado niilista, pós-tudo. É alguém que já parece ter passado por todas as experiências, remetendo a um modernismo da veia portuguesa vinda de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, e mesmo de brasileiros como Mário de Andrade.

Gonçalo tem uma série de livros ambientada em um bairro imaginário onde vivem os grandes escritores e artistas: o sr. Brecht, o sr. Rimbaud, o sr. Proust. Nessa cidade fictícia, todos eles se cruzam, conversam, trocam impressões. 

A obra que mais me chocou nessa série foi “O Senhor Swedenborg e as Investigações Geométricas”. É um livro em que ele experimenta com desenhos —escreve um verso e, ao lado, faz uma forma geométrica que representa a ideia contida nele. Conforme o autor desenvolve o verso, desenvolve a figura; vai fazendo poesia com triângulos, quadrados, círculos. É algo muito delicado.

A forma como ele produz também me impressiona muito: um dia, ele entra em seu escritório e escreve uma peça; no outro, chega e escreve um poema épico de várias páginas; no próximo, começa a desenhar.

Gonçalo vai todo dia para o ateliê, desliga a internet e começa a trabalhar sem saber se o que vai fazer são haicais ou romances. Essa diversidade me deixa alucinado.

O livro “Uma Viagem à Índia” é uma das coisas mais lindas que li na última década. Sou fascinado por poesia épica, e nesse livro ele recriou “Os Lusíadas”. Reescreveu a viagem de um português à Índia, ao modo de Vasco da Gama, mas dessa vez quem viaja é Bloom, personagem de James Joyce em “Ulisses”.
 
Na verdade, é uma viagem para dentro de si mesmo: ele sai de Lisboa em direção à metafísica, ao conhecimento do eu. É um homem melancólico, desiludido. E desde o começo o narrador atesta que não vai abordar nada sagrado, nada mítico. Só vai falar de um homem viajando.

É difícil escrever numa época de tanta saturação, em que as pessoas não suportam se concentrar em nada. O verso de Gonçalo é instantâneo, a primeira palavra que ele põe na página já prende, choca, rompe. 

“Uma Viagem à Índia”, para mim, é um novo “Livro do Desassossego”; Gonçalo é um modernista do tamanho de Pessoa, mas em atividade agora. Coloco-o nesse patamar.


Caio Blat é ator, ganhou o Prêmio Shell por sua atuação na peça "Grande Sertão: Veredas", que retoma a temporada em SP em 5/1 e segue até 24/2.

Depoimento a Walter Porto.

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