Como um jovem alemão sobreviveu a meses de medo e delírio na linha do equador

Há 200 anos, expedição de Martius chegava à Amazônia para encarar sonho aventureiro

José Hamilton Ribeiro

[RESUMO] O alemão Martius empreendeu, há dois séculos, expedição pelas matas brasileiras que resultou em publicações científicas referenciais da botânica; trajeto na bacia amazônica, em 1819, foi ponto central.

 

Há dois séculos um alemão de 23 anos, músico e médico, veio de Munique —na comitiva da princesa Maria Leopoldina, da Áustria, futura imperatriz do Brasil— para embrenhar-se nas matas brasileiras com a tarefa de fazer um inventário da natureza no país. 

De nome Carl Friedrich Philipp Martius, ele não veio só. Acompanhou-o o zoólogo Johann Baptist Spix, da Real Academia da Baviera. Dividiram o serviço assim: Martius, ligado em botânica, registraria as plantas e tudo mais que fosse do interesse da ciência; Spix observaria os bichos e tudo mais que fosse do interesse da ciência.

Martius tinha ainda outra missão: estudar os índios, ver como viviam, que língua falavam e anotar seus cantos e danças para transcrever músicas em pentagramas, de modo que pudessem ser executadas em Munique.

Foi a fundo; transcreveu até o poema de um deles: “Quando um dia eu morrer, ⁄ E não quiser chorar, ⁄ Aí está o Caracará-í ⁄ que me há de prantear. ⁄ Quando um dia eu morrer/ E me jogarem no mato/ Aí está o tatu/ Que me há de enterrar”.

A expedição resultou em 26 publicações científicas na Europa, entre elas “Flora Brasiliensis”, uma das maiores obras de botânica de todos os tempos —e talvez a mais bonita. São 45 volumes, de quase um metro de altura cada um, com capa dura, papel e impressão de primeira qualidade. Estão ali mais de 22 mil espécies vegetais, com descrição técnica, ilustração gráfica e artística e informações tanto da planta quanto de seu habitat, data e condição do achado —o que era novidade na botânica de então.

Além disso, a obra tem 3.800 pranchas de imagens, muitas delas vindas do pincel dos maiores pintores da Europa naquele momento: o holandês Franz Post, o austríaco Thomas Ender, o francês Debret e o alemão Rugendas. Ainda não havia fotografia na época; cabia a um desenhista o registro visual das plantas e animais descobertos para a ciência.

Obra de Jean-Baptiste Debret mostra soldado mameluco em ataque a nativo brasileiro - Fundação Biblioteca Nacional/Reprodução

Durante a viagem ao Brasil, os dois cientistas, Martius e Spix, muitas vezes desempenharam essa função. Spix é mais objetivo e seco em seu traço; Martius, além de desenhar a folha, a flor e o fruto das espécies botânicas, também retratou cenas gerais da expedição. Revelou-se muito talentoso na tarefa. Alguns de seus quadros equiparam-se aos dos mestres. 

O trabalho desses desenhistas improvisados e a obra dos pintores fazem as publicações sobre a expedição resultarem lindas e ricas. “Flora Brasiliensis” é hoje, internacionalmente, uma raridade bibliográfica e uma obra de arte. Poucas instituições no Brasil a têm no acervo.

A obra de Spix, de outro lado, foi vista por Paulo Vanzolini —pesquisador, chefe por tantos anos do Museu de Zoologia de São Paulo e compositor— como referência para a biologia moderna. Seus trabalhos, do início do século 19, são um dos pilares da zoologia moderna.

Acervo do Museu de Zoologia da USP - Zanone Fraissat/Folhapress

A expedição científica da dupla por um Brasil que era quase todo mato voltou agora à tona com a publicação da biografia “Martius”, escrita pelos pesquisadores Pablo Diener e Maria de Fátima Costa, ambos professores da Universidade Federal de Mato Grosso.

Lançado pela editora Capivara, o livro é fabuloso. Trata-se de leitura obrigatória para cientistas —e mesmo leigos terão prazer com a aventura, os personagens e as belezas descritas. A expedição Martius-Spix foi a primeira grande sensação da ciência no Brasil.

A viagem começou em 1817, chegando ao fim em 1820. Três etapas a dividiram: na primeira, percorreu-se um trajeto que passava por Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Pernambuco e Bahia; na segunda, Piauí, Maranhão; na terceira, exploraram a bacia amazônica (rio Amazonas e afluentes).

Foram mais de 14 mil km de viagem, sendo 4.800 km em lombo de mula, 8.200 km em rios e mais de 1.000 km no mar. A parte de terra revelou-se a mais sofrida. As mulas eram imprescindíveis. O pessoal chegou a ter de lidar com 50 animais e uma variada equipe para manejá-los. O arreeiro de tropa, geralmente um mulato esperto e bem falante, cuidava dos apetrechos da viagem, do roteiro, das compras e da marcha.

Vários “tocadores”, negros, iam a pé para açular as mulas —cabia a eles, além disso, cuidar da ração dos animais e da alimentação da comitiva. Havia ainda tropeiros, tantos quanto necessários, e muitos índios.

Martius e Spix deram de frente com as florestas da mata atlântica, cruzaram a caatinga e o cerrado na seca, viveram completo deslumbramento na Amazônia. Na lista dos infortúnios, pegaram malária inúmeras vezes, além de conhecer na carne o bicho-de-pé, o carrapato, o berne e o pequeno e abusado “carapanã”, aquele mosquito amazônico que ninguém esquece.

O zoólogo Spix, com quase 40 anos, era mais frágil. Não se curou bem das febres e voltou a Munique com saúde fraca. Morreria seis anos depois. Martius, mais jovem, viveu e trabalhou até os 74 anos. Planejou tão bem a “Flora Brasilensis” que a obra continuou saindo até 38 anos depois de sua morte.

Nas mais de 20 mil páginas do livro, um único colaborador nativo foi citado: Miguel (sem sobrenome). Era um arreeiro de tropa que morreu da “febre fria”, doença que levava à loucura antes de matar.

Nos mesmos dias do calvário de Miguel —no trajeto com mulas para o norte, atravessando a caatinga na seca—, Spix e Martius também ficaram doentes. Escravos os levaram adiante em redes. Na chegada, estavam magros, abatidos. Por sorte, não pegaram a “febre fria”.

Nessa travessia da caatinga, a comitiva estava com 23 animais e uma bagagem pesada, volumosa, que só aumentava. Exaustas, muitas mulas foram deixadas para trás, com carga e tudo. Não havia ração, muito menos água. A comitiva comia farinha e carne do sertão, seca e salgada, que dava ainda mais sede.

Todos se valiam da água que se acumulava na folha dos gravatás, uma bromélia com espinhos tenebrosos. Parte dos tropeiros adoeceu, índios fugiram. Metade das mulas morreu. As dificuldades chegaram a tal ponto que os dois cientistas decidiram usar toda a energia que lhes restava para salvar a própria vida —se fosse preciso perder as coleções e todo o material que seguia nas mulas, que assim fosse.

Spix registrou, contudo, alguns momentos de delicadeza no desespero da travessia da caatinga. À noite, Martius pegava o violino, tropeiros se juntavam com seus instrumentos e ouvia-se ali, no ermo do sertão, um pouco de boa música.

O desespero terminou quando a comitiva, semidestroçada, chegou ao Maranhão. A viagem seguiria por água, um imenso alívio para todos. 

Desenho produzido pelo botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius em sua expedição ao Brasil, iniciada em 1817
Capa da Ilustríssima - Desenho produzido pelo botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius em sua expedição ao Brasil, iniciada em 1817 - Divulgação

Por volta de julho de 1819 teve início a exploração da bacia amazônica. Era o trecho da viagem mais aguardado por Martius. Desbravar a região era o sonho de qualquer botânico da época —e de agora também. E de fato a Amazônia traria aos viajantes um espanto acima do esperado. De pronto duas sensações: o medo e o deslumbramento. Medo diante de tanta água e deslumbramento com a natureza. Lá, sentiram o sol e o calor. Chegaram a dizer que o sol na Amazônia alcançava o zênite e isso redobrava a força da terra “para engendrar no seu seio uma vida portentosa”.

Também diziam que a linha do equador provoca efeitos na natureza e no homem. “Equador é o lugar no mundo onde o homem experimenta a menor força da gravidade e o Sol percorre o maior arco no seu percurso pela abóbada celeste: a exposição solar é mais forte e as sombras são menores”, anotaram.

Quase se perderam, todavia, com certas miragens. Quando o barco que os levava chegou a Santarém, no Pará, Martius, vendo a água azul e transparente que vinha do Tapajós, saltou no rio. Estava no vigor de seus 25 anos e nadava muito bem; não avaliou a correnteza. Foi sendo levado, sem forças para resistir. Gritou pelos índios que remavam, mas ninguém o ouviu. Salvou-se por um vigia da tripulação, que por acaso o avistou.

Já em Munique, para agradecer o “milagre” de estar vivo, mandou confeccionar um grande crucifixo de ferro, com uma camadinha de ouro, e o enviou para a Igreja Matriz de Santarém, onde permanece exposto ainda hoje.

Numa palestra acadêmica, 40 anos após a viagem, Martius confirmou que por pouco não foi tragado pelo Amazonas.

Mapa do trajeto realizado por Carl Friedrich Philipp von Martius em sua expedição ao Brasil, de 1817 a 1820
Mapa do trajeto realizado por Carl Friedrich Philipp von Martius em sua expedição ao Brasil, de 1817 a 1820 - Divulgação

Na chegada ao Porto do Pará, Spix escreveu: “Trouxeram-nos ao Jardim do Paraíso!”. Em Manaus, observando uma pescaria, os dois se impressionaram com a variedade de peixes. “Nem uma vez se puxava a rede sem uma grande quantidade e diversidade de espécies”, registraram em suas anotações. Também viram a exploração da mão de obra indígena —Martius escreveu que era essa uma das razões da miséria na região.

Para conhecer mais a Amazônia, subiram juntos o Solimões até Tefé (AM), onde se separaram. Spix continuou no Solimões para Tabatinga, na divisa com Peru. Martius pegou um afluente, o Japurá, na direção da Serra de Araracoara, perto da Colômbia, em direção aos povos indígenas do Vale do Japurá. Visitou-os um a um.

Impressionou-se com os índios do Brasil, ”muito primitivos”. Achava que eram relíquias de civilizações superiores, antigas, e estariam em processo de degradação. Via neles ao menos uma preciosidade científica, o idioma.

Às vezes duas tribos separadas só pela margem do rio tinham duas línguas diferentes. Estudando-as podia-se descobrir o passado de cada povo, de onde vinham, sua cultura. Martius fez uma lista de 145 grupos indígenas, anotando seus idiomas e suas localizações. A maioria das tribos foi extinta —registros de suas histórias só existem agora em museus da Alemanha.

Apesar das dificuldades, e do pouco tempo da expedição, Martius conseguiu reunir material para fazer a primeira organização dos idiomas indígenas brasileiros em grupos linguísticos. Identificou nove, sendo o tupi o mais disseminado deles. Como sabia ler (e fazer) partitura, Martius procurava conhecer cantos e danças dos índios. Elaborou também um glossário das tribos que pesquisou, o que permitiu perceber que certas palavras figuravam em várias etnias, indicando aproximações entre elas.

Em relação às plantas, também estabeleceu um esquema geral. Escreveu na “Flora” que elas se dividem no Brasil em cinco “províncias florísticas”: a do sul (floresta subtropical, a única que não visitou), a do Cerrado (Minas, Centro-Oeste, partes da Amazônia), mata atlântica (Rio, São Paulo, Espírito Santo, Paraná, Nordeste), Caatinga (Nordeste) e Amazônia.

Em ensaio na Revista da USP, em 1989, Vanzolini registrou que essa “extraordinária sistematização das paisagens maiores do Brasil” é ainda a base “dos conceitos correntes sobre os domínios morfoclimáticos” em nosso país.

Ao longo da viagem, a comitiva mandava material para a Baviera. Foram quatro remessas (uma delas com 86 volumes). A primeira incluía seis crânios de negros e um de bengalês, plantas, bichos, material mineralógico. Ao todo, chegaram lá 200 mil exemplares de plantas, enorme coleção de sementes nativas, animais vivos ou preparados, insetos, aves, peixes. 

Mandaram também coleção etnográfica, amostras de rocha e de solo, fósseis, esqueletos, um farto material de mapas, livros, desenhos, ilustrações, além de dezenas partituras de músicas indígenas.

Era a primeira grande expedição científica do novo reino da Baviera, que ansiava por reconhecimento. Assim, a volta dos pesquisadores foi triunfal. O rei Maximiliano outorgou aos dois o título de cavaleiros, o que lhes dava o direito de usar “von” antes do sobrenome.

Em Munique, o desafio da dupla foi desembalar e qualificar cada item da bagagem, projetar o que fazer com ela. Uma expedição científica só termina com a publicação do material dela decorrente.

Em 1823, menos de três anos após a chegada, entregaram ao público, quase ao mesmo tempo, “Viagem pelo Brasil”, relato da expedição (três volumes de texto e um atlas com mapas e ilustrações, além de um suplemento musical com o som dos índios), e o primeiro fascículo de “História Natural das Palmeiras” (originalíssimo e brilhante estudo, com a ficha botânica completa, inclusive potencial econômico, origem e aplicações práticas dos frutos, das folhas e da madeira de cada uma).

Na parte da zoologia, Spix preparou uma monografia sobre macacos. Na época da expedição, eram conhecidas no Brasil 33 espécies de primatas. Dessas, oito foram descritas por Spix (reconhecidas até hoje).

Spix também descreveu anfíbios, cobras, jacarés, lagartos, mamíferos, insetos. Só de aves foram 326 espécies, “uma das ponderáveis contribuições científicas de qualquer tempo”, segundo a revista da USP. No estudo dos peixes de água doce da Amazônia, Spix só perde para o suíço Louis Agassiz, considerado o campeão de descrições de espécies novas. 

O impacto do livro “Viagem pelo Brasil” foi enorme. Uma versão em inglês correu o mundo, com grande sucesso. Pouco depois saiu o primeiro volume de “Flora Brasiliensis”, hoje referência nas melhores universidades do mundo.

A produção dos dois cientistas, contudo, teve também detratores. Apontou-se que teriam sido omissos a respeito da situação dos negros no Brasil, que não teriam merecido em seus textos o mesmo tratamento dispensado aos índios.

Mesmo em relação a estes últimos os cientistas foram repreendidos, sobretudo pelo fato de terem levado quatro jovens índios da Amazônia para a Europa. A intenção generosa, educá-los em solo europeu, não deu certo: dois morreram na viagem, os outros dois, pouco mais de um ano depois. “Paguei o perigo do endurecimento da alma”, disse Martius, arrependido.

De toda forma, Martius e Spix foram reconhecidos como cientistas importantes no meio intelectual europeu. Depois de ler “Viagem pelo Brasil”, Goethe, o maior poeta alemão, escreveu a Martius, elogiando-o. Disse que ele tratava a ciência como ela merecia, de maneira clara e simples, para ser entendida mesmo pelo não especialista.

A amizade com Goethe tornou-se íntima: num almoço na casa de um deles, o poeta ensinou à mulher do cientista o jeito de fazer alcachofra. Através de Goethe, Martius conheceu Alexander von Humboldt, que havia estado no Brasil antes dele: os dois se afinavam na ideia de uma “geografia das plantas”.

Ficou também amigo de Jacob Grimm, um dos Irmãos Grimm, dupla que se tornou célebre em todo o mundo pelo trabalho de compilação e registro de histórias infantis.

Após concluir outro projeto monumental, o“Dicionário da Língua Alemã”, Jacob trabalhou num estudo sobre “o estado do direito alemão”. Então escreveu a Martius que, lendo “O Estado do Direito dos Indígenas Brasileiros”, escrito pelo cientista, constatou, admirado, que muitos dos pontos do direito dos índios “coincidiam perfeitamente com tópicos do direito alemão”.

A despeito de seu espírito aventureiro, Martius era discreto, contido, caseiro. Dava, contudo, duas festas por ano. Uma em 8 de dezembro, para comemorar o dia de seu retorno a Munique, depois da expedição ao Brasil. Outra em 23 de maio, aniversário de Carolus Linnaeus, cujo lance de gênio —conceber a nomenclatura binominal dos seres vivos, que é a base da biologia até hoje— não se cansava de louvar.

Aos 60 anos, com boa saúde, pesquisador reconhecido, membro da Academia Real, Martius estava cheio de projetos. Dirigia o Jardim Botânico de Munique, em que cuidava de 20 mil espécies de plantas, quando recebeu uma ordem: derrubar tudo para ser construído ali um prédio comercial. Lutou o quanto pôde, mas, derrotado, pediu o boné e nunca mais aceitou cargo público para não ter de lidar com ordens de um chefe maluco.

Tinha muito ainda a fazer na ciência. Completou as publicações acerca da viagem ao Brasil e de tudo o que ela acarretara. Morreu aos 74 anos, com obra enorme e de renome, festejado como gênio.


José Hamilton Ribeiro, jornalista, é autor dos livros “O Gosto da Guerra”, sobre sua experiência no Vietnã, “Pantanal, Amor - Baguá”, sobre o Pantanal, e “Música Caipira - As 270 Maiores Modas”.

Ilustração de Carl Friedrich Philipp von Martius, médico, botânico e antropólogo alemão (1794-1868) .

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