Discurso de ódio extrapola a internet e alimenta novos monstros

Autora narra como 'inimigos da nação' e Judiciário vêm sendo atacados na Polônia

Olga Tokarczuk

[RESUMO] Na Polônia, morte de prefeito no início do ano escancarou a presença da linguagem intolerante no dia a dia, com manifestações que desumanizam ‘inimigos da nação’ e aviltamento do Judiciário.

Em Gdansk, psicólogos foram convocados para ajudar a população, tão grande foi o choque provocado pelo assassinato do prefeito da cidade, Pawel Adamowicz, em janeiro deste ano —transmitido ao vivo pela televisão no horário nobre sob o olhar de milhões de pessoas.

O homem de 27 anos acusado de matar o prefeito havia sido solto da prisão alguns meses antes. Ele planejara cada detalhe do ataque televisionado. Após apunhalar o prefeito no coração, ele gritou no microfone que matara Adamowicz para se vingar da Plataforma Centrista, partido político de oposição de centro que o teria encarcerado injustamente.

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Assassino do prefeito Pawel Adamowicz é retido no chão por policiais logo após ataque em Gdansk, Polônia - Piotr Hukalo/East News/AFP

Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas de Gdansk em 20 de janeiro para se despedir do prefeito. Houve reuniões espontâneas em outras cidades polonesas. Por uma vez, pelo menos, boa parte do país pareceu estar unida —em choque e dor.

Para compreender a situação mais amplamente é preciso conhecer o contexto. Adamowicz foi assassinado na Grande Orquestra de Natal, que há 27 anos acontece logo após as festas de fim de ano. Maior evento de caridade do país, a Orquestra recolhe dinheiro para os hospitais poloneses. Nos dias que a antecedem, as ruas ficam cheias dos corações vermelhos que as pessoas ganham em troca de seus donativos, e os poloneses tratam uns aos outros com gentileza.

Ao mesmo tempo, porém, poucos eventos são alvos de tanto ódio. Os críticos da Orquestra, em sua maioria de direita, não aprovam o estilo do evento —levemente anarquista, evidentemente de esquerda— e não gostam da música que é tocada, porque esse evento beneficente é também um grande concerto. 

As críticas se intensificaram nos últimos anos, sobretudo após a vitória do Partido Lei e Justiça, de direita, nas eleições parlamentares de 2015. Um jornalista escreveu há pouco tempo que o líder da Orquestra propagava o mal; a mídia direitista o descreveu como um “anão asqueroso”, uma marionete nas mãos de políticos corruptos.

Para a maioria avassaladora dos poloneses, porém, a Orquestra tem sido um símbolo do país que lutamos para construir desde a década de 1990 com um capitalismo tosco porém esperançoso, da Polônia que entrou para a Otan, da Polônia que votou pelo ingresso na União Europeia. A Orquestra é símbolo de três décadas de transformação civilizacional e avanços rumo a um mundo melhor, mais pacífico, próspero e livre.

A Orquestra também passou a simbolizar respeito mútuo e generosidade, nem que seja só em um dia do ano. Ela permitiu que os poloneses, de modo geral soturnos, se aquecessem ao fogo da comunidade. Eu não teria nada contra se a Orquestra se declarasse uma nação independente. Ficaria feliz em ser sua cidadã.

Conservador moderno e político excelente, Adamowicz representava tudo que o Partido Lei e Justiça não é. Apesar de tradicionalista, se opunha ao paroquialismo, com abertura plena de coração e mente. Tinha coragem rara e sensibilidade social.

Junto com outros prefeitos, Adamowicz se posicionou contra a política do governo nacional, convidando imigrantes a mudarem-se para sua cidade e prometendo-lhes apoio, trabalho e moradia. Seu assassinato representa um ataque à visão de uma Polônia liberal e progressista.

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O então prefeito de Gdansk, Pawel Adamowicz, fala ao fim de evento logo antes de ser assassinado - Agencja Gazeta/Bartosz Banka/Reuters

Poderíamos nos perguntar o que motivou o assassino de Adamowicz. As autoridades o descreveram como sendo mentalmente perturbado. Mas nenhum ato ocorre no vazio.

A televisão estatal, da qual muitos poloneses recebem as notícias, denigre constantemente, em linguagem agressiva e difamatória, a oposição política e qualquer pessoa que discorde do partido governista. O prefeito assassinado já fora tachado de ladrão, alemão, mafioso e favorável a homossexuais.

Nos últimos três anos a propaganda política na TV vem aviltando o sistema judiciário, dizendo que é prejudicial aos cidadãos e carece de uma troca completa da guarda; juízes são acusados de formar uma casta que estaria acima da lei. De sua cela na prisão, o assassino do prefeito deve ter visto essas mensagens sobre vilões e necessidade de soluções radicais.

O noticiário na Polônia de hoje parece um novo tipo de monstro, um monstro de Frankenstein que saiu do controle online e se metamorfoseou em discurso de ódio que, partindo da internet, pode ser encontrado também em todos os outros lugares. Abra seu e-mail e você lerá “você é um lixo e vai morrer”, “sabemos onde você mora”, “vamos cortar fora essa cabeça estúpida”. A violência permeia a internet.

O corpo reage às agressões verbais com reflexos. Ele se encurva, se fecha e começa a transpirar, com a adrenalina bombando. Quando isso acontece com muitas pessoas ao mesmo tempo, estamos em estado de guerra mental, onde em vez de balas disparam-se palavras. Acredito que as palavras devem ser tratadas como armas concretas, que cada invectiva ou ameaça deve ser encarada como violência e agressão.

Na Polônia, infelizmente, o discurso de ódio vem se proliferando e ninguém é responsabilizado por isso. A polícia ouve os depoimentos das pessoas e as manda embora. Esse consentimento tácito desmoraliza mentes enfraquecidas. A linguagem do ódio vem permeando o discurso público, e o rebaixamento dos padrões vem ficando mais e mais visível. Deputados postam diatribes carregadas de ódio, cientes de que, quanto maior a brutalidade e emoção contida em um tuíte, mais amplamente ele circulará.

Os populistas empregam linguagem agressiva e carregada de ódio. Procuram bodes expiatórios. Na Polônia, esses bodes expiatórios são os chamados esquerdistas malucos, pessoas que gostam de gays, alemães, judeus, fantoches da União Europeia, feministas, liberais e qualquer pessoa que dê apoio a imigrantes.

Some-se a isso o silêncio e cinismo do clero, a propaganda política agressiva e tosca difundida na televisão estatal, o consentimento da política com excessos antissemitas, as manifestações públicas que desumanizam os “inimigos da nação”, o aviltamento da autoridade do Judiciário e a imperdoável destruição ambiental, e o resultado é uma atmosfera sufocante de ódio, um impasse carregado de emoção em que só podem existir traidores ou heróis.

Em uma sociedade sadia e normal as pessoas podem discordar, podem até ter pontos de vista diametralmente opostas, e isso não significa de maneira alguma que precisem odiar umas às outras. Mas as autoridades fizeram da divisão dos poloneses sua tarefa primordial.

A agressão está no ar. As emoções desencadeadas pela escalada da linguagem do debate político podem facilmente converter-se em atos, e então essa agressão passa a se dirigir contra um alvo específico. Basta uma pessoa iludida. Quando é tensionada ao máximo, a corda arrebenta no ponto mais fraco.

Preocupo-me com o futuro imediato. Vamos voltar a como eram as coisas antes desta morte sem sentido? Ou de alguma maneira ela nos levará a refletir com mais serenidade?


Olga Tokarczuk é romancista, ensaísta e roteirista polonesa, autora de “Flights”, entre outros livros

Texto publicado originalmente no jornal New York Times. Tradução do polonês ao inglês de Jennifer Croft; tradução do inglês ao português de Clara Allain.

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