Descrição de chapéu Clube da Leitura Folha

Romance de Heinrich Böll finca as garras na má consciência alemã

Livro de alemão vencedor do Nobel é o escolhido do mês no Clube de Leitura Folha

Marcelo Pen

 

O texto abaixo foi publicado na Ilustrada em maio de 2004, quando do lançamento no Brasil de "O Anjo Silencioso", primeiro romance de Heinrich Böll, editado postumamente em 1992. Böll venceu o prêmio Nobel de Literatura de 1972 e o livro é a escolha do mês do Clube de Leitura Folha. O encontro do clube acontece na terça (26), às 19h, na Casa Plana ( r. Fradique Coutinho,  1139, Pinheiros). A entrada é livre e gratuita.

 

O Anjo Silencioso

  • Preço R$ 32 (208 págs.)
  • Autor Heinrich Böll
  • Editora Estação Liberdade
  • Tradutora Karola Zimber

O romancista Heinrich Böll (1917-1985), Prêmio Nobel de Literatura de 1972, morreu sem ver a publicação de seu primeiro romance, "O Anjo Silencioso". Se não houvesse escrito mais nada, não passaria de uma promessa literária.


Uma promessa, entretanto, em que salta aos olhos o talento descritivo, que inclui a capacidade de criação de imagens fortes, em especial da Alemanha destroçada do imediato pós-guerra, período denominado "hora zero".

Como o professor Paulo Soethe aponta no prefácio ao livro, a obra constitui uma espécie de "Proto-Fausto", referência ao texto de Goethe que contém as sementes dos seus posteriores "Fausto I" e "Fausto II".

Em "O Anjo Silencioso" também se encontram a temática e o estilo que Böll aperfeiçoaria em seus romances futuros. Ele escreveu-o entre 1949 e 1951, e, em muitas idas e vindas, deixou a revisão final para a "última e quarta versão", que nunca houve.

Ao fundo, a igreja Gross St. Martin, no centro antigo de Colônia - AFP


Essa peculiaridade deu margem a erros (de caráter temporal, alguns) e também pode explicar falhas mais graves de condução narrativa. No meio do livro, Böll insere uma subtrama piegas, levada a cabo por personagens mal delineados, e abandona um pouco seu exame realista do país devastado.

Foi esse retrato em preto-e-branco, como o dos filmes neo-realistas de Rossellini e Vittorio de Sica, que demoveu os editores da idéia de publicar a obra, considerada desagradável para a sensibilidade dos patrícios ainda traumatizados.

O eixo principal da história centra-se no soldado Hanz Schnitzler, que chega a Colônia para entregar a Elizabeth Gompertz o casaco do marido, o sargento Willi, fuzilado pelos alemães. Willi trocara de lugar com Hanz, pouco antes do fuzilamento deste último por deserção.

Böll esmera-se na descrição dos escombros, da sujeira, das ratazanas, da fome que provoca câimbras, da miséria e da desesperança. Mas, em meio a essa sordidez física e moral, também faz brotar o amor. O acaso une Hanz a Regina Unger, cujo bebê morrera dias antes, vítima de bala perdida. Mesmo abalada, Regina concede guarida ao soldado desertor. Dessa relação, nasce um dos poucos focos de esperança do romance.

A subtrama sentimental a que nos referimos está ligada ao casaco que Hanz entrega a Elizabeth, em cujo forro está o testamento de Willi. A família do sargento quer a todo custo garantir a fortuna para si, procurando impedir que a viúva gaste a herança com caridade. Coincidentemente, Hanz é o único que sabe onde Willi fora enterrado. Como testemunha, também pode corroborar a versão de Elizabeth, garantindo-lhe a herança. Porém, ignorante dessas maquinações, ele é escorraçado da casa da viúva, quando depois lá vai mendigar pão.

Esse não é o único dos paralelismos da narrativa. Antes, ao chegar à cidade, Hanz é saudado, no hospital aonde vai procurar Elizabeth, pelo sorriso de uma estátua de anjo. Ele se comove com essa imagem de pureza, coberta pelo pó. Quando remove a sujeira, contudo, descobre que "o sorriso era de gesso" e que a poeira "havia conferido aos traços a nobreza do original a partir do qual a cópia havia sido feita".

Para Böll, é paradoxalmente na sujeira que se acha o caminho para a pureza de propósitos. A limpeza cosmética apenas revelaria uma realidade plástica e mentirosa, que não se enxerga à primeira vista.

Essa imagem reflete a estátua do anjo decaído, que surge no fim. O rosto, agora de mármore, afunda na lama, sob o peso de dois personagens que nele se apóiam, um deles o pai de Willi. Esses caracteres representam a ganância e a erudição oca, que, capazes de estar sempre "politicamente do lado certo", sobreviveram ao Reich e continuaram ditando os rumos na Alemanha restaurada.

A força da denúncia de Böll, ainda que arrefecida por certo simbolismo óbvio, atravessa o realismo descritivo e atinge o nervo da consciência de uma nação. Isso, talvez mais do que tudo, impediu a obra de vir a lume tão cedo. Na Alemanha, a publicação póstuma do manuscrito deu ensejo à revisão crítica de toda a obra de Böll, cujos primeiros volumes estão previstos para este ano. No Brasil, a tradução dá fim a um período de quase 15 anos sem lançamento de romances do autor.

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