Descrição de chapéu Leonardo da Vinci, 500

'Mona Lisa' tem rotina de selfies, lágrimas e decepções em Paris

Como é o dia a dia da pintura mais enigmática de Da Vinci, cuja morte faz 500 anos

sala da mona lisa

Público de visitantes diante da "Mona Lisa", no Museu do Louvre, em Paris Gardel Bertrand/hemis.fr/AFP

Lucas Neves

[RESUMO] Do turbilhão de selfies às cenas de decepção, como é a rotina parisiense da "Mona Lisa", a pintura mais enigmática de Leonardo da Vinci —cuja morte completa 500 anos nesta semana.

Para comemorar seus 60 anos, a médica Hollis Carpenter cogitou passar uns dias em um balneário ou visitar mais uma vez Nova York. Até que se lembrou de “April in Paris”, standard dos anos 1930 gravada pela realeza da canção americana (Sinatra, Fitzgerald, Armstrong...). 

Batata. O hino ao hedonismo da capital francesa lhe inspirou um destino distante 7.000 km de sua casa, no Tennessee (sudeste dos EUA). Com a ajuda da sobrinha, que se ocupou das reservas de voo e hospedagem, além de acompanhar Hollis na viagem, ela celebrou a data na manhã do último dia 15 diante da “Mona Lisa” de Leonardo da Vinci, no Louvre. 

Aos prantos, parecia alheia ao burburinho do lugar, maior do que de costume —era segunda-feira, afinal, dia de casa especialmente cheia por causa do fechamento semanal de alguns outros ímãs de turistas em Paris. (A dica, aliás, é passar por lá nas chamadas “noturnas” de quarta e sexta-feira, quando o horário de funcionamento se estende até as 21h30; a última meia hora pode, com alguma sorte, reservar um tête-à-tête sossegado com a pintura).

“É emocionante. Ele e Michelangelo foram gênios de um tipo que nunca voltará a existir. Fizeram tudo aquilo séculos atrás, sem as técnicas que conhecemos hoje”, disse, com gestos agitados. “Pode até ser que alguns pigmentos tenham perdido o brilho, mas a elegância sutil do retrato continua intacta. Olhe para ela e olhe para um Picasso. Quem é que tem uma sala de museu só para si?”.

Monalisa em xilogravura
Ilustração de capa - Alexandre Teles

A bem da verdade, a tela de miúdos 77 cm (altura) por 55 cm (largura) é apenas temporariamente a estrela solitária da imensa Sala dos Estados (de 840 m² de superfície, com 13 m de pé-direito), a mais ampla do prédio. Nem o imponente “Casamento em Caná” (6,77 m x 9,94 m, maior pintura da coleção), de Veronese, pendurado há anos na frente da “Mona Lisa” e vez por outra capaz de surrupiar dela alguns olhares e suspiros, está em exibição agora.

O espaço está sendo preparado para receber, a partir de outubro, uma seção da retrospectiva com que o Louvre saúda os 500 anos de morte de Da Vinci —o dia exato da efeméride é 2 de maio. Muitos dos 10 milhões de visitantes anuais que fazem desta a galeria de arte mais frequentada do mundo não se importam com a nudez das paredes beges que abraçam o quadro-fetiche.

Pelo contrário: usam-nas como encosto para descansar depois do empurra-empurra das sessões de selfies, enquanto estudam o mapa do museu para definir os próximos passos (agora que a “obrigação” foi cumprida) ou fazem chamadas de vídeo para relatar a quente suas impressões sobre o cara a cara com o ícone.

(Sobre as selfies, vale um aparte em torno das poses preferidas —de perfil, ok, mas fazendo biquinho, por quê?— e da compulsão pelo clique perfeito. Só essa última para explicar por que, numa recente manhã de sexta-feira, um casal de Curitiba passou 15 minutos alternando mão espalmada segurando a Mona Lisa/polegar e indicador em L, enquadrando a tela/arminha de Bolsonaro.)

Além de lágrimas como as de Hollis Carpenter e do batalhão de celulares, tablets e minicâmeras nas alturas —cena completada pelo indefectível gesto de afastamento dos dedos polegar e indicador sobre a tela, para dar “zoom” na imagem a ser captada—, o retrato da burguesa florentina do século 16 Lisa Gherardini costuma testemunhar pedidos de casamento, sobretudo em torno do Dia dos Namorados no hemisfério Norte, 14 de fevereiro.

Há também os astutos que, para contemplá-la mais de perto, alugam cadeiras de rodas na entrada do museu. Em teoria, só cadeirantes e pequenas classes de maternal podem entrar no “perímetro VIP”, do lado de lá do cordão de isolamento que detém a multidão eufórica.

Uma funcionária que há oito anos integra o time de “guarda-costas” da obra conta que há sempre quatro deles em serviço (dois de cada lado), estafe a que só a “Mona Lisa” tem direito no Louvre. 

A fauna do recinto inclui um guia diletante que aparece nos dias em que o museu fica aberto até mais tarde para testar se lições de história da arte e paquera são compatíveis; uma trupe de batedores de carteira; e um ou outro desinibido decidido a disputar o protagonismo com a vetusta senhora enquadrada.

Foi o caso, em 2017, da performer luxemburguesa Deborah de Robertis. Em 15 de abril, aniversário de Da Vinci, ela decidiu “tirar ‘Mona Lisa’ de sua mudez”. Para isso, despiu-se discretamente, caminhou nua pela sala (já sob os acordes de um violino) e, finalmente, postou-se bem à frente da figura, pernas escancaradas.

O anedotário monalisiano compreende também cenas de violência, como a da mulher que, em 2009, atirou uma caneca, comprada no próprio museu, na direção do quadro. Protegido por uma vitrine espessa e à prova de bala, ele nem arranhão sofreu. Mais de 50 anos antes desse incidente, em 1956, a pintura havia sido visada duas vezes, uma com ácido, a outra com uma pedra. Na esteira dos ataques, ganhou seu primeiro invólucro hermético.

No espectro mais comedido de reações ao primeiro encontro com “Mona Lisa”, a mais comum é a decepção com a pequenez da tela, apesar de a estrutura que a envolve (muro alto, grande cobertura envidraçada) dar ao conjunto ares de altar pagão.

Foi o que sentiu Danni Zhang, 26, estudante chinesa de medicina, em uma tarde de sábado de abril. “O jogo de sombra e o conceito são bons, mas achei a tela pequena demais e superestimada. Para que tanto espaço para algo minúsculo? Que desperdício!”

Há também quem implique com o “desbotamento” da “Mona Lisa”, seus tons esmaecidos. A fragilidade de seu suporte (um painel de álamo de 13 milímetros de espessura), porém, torna toda restauração temerária, segundo especialistas. 

Dito isso, mesmo na ala do “não entendo o que tanto se vê nela”, é difícil cruzar com alguém que não tenha, por alguns segundos que seja, se entregado ao jogo especulativo sobre a androginia de Lisa Gherardini, seu estado de ânimo, o incômodo (ou a mal disfarçada vaidade) com a posição de modelo, o sorriso oblíquo.

“Ela tem um quê místico”, diz a estudante indiana Aliwa Anas, 16. “Reflete as emoções de quem a contempla. Se você está feliz, ela vai parecer estar sorrindo. Se está triste, idem.”

Essa aura foi sendo sedimentada ao longo do século 20, com a ajuda decisiva da cultura pop. Depois da “Mona Lisa” bigoduda e lúbrica de Marcel Duchamp, vieram os “clones” multicoloridos de Andy Warhol. Entre os dois, e seguindo até hoje, um carretel de apropriações pela literatura, mas sobretudo pelo audiovisual —em filmes de ficção, documentários, videoclipes e programas de TV “investigativos” que prometem desvendar enigmas do quadro, os esboços escondidos sob sua epiderme— e pela música.

Nat King Cole (1919-1965) se consagrou como voz ímpar, para além de ás do piano, muito por sua interpretação de “Mona Lisa”, que liderou as paradas da Billboard por oito semanas em 1950 e levou o Oscar de melhor canção (do filme “Missão de Vingança”, de 1949).

Mais recentemente, Madonna compôs uma faixa, para um longa-metragem que também dirigiu, com citações à obra de Da Vinci. Já o guitarrista e compositor Carlos Santana lançou, em janeiro, o EP “In Search of Mona Lisa” (à procura da Mona Lisa), inspirado pelo transe que diz ter experimentado ao se deparar pela primeira vez ao vivo com o retrato. 

A reverência se estende aos registros visuais de canções. Em 2013, a produção do clipe de “Smile Mona Lisa”, de will.i.am, teve livre acesso para filmar a tela e outros tantos trabalhos do museu parisiense. Quer dizer, livre mediante pagamento de um cachê que, segundo uma tabela de 2015, chegava a 15 mil euros e variava segundo a natureza (publicidade, reportagem de TV, filme de ficção, documentário, peça institucional, trabalho estudantil...) da filmagem.

E, é claro, não nos esqueçamos do incensado “Apeshit”, do casal Beyoncé e Jay-Z, lançado em meados de 2018, que acumula 168 milhões de visualizações no YouTube.

Ao Louvre interessa o horizonte de rejuvenescimento institucional aberto por essas parcerias, o selo “cool” conferido pela reverberação, em salões centenários, do discurso tão século 21 de empoderamento e defesa da diversidade.

Foi também no sentido de ampliar seu alcance que o museu se aliou recentemente a uma plataforma de aluguel residencial por temporada, o Airbnb, para organizar um concurso que promete ao vencedor uma noite a sós com “Mona Lisa”. 

Na verdade, trata-se de um coquetel diante da tela, seguido de um jantar aos pés da “Vênus de Milo”, esta uma das poucas obras do acervo capazes de rivalizar com a madame florentina no interesse popular. 
Mas quem escolhe é a “Mona Lisa”: os interessados tiveram de explicar por que se consideravam o “convidado ideal” da mulher do comerciante de seda Francesco del Giocondo, ou La Gioconda.

Segundo a empresa, 182 mil pessoas se candidataram ao encontro. Em termos de representações nacionais, 25% dos postulantes são franceses e outros 25%, americanos ou canadenses. Os brasileiros responderam por 2% das inscrições.

“Não há lugar na arte para privilégios”, inquietou-se a médica Hollis Carpenter, da abertura deste texto, ao saber do concurso. “O vencedor e seu convidado vão ficar bêbados, descontrolados e irão machucar a ‘Mona Lisa’.”

Menos apocalíptico, Christophe Rioux, especialista em indústrias culturais e criativas do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), diz que a transformação do Louvre tanto em set de filmagem quanto em cenário para uma ação de marketing de uma empresa comercial se insere em uma mudança mais ampla de paradigmas para museus.

“Eles antes eram santuários invioláveis. Agora, estão descendo do pedestal, tornando-se mais acessíveis”, afirma. “As grandes instituições culturais entraram na era do marketing experiencial, em que é preciso oferecer um absoluto, uma imersão.”

Segundo o professor, nesse processo, os museus viram algo diferente de endereços nos quais se exibem obras de arte. Passam a ser centros gastronômicos e marcos arquitetônicos, por exemplo. “A questão é se isso gera dividendos em termos de bilheteria”, pondera Rioux. “Essas iniciativas impulsionam a audiência na internet, nas redes sociais, tornam as instituições mais ‘instagramáveis’, um imperativo para existir online hoje. Mas tenho dúvidas sobre a conversão de internautas em visitantes de carne e osso.”

Para o professor, o apelo da noite a sós com “Mona Lisa” prometida pelo concurso é de ordem quase psicanalítica. Trata-se de um rapto simbólico, de subtraí-la do mundo para oferecer sua contemplação, por algumas horas, a um admirador exclusivo, devoto.

Mas não foi por um capricho estético que, em 1911, o italiano Vincenzo Peruggia roubou de modo concreto o retrato. À época, circulou a versão de que ele levara embora a tela por razões patrióticas: queria devolvê-la ao país em que fora pintada, entre 1503 e 1506 (segundo historiadores, Da Vinci a vendera ou a oferecera em 1518 ao rei Francisco 1º, que o havia convidado no ano anterior a se instalar na corte francesa).

Na verdade, o que Peruggia queria era lucrar com o furto. Mas foi pego de calças curtas em 1913, ao tentar negociar a obra com um antiquário florentino, que avisou a polícia. Acabou preso. Em agradecimento à participação da Itália na elucidação do crime, a “Mona Lisa” fez um tour por Florença, Roma e Milão antes de regressar ao Louvre.

Propriedade do Estado francês, ela nunca foi a leilão, mas estima-se que seu valor de mercado esteja entre 1 e 2 bilhões de euros, muito acima da soma recorde de 450 milhões de dólares paga em 2017 pelo “Salvator Mundi”, também assinado por Leonardo da Vinci.

Segundo o historiador da arte Noah Charney, que escreveu um livro sobre o furto da pintura (“The Thefts of Mona Lisa”, ou os roubos de Mona Lisa, assim mesmo, no plural, já que inclui versões fantasiosas do episódio), a fama dela remonta ao século 16, ainda poucos anos depois de ser realizada.

 
O escritor e artista italiano Giorgio Vasari (1511-1574), biógrafo de colegas de ofício, estabeleceu as bases do culto a Da Vinci e Michelangelo. No século 19, o fascínio dos ingleses pela produção da escola florentina ampliou o fã-clube. Mas foi mesmo a audácia do larápio Peruggia que, já no começo do século 20, elevou o encantamento à escala planetária.

“O furto, noticiado em jornais estrangeiros e tratado como um escândalo, adicionou à mítica da ‘Mona Lisa’ um elemento de investigação criminal, que cativa mesmo quem não se interessa por arte”, diz Charney. “Até ali, ele era apenas um entre vários quadros bonitos e célebres do Louvre.”

Para o historiador, o que hoje leva milhões de pessoas por ano a encarar filas e aperto para vê-la (e, claro, fotografá-la) de perto é o desejo de exibir sofisticação intelectual a seus círculos de relacionamentos. A tela funciona, assim, como um marcador social, um certificado de erudição.

“No fundo, não há nada ali melhor ou mais interessante do que em outras pinturas de Da Vinci. Muita gente irá concordar, por exemplo, que sua ‘Dama com Arminho’ [1489-90, hoje no acervo do Museu Nacional da Polônia] é uma obra superior.”

Avaliação que, aparentemente, não impede o culto à personagem de se espraiar, na lojinha ao lado da Sala dos Estados, por todo tipo de badulaque: caneca, bolsa ecológica, baralho, meia, cubo mágico, manteiga de cacau, pastilha de menta... As campeãs de vendas são as pechinchas: medalhinha dourada com a silhueta da musa em alto relevo (2 euros), caneta (2,50 euros) e ímã de geladeira (3,90 euros).

Nenhuma quinquilharia, é claro, chega perto de reproduzir a força pictórica da matriz, em que Da Vinci exibe sua perícia na técnica do “sfumato”, sobreposição de camadas finas de tinta translúcida para criar efeitos de luz, sombra e perspectiva, além de suavizar as transições entre linhas, formas e volumes de uma composição.

Depois de adquirido pelo monarca Francisco 1º, o quadro permaneceu nas coleções reais até a fundação do Louvre, no final do século 18. No ínterim, “Mona Lisa” passou temporadas nos palácios de Versalhes e de Fontainebleau. Apenas dois anos depois de entrar para o acervo do museu, a tela foi confiscada por Napoleão Bonaparte para seus aposentos no Jardim das Tulherias, ali ao lado. Em 1804, ano em que ele se proclamou imperador da França, o retrato voltou à galeria.

A Sala dos Estados que Mona Lisa chama de lar desde 1966 tira seu nome de sua função original. Ali acontecia, entre 1859 e 1870, sob Napoleão 3º, a abertura das sessões legislativas. Mais adiante, o espaço abrigou obras monumentais da escola francesa do século 19. O esplendor do Renascimento italiano veio substituir Ingres, Delacroix, Manet e cia. em meados do século 20.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), a pintura foi escondida em cinco localidades diferentes da França para não cair em mãos nazistas. Em tempos de paz, viajou para os Estados Unidos (1963), como gesto de agradecimento francês à participação americana no front, e o Japão (1974), com escala em Moscou.

Apesar de todos os cuidados que a cercam —controle infinitesimal de luz, umidade, temperatura e até ruído em sua redoma—, a obra dá sinais de fragilidade. O suporte se curvou pela ação do tempo, e uma fenda se abriu no canto esquerdo da face traseira. Por causa disso, “Mona Lisa” faz seu “check-up” anual não no laboratório do museu, mas na própria sala em que é exibida. Ninguém quer correr riscos.

Além dos restauradores, a personagem tem encontros periódicos com um séquito de admiradores disciplinados. Uma delas é a enfermeira aposentada Linda Fouche, 69, de Connecticut (EUA). No dia 15 de abril, ela foi ter com a burguesa florentina pela sétima vez, 36 anos depois de se conhecerem.

Cada vez que um filho seu completa 40 anos, Linda o apresenta à distinta senhora. Em 2019, a honra coube à terceira e última, a assistente educacional Anna Shatzer. Os outros vieram em 2013 e 2015. “Meu lance, na verdade, é com a [escultura grega] ‘Vitória de Samotrácia’ [também no Louvre]”, confidencia, a meia voz.

Agora, Linda quer repetir o ritual com os netos. “Mas não precisamos esperar que eles façam 40, né, mãe?”, interrompe Anna.

“Mona Lisa” já tomou nota do compromisso.


Lucas Neves, correspondente da Folha em Paris, foi editor-adjunto da Ilustríssima e de Mundo.

Ilustração de Alexandre Teles.

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