Em livro, Walt Whitman lamenta jovens mortos na guerra civil

'Dias Exemplares' reúne anotações, rascunhos e ensaios produzidos durante a Guerra de Secessão, nos EUA

Walt Whitman

[SOBRE O TEXTO] Os trechos abaixo fazem parte do livro “Dias Exemplares”, compilação de uma série de anotações de diário, rascunhos e ensaios curtos produzidos pelo autor durante a Guerra de Secessão (1861-1865) nos EUA, conflito que marcou profundamente a vida do poeta. O livro, em sua primeira tradução no Brasil, será lançado pela editora Carambaia no começo de julho.

rabiscos sobre a guerra
Ilustração - Vânia Medeiros

Soldados e conversas

Soldados, soldados, soldados, você os encontra por toda parte na cidade, muitas vezes homens de aparência soberba, ainda que inválidos, vestidos com uniformes gastos, trazendo bengalas e muletas. Muitas vezes conversei com eles, ocasionalmente conversas longas e interessantes. Um, por exemplo, terá atravessado toda a península sob o comando de McClellan —ele narra para mim as batalhas, as marchas, as estranhas e rápidas mudanças daquela acidentada campanha, e dá vislumbres de muitas coisas que não se contam nos relatórios oficiais ou nos livros ou nos diários. Essas, realmente, são as coisas genuínas e preciosas. O homem estava lá, tem estado há dois anos, viveu inúmeras batalhas, a carne supérflua da fala há muito não existe em suas palavras, e, se o que ele me oferece é pouco, é o músculo e a medula. São revigorantes esses duros, vivos e intuitivos jovens americanos (soldados experimentados, apesar de toda a sua juventude). O jogo e o sentido vocal tocam mais do que os livros.

Observa-se algo de majestoso no homem que cumpriu seu papel em batalhas, especialmente se ele é muito calado sobre elas quando você deseja que as revele. Fico sempre perdido diante da ausência de trombetas e trombeteiros entre esses jovens militares americanos. Encontrei uns poucos que estiveram em todas as batalhas desde que a guerra começou, e conversei com eles sobre cada uma delas em todas as partes dos Estados Unidos e sobre muitos dos engajamentos em rios e portos. Encontrei homens aqui de cada estado da União, sem exceção. (Existem mais sulistas, especialmente homens dos estados de fronteira, no exército da União do que geralmente se supõe.) Hoje duvido ser possível ter uma boa ideia do que essa guerra é de fato, ou do que é genuinamente a América e seu caráter, sem uma experiência do gênero da que estou tendo.

A morte de um herói

Pergunto-me se poderia apresentar a outra pessoa – a você, por exemplo, caro leitor – as doces e terríveis realidades de casos (muitos, muitos aconteceram) como este que eu agora vou mencionar. Stewart C. Glover, Companhia E, 5º de Wisconsin —foi ferido em 5 de maio, em um daqueles enfrentamentos brutais em território selvagem— morreu em 21 de maio —aproximadamente 20 anos de idade. Ele era um jovem baixo e imberbe —um esplêndido soldado— na verdade, quase um americano ideal de seu tempo. Ele servira quase três anos e teria se tornado apto à dispensa em poucos dias. Era da unidade de Hancock. A luta já havia sido interrompida naquele dia, e o general que comandava a brigada correu à unidade e chamou voluntários para o recolhimento dos feridos. Glover esteve entre os primeiros —saiu com alegria— mas, enquanto levava um sargento ferido para nossas linhas, recebeu de um atirador rebelde um tiro no joelho; a consequência, amputação e morte. Ele havia vivido com seu pai, John Glover, um homem fraco e idoso, em Batavia, condado de Genesee, Nova York, mas estudava em Wisconsin quando a guerra eclodiu, e ali se alistou —logo se apegou à vida de soldado, gostou dela, era muito viril, amado por oficiais e camaradas. Manteve um breve diário, como muitos outros soldados. No dia de sua morte ele escreveu o seguinte: hoje o médico disse que morrerei —tudo está acabado para mim— ah, morrer tão jovem. Em outra página em branco ele escreveu para o irmão: querido irmão Thomas, fui corajoso, mas cruel —reze por mim. 


Walt Whitman foi um poeta, ensaísta e jornalista norte-americano (1819-1892).

Tradução de Bruno Gambarotto, doutor em teoria literária e literatura pela USP. Traduziu, entre outros, “Folhas de Relva” (2013, ed. Hedra), de Walt Whitman.

Ilustração de Vânia Medeiros, artista visual.

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