Em novo romance, monge milagreiro explora África na Idade Média

Leia trecho inédito de 'O Santo', do argentino Cesar Aira, que a Rocco lança em junho

Cesar Aira

[SOBRE O TEXTO] Os trechos abaixo fazem parte do romance “O Santo”, de Cesar Aira, que a editora Rocco lança em junho. A trama situada nos últimos anos da Idade Média narra as peripécias de um monge italiano durante viagem ao continente africano.

Um monge abraça uma garota.
Ilustração para seção Imaginação - Ilustríssima - Fido Nesti

O monge de outrora tinha se tornado uma celebridade. Operava milagres, não todos os dias, mas com chamativa frequência. E se às vezes passavam anos sem que operasse nenhum, a confiança que se depositava em seus poderes e o correspondente prestígio não desvaneciam. Ainda que esses lapsos de inação cobrissem muitos, muitíssimos anos. Ao contrário: os relatos de seus feitos milagrosos se magnificavam com o tempo, que lhes dava um polimento lendário, desafiando a incredulidade.

Como resultado desta capacidade prodigiosa de alterar os processos comuns da lei natural era tido por santo, mediador privilegiado nas decisões da Onipotência celeste, curador e reparador. Os fiéis acudiam de lugares próximos e distantes para requerer sua bênção ou a imposição de sua presença. Peregrinos individuais ou grupos organizados (que bem podiam ser aldeias inteiras acossadas por uma catástrofe ou pela má sorte) venciam grandes distâncias atraídos por um renome cujo raio de ação não respeitava rios nem montanhas.


Multidões de entrevados, leprosos e empestados estacavam diante dele. Também os desesperados, os estéreis, os abandonados. Punham a seus pés males visíveis e invisíveis, uns e outros encarnados em flores da dor. Ele operava a partir da indiferença e da distância. Quem era? O que era? Ele não os conhecia sequer. Tinha construído a santidade a partir de dentro, a partir do exemplo e da oração. As visões o envolviam. 

Beijaram-se, nas sombras desse mundo encantado. O beijo ocultava-os de todo o mundo, ou seria por que ninguém no mundo se importava? Poliana tinha dito que, mesmo quando havia renunciado a formar uma família, não havia se privado de experimentar a paixão, a maioria das vezes com estrangeiros de passagem. Seus súditos, dizia, ainda que capazes de brindá-la com toda a satisfação sexual que solicitasse, eram seres grosseiros, primitivos, dos quais não se podia esperar nada depois do último estertor do orgasmo. O santo, pelo pouco que havia visto do país, tinha tido a impressão contrária, de seres refinados e de uma particular delicadeza no trato. Mas não quis discutir: já estava aprendendo que Poliana era dessas pessoas que se aferram de uma vez por todas a suas opiniões.

O membro viril do santo foi objeto de uma contradição que causou, para ele mesmo, não pouca intriga. Depois das grandes ereções, às vezes vermelhas e furiosas, voltava ao seu estado normal. Ao menos ele achava que era assim. Mas Poliana, montando nele com risadas e rubores, exclamava: Nunca vai descansar, esta vara do diabo?! E agia como se a ereção persistisse, coisa que no embrulho dos corpos era impossível de comprovar mas, a julgar pelo que estava acontecendo, era verdade. O santo sabia que nas questões antes sutis da relação sexual era difícil decidir, pelo choque de interpretações ou pelas diferentes acepções das palavras empregadas. Mas uma ereção era o que menos se prestava ao ilusionismo. Era ou não era, e a intensa materialidade que era sua essência não brincava às escondidas.


Cesar Aira é escritor e tradutor argentino. Publicou, entre outros, “Como me Tornei Freira” e “Os Fantasmas”.

Tradução de Joca Wolff,  doutor em teoria literária pela Universidade Federal de Santa Catarina, é professor e tradutor.

Ilustração de Fido Nesti, artista gráfico. 

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