Escultura paulistana aponta novo caminho para Richard Serra

Rodrigo Naves reflete sobre obra instalada nos fundos do IMS, em São Paulo

Rodrigo Naves

[RESUMO] Crítico de arte discorre sobre a obra de autoria do escultor americano que foi instalada nos fundos do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, com duas lâminas de aço grandiosas —cercadas por um muro negro que ‘parece mais uma calça apertada do que um volume a ser questionado’.

lâminas de aço de 18 metros
Escultura ‘Echo’ (2019), de Richard Serra, instalada no IMS Paulista - Cristiano Mascaro/Instituto Moreira Salles

Em fevereiro deste ano foi instalada no Instituto Moreira Salles de São Paulo a primeira escultura pública da América Latina produzida pelo artista norte-americano Richard Serra.

“Echo”, como foi batizada, envolve duas lâminas de aço paralelas, com uma sutil inclinação entre elas. Têm 18 metros de altura e 162 toneladas de peso. Essa peça grandiosa, porém, foi pensada pelo artista para um terreno, aos fundos da construção principal, de apenas 150 metros quadrados.

Acredito que “Echo” —como “Ballast” (2005) e “Promenade” (2008)— seja possivelmente a escultura de Serra que mais conquista potência e significado pela sua verticalidade.

Não se trata mais —ao menos predominantemente— do equilíbrio instável de “Joplin” (1970), uma peça que considero um de seus pontos altos, ou da vertigem produzida por suas “Elipses Torcidas”. Nelas, nossos apoio e extremidade superior não são equidistantes do aço torcido. E isso faz com que a mensuração corporal dos trabalhos falhe e, consequentemente, nosso equilíbrio.

Várias “colunas” de Serra, em Amsterdã, Londres, Bochum também tiram partido da verticalidade, mas o fato de as lâminas se apoiarem umas nas outras reduz sua ascencionalidade e acentua a instabilidade do que seria um marco ou um lugar cuja memória deveria ser conservada.

Penso também que o aspecto mais relevante desta escultura não é sua intervenção no espaço dado. A altura acentuada da escultura faz com que sua realidade estética seja mais visual do que corporal ou espacial. O muro negro que cerca o local parece mais uma calça apertada do que um volume a ser questionado.

Os edifícios circundantes —todos a prumo e comportados— talvez acentuem a inclinação entre as duas lâminas. Não a ponto de manterem uma tensão com “Echo”. No entanto, o trabalho tem potência. E a meu ver ela deriva, como já mencionei, de um elemento novo na obra de Serra: a verticalidade.

Para um escultor moderno ou contemporâneo, o espaço, o ar e o céu são um desafio quase insuperável. Por quê? Basicamente devido ao fato de que no espaço do céu não há termos de comparação. E, portanto, escala. Para alguém medianamente atento, a distinção de tamanho entre um Boeing e um aeromodelo é praticamente impossível, a não ser quando o costume já nos ensinou por onde passam as grandes aeronaves.

A poderosa ascensão de uma lâmina de 15 cm de espessura por 18 metros lembraria algo como um monumento à escultura. E então Serra não seria o artista contemporâneo que é. Monumentos foram concebidos para apequenarnos diante de heróis ou feitos históricos. “Echo” nos eleva.

A extraordinária “Coluna Infinita”, do escultor romeno Constantin Brancusi, tem 30 metros, obtidos pela montagem de 15 módulos romboides fundidos em ferro, cada um mais ou menos da altura de um ser humano médio, 1,70 metro. Eles se sustentam por uma haste, em que os módulos são colocados como as contas de um colar.

Esse trabalho, tão apreciado por Serra, não é uma otimista e unívoca conquista das alturas. Por ser toda interrompida, com uma aparência quase serrilhada, a coluna de Brancusi, pergunta-se, talvez de forma inaugural, sobre como conquistar a altura, sem torná-la monumento.Vista de alguns ângulos, ela parece serpentear, como uma força animal, orgânica, que aspirasse à luz, ao sol. De outros ângulos, ela parece sustentar a abóbada celeste.

Estou convencido de que, neste trabalho, Richard Serra abriu-se generosamente para um novo caminho. As duas lâminas oscilam sutilmente entre si, como que buscando impulso uma na outra, já que têm uma pequena diferença de inclinação. Não se verticalizam arrogantemente. Sabem que dependem uma da outra para superar a tradição triunfal, do monumento.

Acredito que um pouco mais de espaço do terreno ajudaria a ressaltar esse aspecto novo para a arte contemporânea. Um pouco mais de vazio ajudaria a sentir melhor o contraste entre leveza e massa. Então elas ascenderiam sem propulsão. Mas perguntando pela altura. Aqui se afirma que o peso da vida é condição de liberdade.

Como escreveu o alemão Gottfried Boehm, Serra nos ensina que nossa única esperança está em aceitarmos nossos limites ou, na versão de Camus, “é preciso imaginar Sísifo feliz”.


Rodrigo Naves, crítico de arte e professor, é autor de “A Forma Difícil” e “O Vento e o Moinho” (ambos pela Companhia das Letras).

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