Escritor se dirige a mulher desaparecida em poema inédito; leia

Roberto Taddei lança o livro 'Essa Música Não É Minha' no primeiro semestre deste ano

ROBERTO TADDEI

[SOBRE O TEXTO] O poema nesta página integra o livro “Essa Música Não É Minha”, que a editora Quelônio lança no primeiro semestre deste ano.

 

Carta a Ute, desaparecida na noite de ontem

Querida Ute,
 
Desisti de buscar no passado qualquer justificativa para explicar
como vamos vivendo sem poesia nesse país esses dias
 
Poderia me esforçar para dizer como foram feitas as escolhas
da minha geração e as minhas e separar as reativas das reacionárias
 
Mas você sabe muito bem que as histórias são mentirosas
e eu faria papel de palhaço aqui
 
A verdade é que não somos nós quem decidimos as coisas, Ute.
Fazemos apenas na medida em que nos restam os espaços para tanto
 
E é sobre isso que escrevo,
É o que tentei dizer ontem mas você
tendo estado o tempo todo sob efeito de entorpecentes
não teve disposição para ouvir.
 
Ainda assim é preciso falar sobre essa condição inevitável do poeta contemporâneo
É nos espaços que está a poesia, ou que se forma a poesia, talvez.
 
Como se forma a poesia é questão da qual trataremos outro dia
Falo dos espaços, Ute. Não de apartamentos ou quartos, com janelas e vistas amplas
para rios e praias, montanhas ou esquinas com quatro ou cinco cantos
Mas os espaços entre as coisas, especificamente entre os seres,
que é o espaço que se transfigura em tempo, Ute.
 
E tempo é poesia,
E é também silêncio. 

Não tivemos chance, ontem à noite, de conversar sobre o silêncio
Além de nós estavam outros três e imagino que você consiga lembrar
como o fato de estarem mais três fez com que tudo virasse barulho e sussurro

Parece idiota, Ute, mas nem sei como aqueles três apareceram em nosso
quarto àquela hora da noite ou que fim levaram depois que, quando acordei, pela manhã,
apertado que estava para mijar, nem você estava mais por perto

É por isso que eu estou escrevendo

A última coisa que me lembro é de nossos dedos entrelaçados se
desprendendo lentamente e você ria de alguma piada, leve,
enquanto eu ia até a cozinha buscar um copo de água
e aproveitei para ir ao banheiro e da janela que dá para um terreno descampado
nos fundos, onde a vizinha cria galinhas e planta salsinha e erva-cidreira,
eu vi um homem gordo andando sem camisa em direção à porta dos fundos,
da vizinha

Depois disso já não lembro de nada. Ah, Ute, percebe o que quero dizer
sobre os espaços e de como tempo e silêncio são e por eles se faz a poesia?

Eu sei que você me diria, mas quem se importa com poesia? Você tem
que lembrar, sempre, que poesia é negócio incômodo, e o silêncio, etc.

Mas a questão é que para mim estar em movimento é que é incômodo.
Não quero entrar de novo na questão das escolhas da minha geração e tudo

É como aquela história do monge que ao se ver preso numa encruzilhada
de formigas a trabalhar na construção de um formigueiro, sob o risco de
pisar involuntariamente em uma delas, preferiu se sentar e esperar até que
tivessem terminado a obra. Não sei que fim tem essa história, não

O problema é que as formigas nunca param de trabalhar. Formigas
não têm espaço, é o que eu quero dizer, e devem ter segurado o monge
sentado por uma eternidade até que aprendeu a levitar
sobre a fileira da enésima geração das formigas em um sempre trabalhar

Não quero com isso dizer que penso
que aprender a levitar é a saída
Coisas como essa não se aprendem

Mas não consigo conviver com a ideia de ser obrigado a pisotear as formiguinhas, Ute.
Em nome de que, ou de quem, fazemos essas coisas, afinal?

É disso que me lembro querer falar com você na noite passada quando
fui ao banheiro e vi o homem sem camisa no quintal e não me lembro mais de nada.
O ser humano, Ute, eu e você, deve ter o próprio espaço para ser o que é, como as formigas.

Eu sei que você jamais faria isso. Mas há de compreender
quando digo que o mundo trata a nós, os poetas, tal qual formigas

Ah, Ute, a questão não é ter razão, esse é o problema. A razão é uma
propriedade privada, sabe, e com o que já se disse sobre a propriedade privada...

Os espaços, Ute, estão sendo tomados, ou roubados, e esse é outro tema,
como disse, e etc. a questão é que ter razão está na razão inversa ...

Eu ia agora citar um filósofo,
mas citar filósofos, Ute,
é como usar o controle remoto,

ou tomar dinheiro emprestado e nunca mais devolver. Não ter razão
e com isso se reconciliar com o mundo, com os outros, com as formigas,
é o mesmo que transcender. Porque a reconciliação não existe,
nunca foi descrita ou experimentada senão em narrativas místicas

E falar em narrativa mística
é o mesmo que colocar uma linguiça
amarrada ao rabo de um cachorro com fome

Tudo isso eu teria dito ontem mesmo se não tivéssemos nos separado antes
de aquele homem gordo e suado ter caminhado pelo galinheiro da vizinha
ter roubado nosso espaço, Ute. Por isso escrevo, na intenção de que
você, após ler esta carta, volte esta noite, ou na noite seguinte,

Para eu mostrar o meu silêncio, e, se você quiser,
você me mostra o seu. Se acontecer de nossos corpos
se tocarem e quem sabe de o meu corpo entrar o seu,
ou o seu penetrar o meu, não sei,

Não quero fechar nenhuma questão,
seria o mesmo que nossos espaços
criando poesia, criando novos espaços.

Isso justificaria todas as escolhas, os caminhos,
e até mesmo algumas formigas pisoteadas em pensamento

Os espaços, Ute, os nossos espaços, não só o seu e o meu, andam muito
cobiçados estes últimos tempos. O mercado está aquecido, ouvimos dizer

A cobiça, Ute, é que é o mal desse país. Oxalá não sucumbamos
a ela, nunca, e como o monge, aprendamos a pular formiguinhas

Seu, em tudo o que isso significa,

 R.
 

pintura em cinza, vermelho e branco
Ilustração para Imaginação - Nara Isoda

Roberto Taddei, mestre em criação literária pela Universidade Columbia, é escritor, tradutor e crítico literário.

Ilustração de Nara Isoda, artista plástica e ilustradora.

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