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Kubrick foi o primeiro diretor a me despertar para o cinema, diz Mel Lisboa

Atriz fala sobre o contato com a obra do cineasta americano, que conheceu 'de trás para a frente'

Mel Lisboa

Eu estava no início do curso de cinema na Universidade Federal Fluminense, ao redor dos meus 18 anos, quando tive o primeiro contato com a obra de Stanley Kubrick.

Foi um marco na minha vida. Era a época em que eu estava começando a entender mais sobre cinema, e ele foi o primeiro diretor a me despertar. Na faculdade, falava-se muito de cineastas como Ingmar Bergman, Jean-Luc Godard, mas o primeiro que arrebatou minha atenção foi Kubrick, talvez por ser mais contemporâneo a mim.

O primeiro filme que vi dele foi “De Olhos Bem Fechados” (1999), que estava em cartaz no cinema, lançado depois da morte do diretor. Ou seja, comecei a conhecê-lo de trás para a frente.

Eu era muito novinha, e o filme me marcou demais. Os sonhos da personagem da Nicole Kidman, aquelas festas, as orgias mascaradas me impactaram de tal maneira que saí da sala sentindo necessidade de ver todas as outras obras dele, imaginando que seriam parecidas —o que estava longe da realidade.

Seus filmes são muito distintos um do outro. São ligados, claro, por uma maestria impressionante, mas a maioria dos diretores têm uma linha que seguem durante toda sua filmografia, passeando um pouco para cá ou para lá, mas mantendo-a de modo geral. Kubrick não.

Se “O Iluminado”, por exemplo, é um terror psicológico brilhante, e olha que eu não gosto do gênero,  há ficção científica, filmes de guerra, e Peter Sellers faz uma comédia sensacional em “Doutor Fantástico”.

Segui aquela sessão de “De Olhos Bem Fechados” com a busca pelos outros filmes mais conhecidos do diretor. E na época só dava para fazer isso em videolocadoras, frequentemente em cópias de qualidade ruim.

Aquele que todo mundo mais comentava era “2001 - Uma Odisseia no Espaço”. Lembro-me de que, na faculdade, tinha um professor muito rígido, chamado João Luiz Vieira, que certa vez falou algo que ressoou em mim: “Vocês não podem ver ‘2001’ na televisão. Se for para fazer assim, melhor não ver”.

Como eu não tinha o que fazer, não dava para ver no cinema, aluguei uma fita e assisti na TV. Achei chatíssimo, me deu sono para caramba.

Até que uns meses depois, por coincidência, programaram uma reapresentação de “2001” em um cinema do Rio. E eu pensei: “Vou dar mais uma chance”. A experiência foi completamente diferente. Não sei se por ser uma revisão ou pelo efeito da tela grande, mas desta segunda vez o impacto foi outro.

Após algum tempo, por acaso, eu estava em Berlim na época do festival cinematográfico sediado lá. A sessão de encerramento seria —de novo— uma exibição de “2001”, mas dessa vez uma projeção em tela especial para exibir o filme em 70 mm, como pretendido por Kubrick.

Tentei arrumar ingresso para a sessão e, claro, não consegui. Chateada, comprei para outra sessão, de um filme do Fritz Lang. Até que me apontaram que havia uma fila de espera para o Kubrick, onde distribuíam os ingressos dos convidados que não apareceram —e afinal não só assisti à projeção por um preço baratíssimo como acompanhei, logo depois, a cerimônia de premiação do festival.

Foi só aí que entendi a real grandiosidade do projeto de Kubrick. Só aí pude compreender a ortodoxia do meu professor. Quer dizer, acho que o filme tem que ser visto de qualquer jeito, mas dá para entender alguém fazer a defesa que ele fazia.

Certa vez, decidi que queria não só ver, mas ter os filmes do cineasta. Era muito difícil encontrar as cópias para comprar no Brasil, então aproveitei uma viagem a Nova York e decidi que, antes de ir embora, faria uma visita a uma loja no outro lado da cidade que tinha a coleção inteira de Kubrick em DVD. E fui impedida de ir até lá porque, veja só, o dia era 11 de setembro de 2001.

Cineastas que marcam tão profundamente geram não só histórias e inspirações para seu trabalho —estudando planos e atores maravilhosos como Malcolm McDowell e Jack Nicholson—, mas referências que você leva para o dia a dia.

Não consigo olhar um corredor longo de hotel sem me lembrar de “O Iluminado”. Não consigo maquiar meu cílio sem lembrar as torturas de “Laranja Mecânica”. E até hoje, quando alguém me pede para sugerir uma senha, eu falo “fidelio”, como em “De Olhos Bem Fechados”.


Mel Lisboa, atriz, está em cartaz com “Dogville” no Teatro Porto Seguro até 31/3.

Depoimento a Walter Porto.

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