Descrição de chapéu Perspectivas

Por uma poesia com direito à seriedade e ao enigma

Em resposta a artigo, autora afirma pluralismo da cena literária brasileira

Ligia Gonçalves Diniz

A quem serve atribuir à poesia brasileira contemporânea o “cenho franzido” que Mariella Augusta Masagão acusou em seu artigo na Ilustríssima do dia 14 de abril? Essa é a segunda pergunta que vem à mente após ler o texto. A primeira: a que ponto pretende chegar a pesquisadora ao partir da leitura de um punhado de poetas para propor, sem realmente encará-lo, um suposto estado desanimado da produção lírica atual?

O suposto estado: a poesia produzida no Brasil hoje teria abandonado o “típico humor dos poetas brasileiros” em prol de um desejo de “dizer a verdade, nada além da verdade”. Ao que me parece, se é para ser generalista, a lírica quer dizer a verdade desde que Arquíloco abandonou seu escudo em meio à batalha, lá no século 7 a.C..

A escritora Laura Eber posa para foto na FLIP.
A escritora Laura Erber - Divulgação

Transforma-se a concepção de verdade; permanece o afã de tentar chegar perto de uma dimensão mais real das coisas do mundo.

Há latente, no artigo de Masagão, uma nostalgia de um tal humor típico da poesia moderna (mas e João Cabral? E Cecília Meireles?), que é pouco generosa com a produção contemporânea. Primeiro, porque chamar séria demais uma produção que conta com nomes como Fabrício Corsaletti, Adelaide Ivánova, Érica Zíngano ou mesmo Luci Collin é, para dizer o mínimo, preguiçoso. Depois, porque é uma observação estéril, que beira o ressentimento. Manifesta-se um vício acadêmico de deter o privilégio de se saber entendedora da piada —e para quê?

É improdutiva a proposta de ler poesia por esse caminho, como se o ideal fosse agir como as plateias dos filmes antigos do Woody Allen, que se regozijavam em entender não só a graça, mas a melancolia subjacente à graça, e que sabiam que o certo não era rir, mas sorrir inteligentemente.

De resto, se o caminho encontrado hoje pela poesia brasileira para tentar sintonizar a realidade for mesmo muito sério, não seria mais produtivo investigar se esse traço diz algo sobre o nosso tempo, em vez de configurar simples falha ou exagerada circunspecção dos poetas? E por que gritar que é difícil, insondável, voltada a si mesma uma produção que já carece tanto de leitores?

Afinal, a poesia atual não é, diz Masagão, apenas “sisuda”; ela é enclausurada em uma “sinceridade enigmática”, de caráter deliberadamente impenetrável. Ela cita Marília Garcia e Alice Sant’Anna para apontar uma produção grave e hermética, qualidades que dificilmente seriam atribuídas a essas poetas por quem não enxergue a lucidez senão pela lente do cinismo —cinismo que, de fato, parece estar um pouco distante de nossa poesia (o que é, aliás, um respiro).

O que mais soa deslocado, no artigo da pesquisadora, é o tratamento tão pouco poético do tal hermetismo, sobrecarregado pela ideia de que nossa lírica atual seria, ainda, hermética do jeito errado. 
Traços de diáfano, de inebriante, de harmoniosamente musical ainda seriam aceitáveis, mas encerrar o cotidiano mais banal em formulações em que o mínimo é recortado e recosturado em prismas menos palpáveis? Em que o ritmo é fragmentário, sujeito ao espacial, e cosido em tom menor? Isso é trair a tradição! Questiono, porém: por que não trair a tradição? Não é isso que a poesia sabe fazer de melhor?
Ademais, acusar de ser hermética uma poesia rica em sua imagética é tão somente uma recusa em ver a linguagem como apelo não ao sentido racionalmente forjável, mas à imaginação e às sensações. Se nosso enigma contemporâneo é mesmo tão pouco grandiloquente, isso não configura, precisamente, um eficaz apelo ao compartilhamento de afetos? 

O convite, afinal, não é àquela turma que capta a piada, mas a quem reconhece nesses elementos muitas vezes dispersos que compõem o cotidiano um modo de atingir certo espaço e tempo em suspenso e, assim, um outro modo de existir no mundo, despregado da lógica prosaica.

Talvez a poesia brasileira contemporânea seja cada vez mais influenciada pela poesia do século 20, mas num viés menos... brasileiro. Os poetas de hoje, ao lado de Drummond, leem Celan, Tsvetaeva, O’Hara, Helder, Amichai... Não dialogam apenas entre si, como o artigo de Masagão parece sugerir. 

E, do mesmo modo, não é apenas (a ótima) Júlia de Carvalho Hansen quem alinha simplicidade e erudição. Há viés paulistano na eleição de certos e errado da pesquisadora, que ignora nomes como Nina Rizzi e Thiago Camelo, em cuja poesia transparece também certa doçura melancólica sem mau humor, ou Mônica de Aquino e Marcelo Ariel, em quem a erudição não implica arrogância nem rabugice.

Com condescendência, Masagão reconhece que ficou difícil escrever poesia em português depois de Pessoa e, por extensão, depois de Bandeira e Drummond. Fica mais difícil também escrever em português depois de Laura Erber e Guilherme Gontijo Flores. Mas essas são dificuldades fecundas. Difícil é encarar o ofício poético diante de uma crítica que exige filiações e estados de espírito adequados. 

Conheço jovens de 19, 20 anos que começam a escrever boa poesia e se afligem porque seus amigos, habituados a procurar na linguagem a lógica da prosa, “não entendem” uma disposição de palavras em que os elementos do mundo são reconfigurados de modo a disparar imagens e sensações, e não apenas significados. Tudo de que não precisará essa nova geração é que se lhes exija, além de tudo, que provoquem espertas risadinhas.


Ligia Gonçalves Diniz é doutora em literatura pela UnB, pós-doutoranda na UFMG e autora de “Imaginação Como Presença: O Corpo e Seus Afetos na Experiência Literária" (Editora UFPR, no prelo).

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