Descrição de chapéu Memorabilia

Do mito à reconstrução de Pina Bausch, por Morena Nascimento

Inspirada por Suely Rolnik, coreógrafa vê vulnerabilidade como fonte de criação

Morena Nascimento

Acredito que a razão dá conta de muito pouca coisa. A via do corpo sempre foi mais potente para mim.
Minha trajetória não é propriamente acadêmica. Hoje faço mestrado em dança na UFBA, mas ainda me sinto engatinhando nesse idioma —terminei a graduação pela Unicamp lá em 2001 e desde então caí na vida de bailarina e coreógrafa.

Depois de um período fazendo trabalhos autorais, morei na Alemanha de 2005 a 2010. A princípio buscava fazer outra graduação, na escola onde Pina Bausch havia estudado —e que ela chegou a dirigir, criando um diálogo intenso com sua companhia de dança. Foi numa audição da escola para “A Sagração da Primavera”, aliás, que as portas se abriram para que eu entrasse na companhia de Pina.

A bailarina, com o corpo parcialmente embaixo de uma mesa, que é forrada por toalha branca, bebê um copo d'água.
Morena Nascimento no último espetáculo criado por Pina Bausch, “Como el musguito en la piedra, ay si si si...” - Dennis Scharlau

Pouco depois da morte da coreógrafa, em 2009, retornei ao Brasil —tinha ficado três anos dançando na companhia e estava com muita vontade de voltar a fazer minhas próprias autorias. 

Em 2017, depois de ter virado mãe, decidi que era um bom momento para voltar aos estudos e observar minha trajetória de forma mais organizada. O mestrado propiciou uma oportunidade de olhar para meu percurso na dança de forma reflexiva: minha pesquisa é um mapeamento crítico da minha vivência como dançarina, coreógrafa e professora.

Por causa desse trabalho, tenho tido contato com textos inspiradores de autores que não conhecia. O mais importante foi “Cartografia Sentimental - Transformações Contemporâneas do Desejo” (Sulina), da psicanalista e crítica de arte Suely Rolnik. É realmente uma honra viver no mesmo tempo que ela.
Ela tem um olhar crítico devastador sobre o mercado da arte, no qual estou inserida, e me faz pensar sobre como ele configura um fazer artístico que muitas vezes se distancia da essência que nos fez buscar a arte em primeiro lugar, levando-nos a atender demandas do mercado em vez de entrar em contato com uma pulsão criativa real.

A obra chacoalha a maneira como entendemos nossa subjetividade. Segundo ela, temos duas maneiras de perceber o mundo: a cortical, que apreende informações do dia a dia e devolve respostas racionais, e a subcortical, que é mais reprimida: são os desejos, a 'sensorialidade', as coisas inúteis, que não visam produzir o dinheiro exigido pelo capitalismo.

A obra propõe desenvolver uma porosidade maior em relação à vida: deixar o sentir ser mais importante que o produzir. O alimento da arte, para Suely, é o corpo que vivencia as coisas em tempo presente, que dialoga o tempo inteiro com outros corpos vivos. Deve-se demolir a alucinação de uma realidade perfeita: o outro nunca deve ser um objeto de projeção, mas alguém que também está construindo e reinventando o mundo em tempo real.

É isso que ela chama de corpo vibrátil: essa profunda capacidade de se deixar ser atravessado pelas experiências, cujo símbolo máximo, para mim, é a dançarina Maria Esther Stockler.

Suely me inspira a pensar numa escrita de frases inacabadas, que acolhe o vulnerável. O mundo está tão alicerçado em certezas, e a autora propõe um esquecimento desse estado cheio de verdades, de modo a olhar para nosso desamparo e nossas vulnerabilidades —ressaltando como são importantes para a criação de arte.

“Cartografia Sentimental” tem sido um convite para me reconectar com aquilo que me levou para a dança; está servindo para vasculhar dentro de um baú e reinventar o que estou fazendo agora. É importante olhar para trás ao mesmo tempo em que se dá o próximo passo.

O cartógrafo, no livro, é um ser à deriva, antropofágico, que busca pistas feito um arqueólogo. A cartografia não tem conclusão. Não faz um caminho linear, mas um percurso prospectivo e retroativo: a busca por uma atualidade que converse com algo que vivi em momentos passados.

No fundo, acho que minha dissertação será uma prova de amor à dança. Mas o amor é uma coisa construída, portanto um processo cheio de conflitos e negações. Houve muita coisa dolorida e angustiante no meu processo de formação, feridas que agora quero escancarar.

O balé clássico, por exemplo, sempre foi uma ferramenta importante, mas era muito difícil para mim. Meu corpo rejeitava. O tempo de devoção a isso, contudo, me ensinou a vestir essa técnica de forma mais orgânica, respeitando as limitações do meu corpo —até que chegou ao ponto de eu amar o balé.

Minha relação com Pina Bausch, para citar outro exemplo, foi de forte mitificação num primeiro momento. Antes de eu chegar à Alemanha, ela era uma entidade inalcançável: quando vi um vídeo de sua coreografia “Café Müller” na faculdade, senti que um monstro começou a crescer dentro de mim, dizendo “preciso me aproximar disso”.

Assim que passei a ter contato com ela, iniciou-se o desmanche do mito. Até que cheguei à reconstrução de uma imagem mais realista; hoje, ela significa algo real para mim. E posso dizer que amo ter trabalhado com ela. É o processo de apaixonar-se, desapaixonar-se e reapaixonar-se. Até amar.


Depoimento a Walter Porto

Morena Nascimento é coreógrafa e bailarina, integrou a companhia alemã Tanztheater Wuppertal Pina Bausch e coreografou o espetáculo “Um Jeito de Corpo” (2018), que celebrou os 50 anos do Balé da Cidade

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