Premiado e proibido, teatro político de Vianinha volta a ser publicado

Primeira obra reeditada é 'Rasga Coração', considerado o maior trabalho do dramaturgo

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O ator Raul Cortez como Manguari Pistolão na montagem de 1979 de ‘Rasga Coração’ Folhapress

Fernando Marques

[RESUMO] Herdeira do Teatro de Arena e símbolo da dramaturgia politizada que prosperou no auge da ditadura, obra de Vianinha passa a ser republicada, a começar por ‘Rasga Coração’, seu maior trabalho.

 

A vida breve, de apenas 38 anos, não impediu que o dramaturgo e ator Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974) chegasse à maturidade literária e nos deixasse uma grande peça teatral, “Rasga Coração”, terminada em abril de 1974, três meses antes de o autor morrer.

A circunstância de haver escrito parte de sua última obra ditando-a a um gravador (depois transcrita pela mãe, a radialista Deocélia Vianna) evidencia o esforço para concluí-la. O texto assumiu caráter de testamento estético e político, a que tampouco faltam humor e música. 

Premiado e proibido no ano em que foi escrito, “Rasga Coração” só seria liberado cinco anos depois, quando sua montagem representou, ao lado de outros sinais, o começo do fim da ditadura.

Os trabalhos tinham tido início em 1971 com a pesquisa sobre quatro décadas de vida brasileira: lá estão fatos políticos e econômicos, gíria, canções, piadas. Vianna e a jornalista Maria Célia Teixeira coletaram esses dados, já valiosos por si próprios, com o intuito de emprestar verdade histórica a “Rasga Coração”, em que aparecem três gerações, dos anos 1930 aos 1970.

Passado e presente se alternam e se misturam, fazendo lembrar (ou imaginar) relações entre personagens pertencentes a épocas distintas. Custódio Manhães, também chamado Manguari Pistolão, funcionário público e militante anônimo do Partido Comunista Brasileiro, acha-se no centro das ações. Com tais processos, ditos épicos, Vianinha procurava explicar poeticamente o país.

A peça e o “Dossiê de Pesquisa” reaparecem em dois volumes organizados pela professora da USP e ensaísta Maria Sílvia Betti, lançados pela recém-criada editora Temporal (foram publicados pela primeira vez em 1980; a peça isoladamente teve segunda edição em 1984).

A nova editora pretende republicar algumas das obras de Vianna Filho, autor de 18 textos teatrais, além dos escritos para televisão e cinema. A reedição coincide com a carreira do filme baseado na peça, que estreou em dezembro.

Como entender “Rasga Coração”? Podemos procurar vê-lo na trajetória de Vianna, que se inicia em 1957 com a comédia “Bilbao, Via Copacabana”. Nesses primeiros passos, importa sobretudo o drama “Chapetuba Futebol Clube”, encenado e premiado em 1959.

Esta segunda peça tinha intenção realista, fotográfica, no que emulava “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri. O texto de estreia de Guarnieri, parceiro de Vianna no Teatro de Arena, fora encenado pela companhia em 1958 e conquistara o público, mantendo-se em cartaz por um ano. Era natural que Vianna e outros dramaturgos do Arena —Chico de Assis, Augusto Boal— se mirassem nas qualidades de “Black-Tie”.

Segundo Vianna e Assis, esse repertório pecava, no entanto, por estar preso ao estilo dramático, realista, retilíneo, visto como limitado para a tarefa de explicitar os motivos mais amplos das personagens —motivos sociais, históricos, para além dos estritamente psicológicos. O drama ilumina os indivíduos sem deixar ver claramente o contexto dentro do qual se movem, pensavam eles.

Em artigo daquele instante, Vianna dizia: “É preciso uma outra forma de teatro que expresse a experiência mais ampla de nossa condição. Peças que não desenvolvam ações; que representem condições. Peças que consigam unir a consciência social e o ser social mostrando o condicionamento da primeira pelo último”.

Esse “teatro político e circunstancial” procura realizar-se em “A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar”, comédia musical de 1960 que dará ensejo à criação, no ano seguinte, do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes.

Bertolt Brecht, dramaturgo e teórico da cena épica, havia chegado ao teatro profissional brasileiro com “A Alma Boa de Setsuan” naquele mesmo 1958. Exercitar procedimentos épicos —cartazes, canções, a presença de recursos narrativos, enfim— parecia vital para os artistas que pretendessem dar relevo social a seus espetáculos, aguçando as possibilidades críticas. O propósito político procurava os meios de expressão. Eis a busca de Vianinha e a de outros contemporâneos nas duas décadas seguintes.

Com o golpe de 64, o teatro vive momentos de apreensão e perplexidade. O primeiro gesto coletivo de resposta à ditadura demora, mas não falta: é “Opinião”, que tem Vianna entre seus autores (ao lado de Armando Costa e Paulo Pontes) e estreia em dezembro de 1964.

Cenas breves, canções, anedotas compõem esse espetáculo-colagem, interpretado pelos cantores João do Vale, Nara Leão e Zé Keti, sob a direção de Boal. Teatro e música popular se reúnem na montagem que obtém grande sucesso, mas não escapa das polêmicas: alguns entendem que artistas e espectadores de “Opinião” se autoiludem ao supor uma participação política que de fato não ocorre.

O fio da meada que parte desse show, ou de espetáculos anteriores como “A Mais-Valia”, percorre a obra de Vianna e chega a “Rasga Coração”. Ele escreve no prefácio ao texto de 1974: “A peça conta uma história, com todos os mecanismos do playwright, aproximação psicológica, crescendo de tensão”, recursos realistas. Ao mesmo tempo, utiliza “a técnica de ‘colagem’ que usamos em ‘Opinião’ e outros espetáculos. Esta combinação de técnicas parece-me que apresenta uma linguagem dramática nova”.

Os textos de Vianna remetem à realidade, mas não mais a representam de maneira linear. Já em 1965, “Moço em Estado de Sítio” (que só iria à cena em 1981) operava segundo “cinquenta breves sequências e cenas sobrepostas, numa dinâmica de cortes quase cinematográfica”, aponta o biógrafo Dênis de Moraes. Outras obras, como “Papa Highirte” (1968), vão se beneficiar das mesmas conquistas.

Manguari, sua mulher Nena, o filho Luca, que briga com o pai a quem considera conservador, ligam-se à Revolução de 30 ou às campanhas sanitárias do início do século graças às idas e vindas que remodelam o tempo, assinaladas por canções. 

As analogias estão claras: vítima do pai que o expulsa de casa por motivos moralistas, Manguari, 40 anos depois, tem atitude semelhante para com o filho, ressalvado que desta vez a razão se mostra mais séria. Empenhado a vida inteira em lutas solidárias, ele não suporta o que, em Luca, o agride como evasão e indiferença.

A linguagem dramática nova de que fala Vianna mira sempre a realidade, no entanto reconhecendo-a complexa, sem simplificações apaziguadoras. A forma artística se altera para dar conta de expressar o mundo. Para ele, mantém-se a noção de que a realidade, embora difícil, é passível de ser representada, meditada, transformada, ao contrário do que parecem pensar as vanguardas que, ainda agora, se deleitam no informe e no inominado.

O relançamento de “Rasga Coração” convida a reabrir esse debate que animou aquelas décadas.


Fernando Marques, professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, é autor de “Últimos: Comédia Musical” e “Com os Séculos nos Olhos: Teatro Musical e Político no Brasil dos Anos 1960 e 1970” (Perspectiva).

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