Descrição de chapéu Memorabilia

Agnès Varda, ou uma Clarice Lispector virada pelo avesso

Escritora Noemi Jaffe reflete sobre o trabalho da cineasta franco-belga

Noemi Jaffe

Acho difícil encontrar literatura e arte, em geral, que sejam ao mesmo tempo boas e alegres, mas sigo buscando, porque, quando encontro, é como uma utopia realizada.

Julio Cortázar, Italo Calvino e Oswald de Andrade são alguns escritores que me lançam nesse lugar simultaneamente denso e feliz, onde uma outra forma de vida parece possível.

Agnès Varda é uma Clarice Lispector virada pelo avesso: cultiva formas semelhantes de estranhamento e deslocamento, mas sua perspectiva é a da surpresa, do entusiasmo e da leveza. Não tenho nada contra o peso, como é o caso de Clarice, mas gosto do problema de conciliar profundidade e leveza.

Quando falo de leveza não me refiro, evidentemente, à leveza do entretenimento, mas à leveza, como diz Italo Calvino, do pássaro: “Ser leve como o pássaro e não como a pluma”.

É dessa forma que Varda aborda um tema complexo e, pode-se dizer, triste, como o dos coletores de remanescentes das colheitas. Em francês existe uma palavra específica para essa prática: “glaner”, que em português traduz-se como espigadores, um termo que quase ninguém conhece nem utiliza. O mais aproximado, acho, seria catadores.

Na França existem leis que controlam a glanagem há alguns séculos e que vão se modificando conforme o tempo e as circunstâncias. Van Gogh, Millet e vários outros pintaram cenas de catadores de espigas, de batatas e de outros vegetais —uma forma de sobrevivência dura, mas digna, pois garantida pela lei e que, além de tudo, ainda evita desperdícios.

O filme “Les Glaneurs et la Glaneuse” (os catadores e a catadora, esta a própria Varda) parece uma daquelas obras que nos fazem dizer: “Foi feita para mim”. A identificação foi tamanha que, até o momento em que escrevo este texto, acho que estou praticando glanagem. Na minha opinião, essa palavra poderia ser um sinônimo de arte, ou, ao menos, da arte em que acredito.

Varda, no filme, expande o conceito de glanagem para quase tudo: dos espigadores para os catadores de restos de feira, para os moradores de rua que coletam comida nas portas de supermercados e móveis nas ruas, para os anticapitalistas que se sustentam com o que os consumidores perdulários descartam e, o que mais me emocionou, para os artistas, que são também catadores do que veem, leem, vivem e de suas próprias influências.

Uma arte que permite e, mais do que isso, acolhe a presença do acaso é, penso que necessariamente, uma arte mais alegre. É assim que Varda, viajando por uma estrada enquanto realiza o documentário, resolve parar num depósito de ferro velho (outra forma de glanagem) e nele, coincidentemente, encontra um quadro que representa glanadores.

O quadro não é bonito no sentido estrito, mas está lá onde ela parou por acaso, no meio de um filme sobre esse assunto, e passa a ser parte importante dele. É por acaso que, nessa mesma estrada, ela filma o espelho retrovisor de um caminhão e passa então a filmar dezenas de espelhos que vão passando, numa aposta glanática de transformar o que passa em arte da passagem.

Instalação 'Patatutopia', de Agnès Varda (2003)
Instalação 'Patatutopia' (2003), de Agnès Varda - Divulgação

E é assim também com uma mancha de mofo em seu banheiro, que ela insiste em não consertar porque lhe parece uma forma bonita e significativa e, num gesto que me comoveu, lembra uma batata em forma de coração que ela casualmente encontra entre os restos de uma plantação descartada.

Essa batata, com sua forma torta, passa a ser personagem do filme e a aparecer episodicamente no canto superior direito da tela, como um presságio dos memes atuais (o filme é de 2000), um selo imprevisto e fugaz que vai lembrando ao espectador a marca da diretora e do filme: ser “gauche”.

Varda assume o gauchismo como forma de vida —mais do que um estilo— e, a partir desse filme, passa a colecionar batatas em forma de coração, com as quais faz também uma instalação na Bienal de Veneza de 2003, intitulada “Patatutopia”. É a utopia das batatas que, mesmo velhas, continuam germinando (como ela própria), que são banais e modestas, mas representam o “desejo vegetal de existir”.

Nessa instalação de milhares de batatas, em que ela mesma se vestiu de batata, Varda quis compartilhar sua utopia “de acreditar que a beleza do mundo resumida na beleza das batatas velhas pode nos ajudar a viver e a nos reconciliarmos com o caos”.


Noemi Jaffe é escritora, crítica e coordenadora do espaço Escrevedeira.

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