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Jimi Hendrix me fez dormir baixista e acordar guitarrista, diz Pepeu Gomes

Músico lembra disco que ganhou de Gilberto Gil e provocou mudança em sua carreira

Pepeu Gomes

Em 1969, na altura dos meus 17 anos, eu era contrabaixista e fui convidado por Gilberto Gil para acompanhá-lo no show “Barra 69”, feito em Salvador logo antes de ele e Caetano partirem para o exílio no exterior.

Fui morar um tempo na casa de Gil para conceber os arranjos. Na primeira noite, ele falou: “Tenho um presente para você”. Era o disco “Smash Hits”, de Jimi Hendrix, lançado no ano anterior. Naquela noite, ouvi tanto o disco que fui dormir baixista e acordei guitarrista.

Tive imediatamente muitas identificações com Jimi: sua maneira de cantar, seus solos de guitarra, a forma como ele fazia as músicas. Descobri que ele não lia partituras —e eu também sou autodidata, não sei ler nem escrever música. Sou de uma família de dez irmãos, meus pais eram envolvidos com música e aprendi a tocar assistindo a eles todos. 

 

Naquela época, eu estava ainda no final da adolescência, mas tinha certa facilidade em tirar os solos do Hendrix. Tanto que no dia seguinte ao que ganhei o disco, já sabia tocar as introduções de todas as faixas.

Além de me fazer virar guitarrista, ele influenciou completamente as minhas composições. Dos 17 aos 19 anos, eu era o Jimi Hendrix branco. Todas as pessoas que o conheciam, mas não sabiam tirar as músicas na guitarra, vinham me procurar para aprendê-las.

Comecei a me aperfeiçoar nisso. Não só em tocar músicas de Jimi, mas outros grandes solos de guitarra, como os de Eric Clapton no Cream, de George Harrison nos Beatles. Descobri que tinha essa habilidade. 
Era uma época em que estavam ativos muitos grandes guitarristas, Clapton, Harrison, Jimmy Page no Led Zeppelin, Ritchie Blackmore no Deep Purple. Mas foi Jimi quem abriu as portas para esses outros músicos entrarem no meu currículo.

Por aqui, éramos poucos guitarristas na década de 1970. Diria que só tínhamos quatro com nome: Lanny Gordin, o pai de todos, Armandinho, Sérgio Dias e eu. Depois apareceram outros como Toninho Horta, Victor Biglione, Torcuato Mariano. Mas nessa época, éramos uma legião pequena para defender essa classe. Hoje, somos milhões.

Tudo isso surgiu bem naquela virada dos anos 1960 para os 1970, no pós-tropicalismo, em que o Lanny e o Sérgio Dias, nos Mutantes, eram os comandantes —eles também me influenciaram muito. Começamos a ganhar espaço e depois passamos nós mesmos a influenciar outros músicos, mesmo sendo novinhos.
Fui criando a partir dessas escolas minha personalidade musical, minha guitarra brasileira, que mistura chorinho com rock, baião com frevo.

Hendrix também não fazia rock puro; no meu entendimento, ele era um bluesman. Seu ritmo não era um rock ‘n’ roll tradicional como o do Led Zeppelin ou o do Deep Purple. Era algo suingado, majestoso, muito harmonioso.

Nunca realizei o sonho de ver um show dele, infelizmente. Jimi morreu quando eu tinha 18 anos e ele tinha 27, em 1970. Mas Gil viu —acho que enquanto estava no exílio em Londres— e me contou com tanto detalhe que era como se eu estivesse vendo em pessoa.

Desde que decidi virar compositor, sempre tive uma intenção consciente de usar Jimi como grande referência. E consegui fazer algumas músicas parecidas com as dele.

Uma canção minha chamada “Ela É Demais” tem um pouco da introdução de “All Along the Watchtower”. Fiz “Malacaxeta” por causa de “Wait Until Tomorrow”. E no meu disco novo, “Eterno Retorno”, tem uma música chamada “José” que é inspirada em “May This Be Love”.

Jimi Hendrix foi minha maior fonte de criação de personalidade. Mas com o passar do tempo, comecei a ficar incomodado com isso. Eu começava a tocar e falavam sobre o quanto eu era parecido com ele. A revista americana Guitar World até me chamou de “o Jimi Hendrix brasileiro” nos anos 1980, o que foi para mim um grande presente.

Mas, a certa altura, senti necessidade de afirmar minha própria personalidade. Então passei a mergulhar na música brasileira, em Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Pixinguinha, conheci João Gilberto através dos Novos Baianos. E comecei a misturar tudo isso com Jimi Hendrix. Dessa mistura, saiu Pepeu Gomes.

Consegui me distanciar um pouco de Jimi sem, contudo, negá-lo. É algo que não quero nunca perder; tenho o maior orgulho de falar sobre a influência dele. Assim como outros guitarristas têm essa mesma relação com Ritchie Blackmore, Steve Morse, Eddie Van Halen, o meu guitarrista foi e é Jimi Hendrix. 


Pepeu Gomes é guitarrista, cantor e compositor; lançou na semana passada seu último álbum, “Eterno Retorno”, em shows no Sesc 24 de Maio.

Depoimento a Walter Porto.

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