Poetas brasileiros atuais escrevem para eles mesmos, diz pesquisadora

Autora rebate críticas a texto em que diz que a poesia ficou hermética e sisuda

Mariella Augusta Masagão

Queria voltar a esse espaço com assunto menos insignificante, e talvez mais nocivo, como o cinema nacional, por exemplo. Contudo, foi a poesia brasileira contemporânea, por meio de seus representantes (azar o dela que tem representantes), que se ofendeu quando lhe atribuí certa tendência à sisudez e ao hermetismo.

Embora a consideração, publicada no dia 14 de abril, nesta Folha, não louvasse nem vituperasse ninguém, parte da poesia contemporânea brasileira e seus entusiastas condenaram-me como a alguém que, maldosamente, colocasse uma pedra no meio de uma fila de formigas. Não digo isso para provocar poetas que queiram se transformar nem em jaguar nem em planta, mas porque assim me parece.

Assevero, porém, que tudo não passou de um mal-entendido. Dizer que tal poesia sinaliza uma tendência à seriedade e ao hermetismo quer dizer somente isto: que não se entende bem o que ela diz, sobretudo enquanto poesia; e caso se entenda, não pode ser considerada nem satírica nem cômica. 

Seu tom moralizador e frágil pouco se aventura no humor —quando o faz, desaponta com uma palidez distante da tradição, tanto de nossa poesia quanto de nossa gente que ri, apesar do intelectual que vê no riso uma alienação ou do perverso que atira primeiro para perguntar depois.

Não se espera desses poetas nem o humor à inglesa nem à brasileira, tão bem plasmado na nossa poesia modernista, o qual pode ser entendido com apenas um de seus nomes, Oswald de Andrade. Embora até Álvares de Azevedo risse, ninguém pediu aos contemporâneos que rissem. O artigo apenas atendia ao propósito de uma coluna que não à toa se chama Perspectivas.

Por outro lado, a poesia brasileira contemporânea também se apresenta obscura, ora com uma dicção que se equilibra em determinados códigos que por si só nada dizem à poesia, ora com uma expressão bastante pessoal — nestes últimos casos, mais do que hermética, ela é solipsista. 

Decerto, não foi a mal que me responderam fora do tom e com apaixonadas contradições. Como a atual poesia carrega a mensagem que liberta e cuida, suponho que tenha sido por um problema de interpretação de texto. 

Além disso ser uma das tristes falhas na educação brasileira, nada mais pode explicar o porquê da intelligentsia de nossas letras, em que pese seu contentamento e segurança, ter reagido como se alguém lhe tivesse tirado o doce ou acabasse com a brincadeira, revelando que o rei está nu. 

Talvez tais poetas tenham ficado muito mimados pela anemia de uma crítica que foi reduzida à resenha, ao tapinha nas costas nos chatíssimos saraus e outros eventos. Talvez só a experiência possa mostrar que a crítica não precisa morrer nem ser como a Virgem Maria, advogada dos pecadores. Ela não atrapalha o mercado nem expulsa os jovens (nada interrompe uma vocação verdadeira). Já a poesia insípida, sim. 

A poesia contemporânea brasileira não cuida dos sentimentos dos leitores nem da excelência. Olha para o ideal, com o desprezo cafona e provinciano que se pensa subversivo ao romper com moinhos de vento, sem cuidar que dar espaços, pular linhas ou colocar o cotidiano no verso não é novidade faz tempo. 

A literatura não precisa de pretensões de marfim, zelos acadêmicos, hipocrisias sociais ou diários descolados e morais. Ela não tem tantas moradas como a casa do Senhor e tampouco é a casa da sogra.
Algum maior responsável deveria contar a nossa poesia contemporânea que ela precisa mudar de endereço, trabalhar não só a forma fria, apolínia, mas o vinho que embriaga, agita e revela.

 Toda essa poesia de hospital, de tribuna ou acadêmica não pode ser o espírito do nosso tempo, que parece mais enfurecido, dionisíaco e caótico. Tampouco temos poetas que possam se colocar ou serem colocados ao lado da tradição - que não pode ser reduzida às formas e aos temas. Não se pega carona na tradição.

Espero que os poetas tenham se sentido vingados e satisfeitos com a refutação de 28 de abril. Se parte da missão era impossível, ao menos promoveram-se alguns nomes —verdade que todos sisudos e sem graça, como as poetas que mencionei. Escusado dizer que escolhi tais poetas no mainstream, já que se pode encontrá-los até no escuro. 

Sei que não preciso me desculpar com quem desgostou da minha pena, pois tenho certeza de que, narcisos, dormem todos seus sonos de beleza. De minha parte,  agradeço a preocupação, mas nunca vivi com a autocrítica anestesiada, nem sob a proteção de amigos.

Não gostaria de ler mais nenhum pio fora do tom, nem verso aborrecido e frio. Vejamos se um pouco de poesia, para variar, consegue calar, em definitivo, essa patrulha: “Nenhum poeta tem o direito de fazer versos porque sinta a necessidade de os fazer. Há só a fazer aqueles versos cuja inspiração é perfumada de imortalidade”. Para sorte dos poetas contemporâneos, é de novo Fernando Pessoa, como poderia ter sido Machado de Assis ou Nelson Rodrigues

Mais não digo, pois o leitor pode encontrar com facilidade os dois artigos, caso queira conferir e ponderar.


Mariella Augusta Masagão é escritora e doutora em literatura portuguesa pela USP

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