Descrição de chapéu Memorabilia

Para Ruy Ohtake, arquitetura deve dar saltos contra a estagnação

População gosta muito dos meus trabalhos, mas os arquitetos, não, diz arquiteto

RUY OHTAKE

Eu me interessei por “A Lógica do Cisne Negro”, de Nassim Taleb, porque o foco do livro é a incerteza. A ideia de exceção é mais familiar para mim, apesar de o autor não usar essa palavra. Ele tem certo desprezo pela regra geral e diz que a história avança em saltos —a evolução não é linear.

Taleb afirma que, em cinco ou dez anos, o mundo teve 40 dias importantes, e muitos desses acontecimentos foram absolutamente imprevisíveis. O resto foi o dia a dia normal, que não desperta o interesse dele. Ele tem essa atitude de não se conformar com o que está instalado.

Acho que dois projetos meus —o Hotel Unique e os “redondinhos” de Heliópolis— marcam saltos na arquitetura paulista. Nesse ponto, eu me identifico com as percepções de Taleb para pensar a arte e a arquitetura.

De costas, Ruy Ohtake desenha seus móveis com giz em parede de lousa.
Ruy Ohtake desenha em parede de lousa um de seus móveis - Divulgação

Considero que a arquitetura contemporânea brasileira começou quando Oscar Niemeyer fez o projeto da Igreja da Pampulha, inaugurada em 1943 em Belo Horizonte.

Até então, a arquitetura do país estava muito tranquila, fazendo o neoclássico. Isso começou a mudar na década de 1930, quando Le Corbusier veio ao Brasil e fez, em 1936, o projeto original do Ministério da Educação e da Saúde no Rio de Janeiro.

Houve um problema com o terreno escolhido, e Lúcio Costa coordenou a equipe brasileira, da qual Niemeyer fez parte, que adaptou o anteprojeto de Le Corbusier. O Brasil estava praticamente sem comunicação com a Europa por causa da guerra, e os brasileiros tiveram liberdade para fazer mudanças no projeto, como aumentar a altura dos pilotis.

No começo dos anos 1940, quando Juscelino Kubitschek era prefeito de Belo Horizonte, Niemeyer foi indicado para projetar algumas obras da lagoa da Pampulha. Oscar fez o projeto com rapidez, e Juscelino ficou entusiasmadíssimo quando viu os desenhos.

O modernismo criado por Le Corbusier se baseava em alguns princípios fundamentais, como o térreo com pilotis, o teto-jardim e fachadas limpas e enxutas. Já Oscar usou curvas para fazer a capela, e elas não são iguais. Além disso, a torre não sai da igreja, não é reta e vai ficando mais larga com a altura. Ele fez uma coisa que o mundo não conhecia. Não era uma ramificação do modernismo de Le Corbusier, era coisa nova que ainda não tinha definição.

Na década seguinte, Niemeyer foi mais uma vez convocado por Juscelino —dessa vez, para projetar os mais importantes prédios do Plano Piloto de Brasília, desenhada por Lúcio Costa. Uma cidade assim também não existia no mundo.

Nessas duas décadas, começou a se fazer essa arquitetura contemporânea, não a partir do modernismo proposto por Le Corbusier, mas a partir do trabalho original dos brasileiros. Para mim, essa arquitetura brasileira tem a ousadia do traçado, a surpresa e a inovação como características.

Em São Paulo, as obras construídas nos anos 1950 e 1960 —Copan, FAU-USP, Masp e marquise do Ibirapuera, por exemplo —são até hoje lembradas como as mais representativas da arquitetura da cidade. De lá para cá, não houve obras do mesmo quilate, por vários motivos.

Um deles é que o modernismo foi mal absorvido. Nos últimos 60 anos, a arquitetura ficou tímida porque faltaram os três elementos —ousadia, surpresa e inovação. Muitos projetos quadrados e geométricos passaram a se repetir em São Paulo, com pouca sensibilidade criativa.

Eu me formei em 1960 e comecei a interferir nesse desenvolvimento. A partir dos anos 1970, inspirado por Niemeyer e Aleijadinho, comecei a usar de forma mais ousada curvas e cores, que a arquitetura paulista, muito certinha e contida, não usa muito.

A cor é do Brasil: nossas cidades preservadas, como Paraty e Olinda, são todas muito coloridas, e nós ficamos cem anos construindo em tons cinza claro e bege claro. Fui colocando cores nos meus projetos —vermelho, amarelo, azul —todas fortes. Cor, para mim, não pode ser de tom claro, tem que ter personalidade.

A população gosta muito dos meus trabalhos, mas os arquitetos, não. No começo, eu ficava preocupado porque a inteligência da arquitetura levantava polêmica. Há um establishment aqui, e eu dei um passo à frente. Todo rompimento no que está instalado gera polêmica com quem está na vanguarda, mas a arte e a arquitetura avançam em saltos.

Hoje, acho que estou no caminho de contribuir com a arquitetura contemporânea brasileira. Em todas as minhas obras, me preocupo com a liberdade criativa, a surpresa e a inovação. Acho que meu desafio é dar continuidade à arquitetura do país, e não ficar estancado como ficamos em São Paulo.


Ruy Ohtake é arquiteto e designer de móveis.

Depoimento a Eduardo Sombini.

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