Descrição de chapéu Clube da Leitura Folha

Carol Bensimon narra amor entre duas jovens de modo imperdível, diz crítica

Romance é tema de encontro do Clube de Leitura Folha nesta terça-feira (29)

BEATRIZ RESENDE
São Paulo

[RESUMO]  O livro “Todos Nós Adorávamos Caubóis”, escrito por Carol Bensimon e publicado pela Companhia das Letras, é o tema do Clube de Leitura Folha deste mês. Na trama, duas amigas da época de faculdade se reencontram para fazer uma viagem há muito tempo planejada. O debate gratuito acontece na terça (29), às 19h, na Livraria Blooks do Shopping Frei Caneca, mediado pela jornalista Úrsula Passos e com participação da escritora Noemi Jaffe. Abaixo, a crítica literária Beatriz Resende escreve sobre a obra.

 

Carol Bensimon tem 37 anos e uma carreira de escritora já consolidada, carregando um prêmio Jabuti de melhor romance na mochila. Faz parte da geração de jovens, e já não tão jovens, escritores gaúchos que vem dominando a cena literária no Brasil, ecoando em traduções no exterior.

Não importa se ficaram, se foram para outras partes do país, se foram e voltaram. O importante é que a formação se deu especialmente em Porto Alegre. Isso merece destaque porque não é fruto do acaso, mas de longo e constante trabalho e interesse pela literatura: oficinas, livrarias, feiras literárias, as 16 jornadas e o prêmio de Passo Fundo (enquanto duraram) e cursos de escrita criativa como graduação e pós-graduação nas principais universidades. 

A escritora Carol Bensimon, autora de "Todos Nós Adorávamos Caubóis"
A escritora Carol Bensimon, autora de "Todos Nós Adorávamos Caubóis" - Folhapress

Citando apenas alguns: Luisa Gleisler, Antônio Xerxenesky, Verônica Stigger, Michel Laub e Paulo Scott, dentre outros romancistas. Na poesia, basta indicar a fundamental Angélica Freitas.

Carol Bensimon estreou em 2008 com o livro de contos "Pó de Parede". Logo depois publicou o romance "Sinuca Debaixo d’Água", pela Companhia das Letras, em 2009. A essas alturas já era mestre em letras e foi para Paris fazer um doutorado que se mostrou desnecessário. 

O livro é a narrativa de uma perda especialmente inesperada —por se tratar da morte de jovem, bonita e divertida— em um tolo acidente de carro. A destruição daquele corpo jovem carrega junto o irmão, o namorado, os amigos, a mãe, a casa, o bar, a cidade.

Cada dor, porém, é diferente, não apenas pelas lembranças mas também pela impossibilidade de cada um seguir adiante uma vida tola em cidade pequena.

É aí que entra o talento da autora em construir personagens e narradores. A primeira frase do romance, com a juventude da imagem, já dá o tom: “É como tirar os rollers depois de andar um bocado e sentir que os pés e o chão não se entendem mais”.

Como cada sofrimento é único, as vozes precisam ser peculiares, e a narrativa, modulada por cada uma delas. Não é tarefa fácil, mas Carol Bensimon se sai bem na dura tarefa que se impôs. De todos os personagens-narradores, sem dúvida o mais bem construído é o solitário dono do bar com a sinuca.

Polaco traz uma das obsessões de Carol, as cidades. Poderia ter um passado a ser lembrado, poderia ter um futuro se conseguisse decidir para onde ir: “Há uma cidade dentro de você, uma ideia de cidade. Ela é mais forte do que a cidade que não é uma ideia, do que a cidade que está fora, e ela mora em você porque você quer morar nela, mas não mora”. À volta destes monólogos há jazz, rock e um certo humor travado e rascante.

Em 2013 a autora lançou "Todos Nós Adorávamos Caubóis", romance que retoma o tema das cidades pequenas, agora em contraste com o cosmopolitismo de Paris. O mais importante, porém, é que essa espécie de road movie por terras gaúchas fala do difícil amor entre duas mulheres. Cora, lésbica mais resolvida, com suas poderosas e pesadas botas Doc Martens e visual punk, e Júlia, com seus rocks famosos e problemas de família.

Amigas antigas, separam-se brigadas quando Júlia vai para Montreal e Cora, para Paris. De passagem pelo Brasil, se reencontram e saem pelas estradas do interior do Rio Grande do Sul no velho carro de Cora.

Dois temas se tornam principais no romance. O primeiro é a delicadeza e o erotismo das duas que se amam com juventude e muito carinho, em cenas que ainda não são comuns mesmo nos romances contemporâneos.

O provisório desse amor, cada dia em um lugar, dá um tom especial, uma fugacidade que estimula. A família existe, para Júlia, como insuportável; para Cora, como uma espécie de mal necessário. E ainda a vida fora do país para onde irão voltar, com o parisiense Jean- Marc e o americano do Canadá.

Curiosamente, o outro tema são costumes, músicas e paisagens gaúchas. Dos belos cânions às cafonas músicas gaudérias, passando por churrascos e chimarrão, há quase um excesso de gauchismo que nos intriga, pois o regionalismo deixou há muito de fazer parte dessa literatura do Sul. Surgirem como pano de fundo do amor das duas lésbicas antenadas num Chevette ao som de Led Zeppelin ou Pink Floyd faz pensar.

A verdade é que bombachas lembram machismo, tradições conversam com conservadorismo e, em tempos pós-nacionais, regionalismo rima com nacionalismo, fundamentalismo e —até, para sermos contemporâneos— com fascismo.

Num momento em que os estudos feministas mostram como sexo há muito não pode ser pensado como binário e questões de gênero tratam de corpos e múltiplas formas de amor usando novas epistemologias, juntar o eixo do romance com seu entorno propõe uma leitura imperdível nos dias de hoje.

Em 2015, Carol lançou um livro de crônicas com título que bem define a autora: "Uma Estranha na Cidade". Em um dos textos, aponta o que pode ser uma síntese de seu estilo e habilidade em mexer-se entre o contexto real e a narrativa ficcional: “As câmeras fotográficas estão aí, mais fáceis e fiéis que nunca, mas estamos fartos de realismo, queremos manchas nas imagens, cores distorcidas, memórias de cinco minutos atrás que já nasçam velhas de décadas”.

Seu último e mais longo romance, "O Clube dos Jardineiros de Fumaça", de 2017, foi finalista do prêmio São Paulo e recebeu o Jabuti de melhor romance. Mas aí já é outra longa conversa.

BEATRIZ RESENDE,  doutora em literatura comparada, é professora titular de poética da Faculdade de Letras da UFRJ

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