Romance narra episódio trágico envolvendo um casal; leia trecho

'siameses' ainda não tem data de publicação

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira

[SOBRE O TEXTO] O trecho nesta página compõe o início do romance “siameses”, ainda sem data de publicação. O projeto recebeu uma bolsa do programa Rumos, do Instituto Itaú Cultural. O narrador da história, um operário de pequena fábrica no interior do Brasil, relembra um episódio de extrema barbárie ocorrido com um casal amigo, na década de 1980.

Ilustração - Deborah Paiva

não, não nasceram siameses,

não, nenhum dos dois, eram casados, só isso, siameses porque muito grudados, entende?, piada desse povinho aleivoso que não suporta o amor em paz de um casal feliz,

é, mas feliz enquanto dure, segundo o poeta, ou, enquanto duro, de acordo com os desocupados de sempre, condição esta que não deveria perdurar para além da soleira de casa, como apregoa o senso comum, com a mão enfiadinha no bolso das calças, encobrindo o membro avizinhado e enxerido, claro, sei disso...,

mas o mas se desfaz de mas para somente se fantasiar de porém, é ou não é?,

olha, por isso não concordo com boa parte dessa corja linguaruda espalhada por aí, voz do povo, voz do povo, pffff..., isso é bobagem, rapaz, o que há, no mais das vezes, é meia dúzia de clichês ecoados por aqueles que não sabem o que dizem, ...ou, em outras palavras e percentuais bem realistas, por meio mundo, percebe?,

todos babando as bobagens repetidas de boca em boca, é o que é, sujeitinhos sujeitados à inconsciência, num arroto pretensioso e mal disfarçado com o hálito alheio,

cospem sem saber a saliva de um desconhecido, isso quando não a engolem com gosto, estalando a língua, crentes de que a secreção brotada das próprias glândulas,

vê se pode, meu caro, o outro enfiado neles mesmos sem que nenhum dos idiotas se dê conta disso, concorda?,

em todo caso, há um tipo de clichê que se sustenta, não posso negar, porque emaranhado a outras ideias do senso comum, conformando, nas mesmices costuradas, o entendimento súbito de uma espantosa originalidade social...,

depois lhe explico o que penso disso, procópio,

sim, a história de tomás..., a do país, também,

no fascismo, um bando ecoa uma voz, ...enquanto a liberdade, meu amigo, é um coral no gogó dos indivíduos, melhorou?,

    então,   

  bem,    se o amor existe?,      olha, o troço não é tão simples, espere, você vai me entender, calma,     

  não, não,         é assim com todo mundo, poxa, uma hora o relógio da relação a dois perde os ponteiros,            aquela dúzia de números soltos estancando a existência no pulso, como se restassem à máquina do peito apenas algumas pancadas em contagem depressiva, tarja preta,         e só, 

  o indivíduo acabrunhado, ciente de que passou a vida sem fazer bosta nenhuma,

  as tais brancas nuvens, que de brancas nada têm,                o céu carregado nas costas, isso sim, tempo de nuvens escuras, prontas pra desaguar as lágrimas de uma vidinha cada vez mais atolada na mediocridade,

  ele ficou de saco cheio, aquela vidinha morna, sabe como é?,

 

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, escritor, é autor do romance “As Visitas que Hoje Estamos” (Iluminuras).

Ilustração de Deborah Paiva, artista plástica.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.