Em novo romance, Roberto Saviano conta história de gangue de meninos; leia

'Os Meninos de Nápoles' será lançado pela Companhia das Letras em fevereiro

Roberto Saviano

[SOBRE O TEXTO] O trecho nesta página faz parte de “Os Meninos de Nápoles”, novo romance do autor italiano, que conta a ascensão de uma gangue de adolescentes ligados à máfia. A Companhia das Letras lança a obra em fevereiro.

teve reflete meninos
Ilustração - Beatriz Barbosa

 Tudo era mais baixo naquela casa. As mesinhas, os sofás, a televisão. Parecia a casa de um povo que, só umas décadas antes, não passava de um metro e sessenta e cinco de altura. Para os meninos, tudo era minúsculo, e aquela espécie de armário de cristal para guardar comida, colocado bem na frente do sofá de couro marrom, na mesma hora foi transformado por eles em apoio para os pés. Um abajur imenso com uma estampa de flores servia de elo entre duas poltronas, também elas marrons. E prateleiras, prateleiras em grandes quantidades, cheias de coisas que eles nunca tinham visto. Tinha até mesmo umas fitas VHS com a etiqueta branca na qual alguém tinha anotado às pressas uma partida da seleção de futebol e o ano. Mas o objeto mais engraçado era a televisão. Ela estava sobre outra mesinha encostada a uma parede coberta por listras brancas e azuis. Parecia um cubo, e devia pesar pelo menos uns cinquenta quilos. A tela era convexa e refletia as imagens desbotadas da sala. Dentinho se aproximou como se se aproximasse de um animal perigoso e, mantendo a devida distância, apertou aquilo que deveria ser o botão para ligar, que fez o barulho de uma mola que finalmente se vê livre depois de um século de inatividade.

— Num acontece nada — disse Nicolas. Mas em seguida uma fraca luzinha vermelha apareceu para desmenti-lo.

— Na época, alguém da família se escondia aqui — continuou o Drago’ —, e de vez em quando o Feliciano ’o Nobre vinha aqui transar com uma mulher. Essa casa não é de ninguém.

— Bom — disse o Nicolas —, eu gosto dessa “casa de ninguém”. É ela que vai virar o nosso covil.
Essa palavra suscitou sorrisos.

— Covil? — disse o Agostino. — Que que é um covil?

— O covil, onde a gente se esconde, onde a gente se encontra, onde a gente se diverte, onde a gente divide tudo. 

— Bom, agora a primeira coisa que tá faltando é um Xbox — disse o Agostino.
Nicolas continuou:

— Aqui tem que ser casa de todo mundo, então tem que ter regra: a primeira é que aqui ninguém traz mulher.

— Caraca — a desilusão do Eutavadizendo se manifestou na hora —, isso eu num esperava, Marajá.

— Se a gente traz mulher, vira confusão, uma nojera. Só a gente, e ninguém mais. Nem os parça. Só a gente, e chega. E além do mais — acrescentou —, bico fechado. Esse lugar aqui existe só pra gente, e pronto.

— A principal regra do Clube da Luta é que o Clube da Luta num existe — disse o Briato’.

— Aí! — disse o Lollipop.

— É, mas todo mundo vai ver a gente entrando do mesmo jeito, Marajá — disse o Drago’.

— Uma coisa é o povo ficar olhando pra gente; e outra é o que a gente diz pra eles.

Ela se chamava via dei Carbonari. Ainda se chama via dei Carbonari: sempre esteve ali, em Forcella. O nome era adequado a esse grupo de garotos que não sabiam nada dos Carbonários, que até se pareciam com eles, não pelas intenções nobres, mas só por ter o mesmo desejo de sacrifício, de abnegação cega que os levava a ignorar o mundo e os seus sinais, a escutar apenas e tão somente a própria vontade como demonstração objetiva da justiça dos próprios atos.

— Esse é o covil, mano. A gente tem que vim aqui, aqui a gente fuma, aqui a gente se diverte, aqui a gente tem que ficar. O Drago’ tá de acordo. O Copacabana num sabe de nada. É coisa da gente. 

Nicolas sabia que tudo tinha de começar em um apartamento, um lugar onde fosse possível se encontrarem para conversar com tranquilidade. Era um jeito de ficarem unidos. Disse assim mesmo:

— Tem que começar aqui.

Biscoitinho era o único que não tinha falado ainda, estava olhando a ponta dos seus Adidas brancos novinhos em folha. Parecia que ele queria a todo custo encontrar uma mancha neles.

— Biscoiti’, cê num tá contente? — perguntou Marajá.

Biscoitinho finalmente levantou a cabeça.

— Dá pra eu conversar um minuto com você, Nico’?

“Nico”, não “Marajá”, e a cabeça se voltou de novo pros Adidas.

Os outros nem perceberam, porque tinham ido até o quarto de dormir, estavam ocupados demais explorando aquela máquina do tempo.

Biscoitinho falou de repente:

— Nico’, cê tem certeza que é legal começar no apartamento de um arrependido? — ’O Marajá chegou pertinho dele e colocou seus sapatos em cima dos de Biscoitinho.

— É sem honra quem é sem honra, e não quem tem sangue de gente sem honra. Cê entendeu? E, além do mais, o pai do Drago’ não falou nada. E num se fala mais nisso. Num aconteceu nada. — Liberou os Adidas do Biscoitinho e depois repetiu. — Nós começa aqui.

As chaves somente ele e Drago’ tinham. E quando os outros os procuravam, mandavam uma mensagem: “Cês tão na casa?”. O covil era o início de tudo, de acordo com Nicolas, uma casa só pra eles, o sonho de qualquer menino. Um lugar para onde levar o dinheiro da mesada de cada um, escondê-lo nos cantos, nos envelopes, no meio dos jornais velhos. Poder ter o dinheiro ali, contá-lo ali e, acima de tudo, acumulá-lo. ’O Marajá sabia exatamente isso: que tudo começaria de verdade quando todo o dinheiro fosse colocado junto, quando eles estivessem mesmo reunidos, quando o lugar de onde eles saíssem para fazer as suas coisas tivesse realmente virado um lugar de todos. Assim se cria a família. Assim se tornava real o seu sonho: a paranza. 


Roberto Saviano, escritor italiano, é autor de ‘Gomorra’ (Bertrand Brasil) e ‘Zero Zero Zero’ (Companhia das Letras).

Tradução de Solange Pinheiro, doutora em filologia e língua portuguesa pela USP, tradutora e pesquisadora.

Ilustração de Beatriz Barbosa.

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