Autora narra mudança para a Itália na crise dos anos 1990

Leia trecho inédito de "Errância", livro de Francesca Cricelli que sai em 26/4

Francesca Cricelli

[SOBRE O TEXTO] O trecho nesta página integra o livro "Errância", de Francesca Cricelli. A obra compila crônicas de viagens pelo mundo, poemas e traduções. O lançamento acontece na Casa das Rosas, em São Paulo, na sexta (26), às 19h.

Deitada no escuro com a lâmpada apontada no centro do olho, perdia o sentido de localização e a percepção do tempo, entre a ausência e o excesso de luz, agarrava-me à voz martelante da retinóloga, seguia suas instruções para não ceder espaço às divagações e fantasias. Mantinha-me ocupada deslocando rapidamente o olhar em direção aos pontos cardeais. Percorremos, durante a consulta, a eternidade que separa um olho do outro, uma retina da outra. No escuro, sob a luz inquisidora, estávamos à procura de um rasgo, algum sinal de inaderência. E eu movia pendularmente os globos fatigados – de um lado ao outro.

A escritora Francesca Cricelli (em pé, de vermelho) com dançarinos em de Sichuan, na China
A escritora Francesca Cricelli (em pé, de vermelho) com dançarinos na província de Sichuan, na China - Divulgação

Estava salva. Era só o vítreo. Desprendido pelo curso natural da miopia ou pela falta precoce de colágeno, o vítreo havia cedido. E na queda, milhares de partículas dançavam no globo ocular. Uma bola decorativa com purpurina nevada, o olho direito. Descolava-se o vítreo e com ele expunha-se o desarranjo da memória. Eu já não ouvia a voz da Dra. Letícia, mas via entre seus dedos, entre suas unhas esmaltadas, a reprodução de um olho em resina e milhares de partículas desorientadas nadando dentro da maquete.

Hu Xudong carrega em sua mochila uma vasilha de plástico com ração para gatos. Toda manhã, enquanto atravessa o campus da Universidade de Pequim, onde leciona, antes de começar o seu dia de trabalho, visita os bichanos que vivem soltos entre as árvores e pedras daquele jardim infinito. Sob os pessegueiros floridos, atrás dos chorões à beira do lago, entre as colunas dos prédios da administração. Quando nasceu sua filha, teve de arranjar outra moradia para o felino doméstico e desde então mantém uma relação livre e proveitosa com os gatinhos do campus. Todos os dias após as aulas, Hu leva a filha até o lago para contarem quantos patos estão por lá. A pequena mantém uma contabilidade sobre as penas e os bicos e todos os dias observa quantos a mais ou a menos deslizam sobre as águas. Onde estarão os que hoje faltam?

Os gatos da Universidade de Pequim são tão diferentes dos que aqui vivem trancafiados com seus donos em apartamentos, onde alguns espiam tristonhos pelas redes de proteção e às vezes, à noite, entoam um lamento solitário. Os gatos do campus da Universidade de Pequim são gordos e têm o pelo grosso, sujo, a cara redonda –movem-se lentamente como antigas deidades. Há algo oracular em seus olhares. Na Islândia, também são robustos os gatos, altivos e coloridos, caminham livres e encoleirados por toda Reykjavík. São destemidos e dados, aproximam-se à procura de pernas para enroscar seus rabos. Não é preciso ter ração à altura das mãos para conquistar um gato islandês.

Era dezembro de 1991, mudamo-nos para a Itália. Quiçá em fuga da crise econômica e política, quiçá em fuga por outros motivos. Nunca há uma única razão, costumam se misturar os fatores até perder-se o fio e não haver mais uma resposta clara quando alguém pergunta: por que foram embora? Eu tinha nove anos, o limiar da idade para a aquisição de uma segunda língua com a mesma valia da língua mãe, dizem. Será? Ainda que as motivações complexas da migração familiar escapassem à garotinha de nove anos, mantinha-me orgulhosamente em pé, relatando a flutuação dos índices de inflação da era Collor. Eloquência que provocava diversão e espanto no rosto dos pais de alguns coleguinhas.

 

Eu fui na frente com o pai, a mãe seguiu dois meses mais tarde, em fevereiro de 1992. Esperamos pela sua chegada no aeroporto de Fiumicino com um maço de flores campestres e um carro novo, um carro velho, um carro lindo, o carro dos sonhos, um Talbot Solara azul cromado, vidros elétricos, a cauda comprida feito um barco. Eu confundia seu logotipo com aquele das polos Sergio Tacchini pescadas nos bancos de roupas usadas no mercado americano da cidade, mercado das pulgas, il mercato del martedì. Um carro de segunda mão com tanque a gás, era o que se tinha. Um carro de zingari que destoava em marca, cor e idade, afastando-se das pretensões da classe média italiana imersa na bonança neoliberal dos anos noventa. O veículo que me fazia sonhar, tão diferente do Fiat 127 azul marinho que tivemos, ou o Escort da Ford com teto solar, denunciava, por outro lado, a marginalidade de uma família munida de documentos e à procura de uma nova vida. Migrantes da terceira geração desembarcados numa pequena cidade ao sul de Roma onde nos esperavam uma avó e uma tia.

​A graça dos migrantes da terceira geração é que se sentem, de fato, cidadãos repatriados. É como se a narrativa dos pais e dos avós fizesse a ponte e preenchesse o hiato entre a vivência e o passaporte. Um desejo de ser italiano a todo custo porque é o que lhes dizem desde cedo. Latina já tinha sido Littoria, fundada pelo fascismo, literalmente emergida do pântano saneado, antes colonizada pela pobreza interna e oriunda do nordeste italiano, pois foram os vênetos os primeiros desbravadores, nos anos vinte do século vinte, daquele canto de mundo. Pequena e imaginária, como saída de um quadro de De Chirico, por certo com a alma ainda enraizada no pântano, suas cores iguais se repetiam esquina após esquina preenchendo linhas duras e paralelas erguidas do papel ao concreto, encarnando na urbe miúda o sonho do racionalismo italiano. Nas bocas de lobo ainda reinava o fascio, reminiscência de sua fundação, nas praças e pelas esquinas esculturas heroicas, as calçadas rarefeitas e as ruas esburacadas. Decaindo aos poucos sob a intempérie do tempo, ainda restavam as marcas da aspiração de um regime.
 

Com o tempo, a purpurina óptica assentaria na base do olho feito areia numa clepsidra. Havia de aprender a conviver com as caudas coloridas que me atravessavam a vista. Conviver com a poeira de dentro.


Francesca Cricelli é poeta, tradutora e pesquisadora. Traduziu Elena Ferrante e Igiaba Scego. Publicou Repátria (Selo Demônio Negro, 2015) no Brasil e na Itália (Carta Canta, 2017). 

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