Em conto inédito, João Gilberto fuma maconha com Novos Baianos

Coletânea de contos de Sérgio Rodrigues será lançada neste mês

SÉRGIO RODRIGUES

[SOBRE O TEXTO] O texto nesta página integra o conto “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos”, que também dá nome à coletânea do autor que a Companhia das Letras lança neste mês. Inspirado no encontro real entre o pai da bossa nova e os jovens hippies liderados por Moraes Moreira, o texto apresenta a mescla de precisão rigorosa e de delírio que forjou o melhor da arte brasileira no século 20.

Flores e vegetação coloridas em torno de uma pessoa que segura um violão.
ILustração pata a seção Imaginação da Ilustríssima - Folhapress

O homem chegou num fim de tarde de sábado, tipo cinco horas. O Moraes tinha inventado aquele dia de fazer uma moqueca mas, típico, perdeu o pique e a Ritinha teve que assumir. Moqueca atrasada, todo mundo faminto e quase de porre da cerveja na barriga vazia, um táxi Opala novo e de banho tomado para na estradinha de terra e me desce um cara de terno preto carregando um violão.

Eu ri. Fazia um calor de melar cocaína, quase todo mundo no banho de mangueira, neguinho de sunga, Teresa Olho de Peixe, Baby e Pepita nuns deliciosos biquínis quase teóricos, de repente me desce do táxi a porra de um coroa de terno preto carregando um violão. De olhar, só olhar, pinicava o cocoruto. O táxi engatou uma ré e sumiu. Lembro de pensar, sujou, mas não deu tempo de ir longe na paranoia porque de repente o tempo parou.

Sei lá quanto tempo o tempo ficou parado. Uma pausa de mil compassos do Paulinho, alguma coisa assim.

O primeiro que abriu a boca foi outro Paulinho, o nosso. Caralho, ele falou, cantando a palavra.

O cara de terno tarra em pé no portãozinho capenga entreaberto como se estivesse encabulado de entrar, sorrindo de leve. O sol bateu de chapa nos óculos dele, ricocheteou na buganvília que emoldurava o portão, foi terminar de chispar lá longe. Os gêmeos vieram engatinhando os dois ao mesmo tempo na grama em direção ao sujeito. Balbuciavam: Ho-ba-la-lá, ho-ba-la-lá. O velho Pirata, que tarra deitado perto do balanço da mangueira, também convergiu pro portão. O recém-chegado era um ímã.

De repente o Pepeu veio de dentro da casa esbaforido atrás dos gêmeos e levou um susto ao dar de cara com a cena. Falou: Epa!

Só aí o Moraes levantou a cabeça, piscando muito.

Naquele sábado o Moraes já tinha fumado três charros da grossura da canela da Ritinha e tarra há umas duas horas afundado em si. Sentou de lado na rede e tarra tentando calçar o chinelo quando um sorriso aberto iluminou a cara dele em sinal de caimento de ficha, e aí o andamento mudou radical. Com um salto ágil que eu nunca tinha visto ele dar, o Moraes ficou em pé e começou a gritar de braços abertos: João, meu rei, João, lá vem meu rei João, meu rei, cantando. Era a primeira vez que eu via esse comportamento de fã no Moraes, um cara no geral bem altivo e tal. Comecei a entender que normal era uma coisa que aquele dia não ia ser.

Decidi ir pegar o cavaquinho que eu tinha deixado em cima da cama e aproveitei pra dar uma mijada.

Quando voltei tarra todo mundo abraçado em fila dupla em volta do visitante. O Paulinho chorava, a Baby e a Pepita não paravam de rir, a Ritinha tipo olhando de fora meio incrédula meio enternecida e eu pensei, essa maconha que o Espectro trouxe ontem é veneno demais. Todo mundo mutcho louco, aquele não era o maluco chato da bossa nova, vozinha sussurrada, cara de contador ou de crente? Por que caceta tarra todo mundo tipo, vi Jesus agora?

O Moraes beijou a mão dele, o Galvão também. A Pepita, aliás Pepita Montez, ninguém menos, a famosa atriz da pornochanchada que eu não sei bem o que fazia lá, a Pepita beijou estalado as duas bochechas, no que foi imitada pela Baby. A Teresa entendeu mal e tentou patolar o cara, mas foi contida pela Ritinha.

Quando chegou a minha vez de abraçar o João, porque eu saquei que pegava mal não pagar meus cumprimentos e tal, eu era o mais novo ali, dei um tapinha no ombro e falei: Sou desafinado também. O que é verdade, cantando eu sou uma saracura baleada. Ha, he, hi, hi, hi, hi, o Paulinho riu.

A Rita avisou que a moqueca tarra pronta. Chegou na hora certinha, ela disse pro João, depois falam que baiano é atrasado. Fomos andando pra mesa da varanda. O pessoal comentava com o João como tinha sido legal uma outra vez que eles se encontraram, parece que num apartamento na cidade, mas que agora, no sítio, ia ser muito melhor. Eu não sabia nada daquilo de encontro em apartamento, não andava com o pessoal na época. Vi que os gêmeos tinham caído no sono no canto embaixo do nicho onde ficava a imagem de São Jorge. Pirata montava guarda junto deles.

Enquanto a Ritinha e a Tê traziam as panelas de barro com sua rabiola de fumaça, um perfume de enfeitiçar a vizinhança se ali tivesse vizinhança, apertei em cima da mesa uma tora que tarra mais pra canela da Baby que da Ritinha e ergui uma oração ao Espectro, que na véspera quando apareceu no sítio de moto com sua matula tinha contado a história do irmãozinho doente dele. A parada era tipo filme de terror, o irmãozinho do Espectro ia morrer se não aparecesse um doador de um tipo de sangue lá que só ele mais doze pessoas no mundo tinham, e o Espectro contou que por isso andava metido naquele negócio de vender bagulho, necessidade.

O pessoal começou a se servir de moqueca, arroz e pirão. Risquei um fósforo da marca Olho, acendi a tora e passei pro João. Ele pegou, olhou o beque com bitola de charuto. Botou na boca, tragou fundo e prendeu a fumaça. Quando soltou o ar, quase não tinha fumaça mais. Repetiu a operação mais duas vezes.

Depois de finalmente passar o baiano pra Pepita, João abriu a boca pela primeira vez desde sua aparição no Opala amarelo. Disse que um médico de Nova York que ele conhecia podia ajudar o irmãozinho do Espectro. Isto é, talvez.

Amém, eu falei. 


Sérgio Rodrigues é escritor, jornalista e colunista da Folha, escreveu os livros  “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira” (Companhia das Letras).

Ilustração de Silvia Amstalden, artista visual.

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