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Nova geração talvez não saiba, mas Gonzaga era um deus, diz Paulinho da Viola

Sambista fala sobre as músicas que o levam de volta à infância e fizeram parte de sua formação

Paulinho da Viola

A música brasileira, com suas várias correntes, desenvolveu-se e chegou a um grande público no curto espaço de tempo de um século. Um século não é nada. Começou com uma difusão maior no rádio, nos anos 1920 e 1930, e se mantém viva. O povo não deixou morrer. Ninguém controla.

No século 20, há duas músicas brasileiras que merecem ficar expostas numa grande praça pública: “Carinhoso” [Pixinguinha/João de Barro] e “Asa Branca” [Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira]. Cada um tem a sua experiência, mas, para mim, são as mais emblemáticas do século passado. Alguém está tocando uma música como “Carinhoso” neste momento, em algum lugar.

paulinho da viola
O cantor e compositor Paulinho da Viola - Marco Froner/Divulgação

​A minha origem é mais o choro do que o samba. Eu gosto muito de Pixinguinha. “Carinhoso” marcou a minha infância, era muito executada por Jacob do Bandolim e por meu pai [César Faria, violonista]. Ainda garoto, ficava querendo conhecer mais Pixinguinha. Todos tinham uma grande admiração por ele.

Há músicas que trazem de volta a minha infância. Eu saía da minha casa na rua Pinheiro Guimarães, em Botafogo, andava pela rua Real Grandeza, entrava na General Polidoro, depois pegava outra rua e chegava à minha escola primária, a Joaquim Nabuco. Toda vez que ouvia “Qui Nem Jiló”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, me vinha a imagem desse caminho. Mais até do que “Asa Branca”.

Gonzaga marcou a vida de todo mundo. Estou falando da minha infância, nos anos 1940 e 1950. Talvez as novas gerações não tenham uma ideia do que ele foi para a música do Brasil: ele era um deus. Muita gente acha que era uma coisa só do povo nordestino. Mas, não: o país inteiro.

“A Primeira Vez” me impressionou muito na infância. Tempos depois, já adolescente e adulto, soube que era do Bide e do Marçal. Se alguém me perguntasse sobre algum samba, esse é o que vinha primeiro em minha cabeça. 

Era muito tocado em casa quando os amigos de meu pai se reuniam. Todo o mundo ria, se levantava, apesar de o samba falar de uma desilusão: “A primeira vez que eu te encontrei,/ Alimentei a ilusão de ser feliz/ Eu era triste, sorri/ Peguei no pinho e cantei/ Tantos versos eu fiz/ Em meu peito guardei/ Um dia você partiu,/ Meu pinho emudeceu/ E a minha voz/ Na garganta morreu”. 

Assim como vários sambas brasileiros, trata de um assunto que deveria ser em tom menor e lamurioso, mas é o contrário. São os paradoxos da nossa música.

Quando gravei dois discos, “Memórias Chorando” e “Memórias Cantando” [EMI/Odeon], em 1976, fiz questão de cantar com meu pai “Pra que Mentir?”, de Noel Rosa e Vadico. É também da minha infância. 

Há um detalhe que muita gente não sabe. Esse samba foi gravado por Sílvio Caldas e, se você ouvir direitinho, tinha uma batucada. Há uma orquestra e uma batucadinha lá atrás. Era um samba batucado, não era um samba-canção, como ficou depois mais conhecido. Meu pai e os amigos cantavam como se fosse um samba-canção —e eu o gravei assim.

Fiquei lembrando de outro samba marcante, “Esta Melodia” [Bubu da Portela/Jamelão]. Anos depois de ser lançado, eu o ouvi numa festa na Portela e foi uma coisa. As pessoas estavam sentadas, tomando uma cerveja, aí alguém ia ao microfone e cantava uma música. De repente, cantavam esse samba. As pessoas se levantavam. Era impressionante a força dele. 

Até hoje as pessoas da Velha Guarda e os mais novos sabem: “Ah, Paulinho vai pedir aquele samba”. Ele foi gravado com sucesso por Jamelão e depois por Marisa Monte. “Quando vem rompendo o dia/ Eu me levanto, começo logo a cantar/ Esta doce melodia que me faz lembrar”. 

É um samba do Bubu, conheci depois o autor. Às vezes, eu ia assistir aos ensaios da Portela com a turma da Vila Valqueire. Tocava violão, mas ainda era muito amador. Nem imaginava que sairia um dia na Portela. 

Muitas músicas na multidão parecem uma catarse, todo mundo bota uma tristeza para fora. Eu falo o que sentia, ouvia e via nas reuniões familiares. Quando ouvi “A Primeira Vez” com todas as pessoas cantando, o comportamento delas era como se fosse um desabafo. 

Minha avó estava lá na cozinha. Aí, alguém começava: “A primeira vez que te encontrei...”. Dali a pouco minha avó estava no meio. Isso me vem muito à memória. 

Os encontros de meu pai com os amigos aconteciam na sala de uma casa pequena, em Botafogo. A rua e o portão da entrada ainda estão lá. Mas, para minha tristeza, a casa foi derrubada.


Paulinho da Viola é cantor, compositor e violonista.

Depoimento a Claudio Leal.

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